'Receber imigrantes é obrigação moral da UE', diz Barroso

SÃO PAULO, 3 AGO (ANSA) - Por Beatriz Farrugia - Prêmio Nobel da Paz, ex-premier de Portugal e ex-presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso afirmou nesta quinta-feira (3), em São Paulo, que a União Europeia tem capacidade para receber mais imigrantes e que a concessão de refúgio é "uma obrigação moral". "Não podemos aceitar imigração ilegal, mas temos obrigação moral, de princípios, de receber os imigrantes. A Europa pode perfeitamente acomodar mais 1 milhão, 2 milhões de pessoas, se quiser fazer. Porém, isso não é facil, países homogêneos que não têm histórico cultural de imigração fazem oposição", disse Barroso em uma palestra sobre o futuro da UE realizada no Instituto Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo.   

De acordo com Barroso, "se o problema da imigração não for bem gerenciado, pode dar força para movimentos xenófobos", como já constatado em países europeus onde grupos nacionalistas ganharam projeção nos últimos anos, como a França, com Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN). "Precisamos receber todos os refugiados. A chanceler alemã, Angela Merkel, fez muito bem em dar um sinal positivo para acolher os imigrantes. O que seria se a Europa se negasse a recebê-los? A grande questão agora, para se discutir, é como receber esses imigrantes", comentou Barroso, apoiando a ideia da "responsabilidade compartilhada" e da distribuição de refugiados pelos 28 países-membros do bloco.   

A Itália, que tem seu continente no Mar Mediterrâneo, é uma das principais vias de entrada de imigrantes para a Europa e recebe diariamente dezenas de navios do norte da África e do Oriente Médio lotados de fugitivos de guerras, conflitos religiosos e terrorismo. Desde janeiro deste ano, chegaram 95,2 mil pessoas ao país.   

O governo italiano defende o acolhimento dos refugiados, mas exige uma participação maior dos países europeus na gestão da crise. A ideia de receber os imigrantes, no entanto, desagrada a nações como Hungria, Polônia, República Tcheca, Eslováquia e Áustria, que se negam a participar da distribuição. "Em 2013, eu estive no funeral de Lampedusa, de 300 mortos, com o então primeiro-ministro da Itália, Enrico Letta. Uma mulher morreu com o filho ainda ligado a ela pelo cordão umbilical. Ele não teve tempo de nascer", relembrou Barroso, que na época do naufrágio na ilha italiana ocupava o posto de presiente da Comissão Europeia e chegou a ser vaiado, junto com Letta, pelos moradores italianos que os chamavam de "assassinos" por não resolverem a crise imigratória. "A Europa precisa de mais gente, a Alemanha precisa de mais gente. Portugal, Espanha, Itália, todos os países sofrem com déficit de natalidade", argumentou Barroso, explicando que a concessão de refúgio ajudaria a suprir a redução populacional da Europa. Futuro da Europa - Além da crise imigratória, Barroso também falou em São Paulo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado "Brexit", e confessou acreditar na resiliência do bloco e na capacidade de superar o desafio.   

"Para entender a Europa, é preciso, antes de tudo, entender duas visões opostas. A primeira é a dos eurocéticos, que acham que a UE vai colapsar. A outra é a 'ingênua', que crê que viraremos uma única nação, os 'Estados Unidos da Europa'", comentou Barroso.   

De acordo com ele, a UE "está resignada", mas "também aliviada" com a saída do Reino Unido, uma vez que o assunto já está decidido e agora o bloco pode se concentrar em outros temas, como a atuação da Rússia no leste do continente e o protecionismo de Donald Trump.   

"É difícil tomar uma decisão, mas é mais difícil ainda mexer em uma decisão já tomada. O caso do Brexit se encaixa nisso. Os europeus querem fazer um acordo com o Reino Unido, mas precisamos estabelecer os limites desse acordo para que outros países não acabem se inspirando e deixando o bloco. Vamos ver qual será o ponto de equilíbrio", disse. "Quando não se paga as cotas do clube, não se pode ter acesso ao clube todo. Londres vai se manter uma capital financeira, mas vai perder força", defendeu Barroso, dando como exemplo outros países que mantêm relações limitadas com a UE, como a Suíça, a Noruega e a Albânia. O Nobel da Paz alegou ainda que os problemas que afetam a UE acabam, por outro lado, fortalecendo a união entre os países-membros. "A UE está unida contra Putin, na oposição a Trump e contra o Brexit. Também está cada vez mais preocupada com a Turquia", disse. "Estamos bem melhor do que estávamos, porém ainda há nuvens no horizonte, principalmente se comparado com a situação de outros países", argumentou. Sobre a crise política brasileira, Barroso demonstrou otimismo e confiança na capacidade do país de superar as instabilidades sem comprometer as organizações democráticas. "O Brasil já passou por muitas crises e vai passar por essa. Vou usar o mesmo termo que uso para a UE: resiliência.   

Se o Brasil passar por essa crise e conseguir manter as instituições democráticas, é uma grande coisa boa.   

Em outras épocas, essa crise geraria uma 'venezuelização'", ressaltou. "Minhas fontes dizem que as negociações entre UE e Mercosul estão em boas condições para se fechar o acordo comercial, principalmente devido às mudanças de governo no Brasil e na Argentina - sendo este último que mais mantinha posição protecionista do bloco sul-americano. Na Europa, também há resistência do setor agrícola, mas, com o protecionismo de Trump, a UE começou a considerar mais o multilateralismo", confessou. O acordo entre UE e Mercosul é negociado desde 1999.   

Representantes dos dois blocos dizem que o tratado será firmado até o fim deste ano. (ANSA)
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