Como Berlusconi está voltando ao centro da política italiana

SÃO PAULO, 10 NOV (ANSA) - Por Lucas Rizzi - Aos 81 anos, condenado por fraude fiscal e corrupção, acusado de corromper testemunhas e inelegível até 2019, o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi está de volta ao centro da política italiana.   

Se aproveitando das divisões no Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, e do isolacionismo do antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S), o ex-Cavaliere desponta como fiador de uma ampla aliança da direita que pode entrar como favorita nas eleições legislativas de 2018.   

Há um ano, quando completou 80 décadas de vida, após passar por uma delicada cirurgia no coração, Berlusconi parecia condenado ao ostracismo, mas muita coisa mudou em 12 meses. De lá para cá, o então popular primeiro-ministro Matteo Renzi renunciou; o PD, maior legenda do país, se dividiu; a direita, de moderados a ultranacionalistas, se uniu.   

Foi o próprio Renzi, em setembro de 2016, quem alertou: "Berlusconi não é um homem do passado, eu esperaria para defini-lo assim, ele tem mais vidas que um gato". De fato, Berlusconi renasceu.   

Em 5 de novembro passado, seu candidato Nello Musumeci foi eleito governador da Sicília e tirou das mãos do PD a quarta região mais populosa da Itália. No mesmo dia, a postulante que ele apoia para presidente do distrito romano de Ostia, Monica Picca, passou para o segundo turno.   

Nessas duas votações, um ponto em comum: a aliança entre o moderado Força Itália (FI), partido fundado e presidido por Berlusconi, e as legendas ultranacionalistas Liga Norte, de Matteo Salvini, e Irmãos da Itália (FDI), de Giorgia Meloni.   

E é por esse caminho que passa um eventual retorno do ex-primeiro-ministro ao governo. A última pesquisa para as eleições legislativas no país coloca o FI apenas na quarta posição, com 14,3% dos votos. Na sua frente, estão o PD (26,3%), o M5S (25,4%) e a Liga (14,5%), números que vêm se mantendo relativamente estáveis ao longo dos meses recentes.   

No entanto, essa mesma sondagem revela que uma coalizão de direita (FI+Liga+FDI) alcançaria 34% dos votos, superando a centro-esquerda (PD e outros partidos menores) e o Movimento 5 Estrelas, que rejeita fazer alianças com outras siglas.   

Essa união no seio conservador já começa a tomar forma na disputa para governador do Lazio, em torno da figura de Sergio Pirozzi, prefeito de Amatrice, cidade devastada por um terremoto em 2016, mas ainda é incerta em âmbito nacional.   

Um dos nós que ainda impedem a aliança é o nome do candidato a primeiro-ministro: é pouco provável que Salvini, em franca ascensão com seu discurso antieuro e anti-imigração, abra mão de chefiar o governo em caso de vitória, mas também é improvável que ele alcance esse objetivo sem o apoio de Berlusconi.   

A situação de incerteza deve permanecer ao menos até 22 de novembro, quando a Corte Europeia dos Direitos Humanos, sediada em Estrasburgo, na França, julgará um recurso do ex-premier contra sua inelegibilidade.   

Berlusconi foi impedido de ocupar cargos públicos até 2019 com base na "Lei Severino", que prevê a inelegibilidade e cassação de políticos condenados pela Justiça - ele perdera seu mandato de senador em 2013, após ter sido sentenciado por fraude fiscal.   

No entanto, o ex-primeiro-ministro alega que seus direitos humanos foram violados por ele ter sido punido de maneira "retroativa", já que a lei foi sancionada apenas em 2012, enquanto o processo por fraude transcorria desde 2005. A mesma tese foi rejeitada pela Corte Constitucional da Itália.   

Se a inelegibilidade for mantida por Estrasburgo, Berlusconi poderá se sentir mais propenso a apoiar Salvini. Contudo, em caso de vitória nos tribunais, ele mesmo pode pleitear uma candidatura ao Palácio Chigi.   

Além disso, apesar dos triunfos recentes, a aliança da direita já se mostrou instável em outras ocasiões. Em 2016, um comentário machista de Berlusconi ("uma mamãe não pode se dedicar a um trabalho tão terrível") fez Giorgia Meloni, líder do FDI e, na época, grávida, abandonar o candidato do Força Itália e se lançar na disputa pela Prefeitura de Roma. A divisão beneficiou Virginia Raggi, do M5S, que acabou eleita.   

De resto, Berlusconi continua enrolado com a Justiça, o que pode distraí-lo na campanha do ano que vem. Além de condenado em definitivo por fraude fiscal, o ex-premier já foi sentenciado em segundo grau por compra e venda de apoio no Parlamento (ele só escapou porque o crime prescreveu) e ainda responde por corrupção no sistema judiciário, ao supostamente ter dado mesadas para prostitutas mentirem em seu favor.   

Todos esses percalços mostram que o caminho de Berlusconi de volta a Roma ainda é repleto de obstáculos, mas também evidenciam sua resiliência, qualidade rara na política. (ANSA)
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