Colômbia, quando a arte e a música curam as feridas

BOGOTÁ, 30 NOV (ANSA) - Por Oscar Escamilla - A Colômbia busca curar as feridas de meio século de guerra refugiando-se em alguns de seus maiores méritos coletivos: a arte, a música e a cultura.   

Na última semana se celebrou o primeiro ano da assinatura do acordo de paz, que, além das discussões políticas, significou uma pausa para muitas populações atingidas por ataques e incontáveis delitos e violências causados pela guerra.   

Consultada pela ANSA sobre como a arte e o conjunto de suas expressões aproveitaram este primeiro ano de paz, a ministra da Cultura da Colômbia, Marina Garcés, respondeu que "de muitas maneiras" e fez uma breve lista de realizações.   

"Estamos chegando pela primeira vez a diversos lugares que por causa dos conflitos estavam isolados. Estamos evidenciando a dimensão integradora da cultura, promovendo espaços de encontro, transformação, cura e esperança através dele", afirmou. "Durante este ano, por exemplo, chegamos com programas como Expedição sensorial aos caminhos e aldeias da região de Montes de Maria para construir com seus habitantes e fortalecer suas manifestações culturais", ressaltou Garcés.   

A "Expedição sensorial" é um projeto de quatro anos, iniciado em 2016, no qual o Ministério consulta as populações mais afetadas pelo conflito armado interno sobre as expressões artísticas que foram silenciadas ou afetadas pela violência, a fim de recuperar a memória e identidade.   

Montes de Maria é uma sub-região no norte do país composta por 15 municípios, onde a guerra estava furiosa entre os habitantes, a ponto de que, no período de 10 anos, foram cometidos 56 massacres, uns 4 mil assassinatos políticos e 200 mil pessoas deslocadas, de acordo com dados da "Verdad Abierta", um portal especializado em conflito.   

No ano passado, em Montes de Maria, 1832 crianças participaram de sessões de treinamento em dança e música, e 189 pessoas se juntaram para aprender desde maquiagem até manutenção de instrumentos musicais. Em vários desses municípios, as gaitas, um tipo de flauta feita a partir de uma madeira local, e os tambores eram os instrumentos que colocavam a música no cotidiano e serviram de veículo para a expressão cultural.   

No entanto, tudo mudou quando os grupos paramilitares forçaram os músicos locais a tocarem seus ritmos para animar seus assassinatos, o que levou muitas dessas localidades a não tocar essas músicas novamente por causa da dor que elas causaram.   

Trata-se de uma "violência simbólica", disse a ministra Garcés, depois de afirmar que a "paz" encorajou várias dessas comunidades a "tocar os instrumentos em suas danças".   

Francisco Saravia é um administrador público que fez mestrado em gestão cultural na Europa e que agora compõe metodicamente as tradições orais de Son de Negros, uma dança de Mahates, departamento de Bolívar, que também foi "desligado" temporariamente por causa da guerra.   

"As comunidades mais vulneráveis e mais afetadas pelo conflito armado colombiano foram nossos negros, que se refletiram no Chocó e setores como Montes de Maria, San Basilio de Palenque, onde ocorreram uns massacres horríveis", afirmou Saravia à ANSA.   

Ele ainda acrescentou que, os que sofreram, foram justamente as "comunidades afros, as mais vulneráveis, as primeiras a apoiar o processo de paz".   

Saravia, junto com outros diretores culturais da região, está determinado a ensinar às crianças o valor e o significado de suas danças e músicas, muitas delas ligadas ao mundo africano.   

(ANSA)
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