Análise/Visita de premier confirma aposta da Itália na África

SÃO PAULO, 03 DEZ (ANSA) - Por Lucas Rizzi - Enquanto os políticos italianos já pensam nas eleições de 2018, com comícios e aparições diárias na imprensa, o primeiro-ministro Paolo Gentiloni fez um tour pela África na semana passada, confirmando a estratégia de Roma de apostar no estreitamento das relações com o continente para ampliar sua influência e reduzir os fluxos migratórios que desembocam em seu território.   

Os laços entre Itália e África não vêm de hoje, principalmente com os países mediterrâneos - a amizade entre Silvio Berlusconi e Muammar Kadafi é notória -, mas a proximidade geográfica virou também estratégia geopolítica a partir da chegada ao poder, em fevereiro de 2014, do social-democrata Matteo Renzi, sucedido quase três anos depois por Gentiloni, que manteve a diretriz.   

Esse período coincidiu com a maior crise migratória desde o fim da Segunda Guerra, que leva dezenas de milhares de migrantes forçados a atravessarem o Mediterrâneo rumo à Itália (181 mil em 2016, 117 mil nos primeiros 11 meses de 2017) - uma emergência que, em primeiro lugar, é humanitária, mas que não deixou de respingar também nas finanças e no tecido social do país.   

Segundo dados do Ministério do Interior, a maioria das pessoas socorridas no mar e levadas aos portos italianos é formada por migrantes de nações da África Subsaariana - a África Negra -, como Nigéria, Guiné, Costa do Marfim, Senegal e Gâmbia. Isso fez a Itália perceber que, para estancar a crise no Mediterrâneo, é preciso atuar diretamente em suas origens.   

Em seu período no poder, Renzi fez três giros pelo continente.   

No primeiro, em julho de 2014, visitou Angola, Moçambique e Congo. Um ano depois, passou por Quênia e Etiópia; em fevereiro de 2016, por Nigéria, Gana e Senegal. Todos eles subsaarianos.   

Além disso, fez visitas pontuais a Egito, em agosto de 2014, e Tunísia, em março de 2015, ambos no extremo-norte do continente, na fronteira meridional do Mediterrâneo. Por sua vez, Gentiloni, que assumiu o governo em dezembro de 2016, fez sua primeira viagem à África apenas na semana passada, passando por Tunísia, Angola, Gana e Costa do Marfim - nesta última, para uma cúpula entre União Europeia e União Africana. Porém seu governo vem patrocinando diversas ações para se aproximar do continente.   

A primeira e mais importante delas nasceu dois meses depois de sua posse: o acordo para Roma treinar e equipar a Guarda Costeira da Líbia, capacitando-a para resgates no Mediterrâneo.   

O pacto, apoiado pela UE, foi determinante para a drástica redução de 30% (dados até novembro) no número de pessoas que fazem a travessia marítima até a Itália. Na esteira desse acordo, a Marinha italiana iniciou uma missão naval contra traficantes de seres humanos nas águas territoriais da Líbia.   

No entanto, não demoraram a aparecer notícias de violações dos direitos humanos dos indivíduos resgatados pela Guarda Costeira de Trípoli. A emissora "CNN" conseguiu até gravar a venda de migrantes forçados como escravos perto da capital líbia.   

Pouco depois, em março, Gentiloni anunciou uma ajuda de 50 milhões de euros para reforçar as fronteiras do Níger, no Sahel, espécie de cinturão árido que separa a África Subsaariana da costa mediterrânea do continente - recentemente, Roma também abriu uma embaixada em Niamey, capital do país africano.   

Essa mesma quantia será dada pela UE para a criação de uma força conjunta de cinco nações do Sahel - Mauritânia, Burkina Fasso, Mali e Chade, além do próprio Níger - para controlar os fluxos migratórios. O acordo foi costurado pela alta representante para Política Externa e Segurança da União Europeia, a italiana Federica Mogherini, alçada ao posto por pressão de Renzi, que queria alguém de Roma no comando da diplomacia do bloco.   

"A Europa deve olhar ao sul pois a África é crucial por motivos de segurança, de políticas energéticas e pelos fluxos demográficos. Por isso, a Europa deve investir na África", disse neste sábado (2) o ministro do Interior da Itália, Marco Minniti, responsável pela gestão da crise migratória no país.   

Outro exemplo dessa atenção foi dado em maio, na cúpula do G7 em Taormina, quando Roma levou para o clube dos ricos cinco nações africanas: Etiópia, Níger, Nigéria, Quênia e Tunísia.   

Em 2016, a Itália foi o terceiro país que mais fez investimentos diretos na África, com um total de US$ 4 bilhões, atrás apenas da China (US$ 36,1 bilhões) e dos Emirados Árabes Unidos (US$ 11 bilhões). No ano anterior, a nação europeia havia liderado o ranking, com US$ 7 bilhões, à frente até dos chineses. Os dados são da consultoria EY.   

Grande parte desses recursos provém da empresa pública de petróleo e gás ENI, que possui diversos campos de extração na África. "Somos a mais africana das empresas italianas. Operamos em 16 países e não pretendemos parar por aí", declarou, em julho passado, o vice-presidente de assuntos internacionais da ENI, Lapo Pistelli, também vice-ministro das Relações Exteriores.   

No entanto, o continente desperta cada vez mais o interesse de pequenas e médias empresas, principal motor da economia italiana. "Em Angola, estamos completamente abertos a qualquer tipo de investimento, em qualquer setor. Sabemos que a Itália tem um rico tecido de pequenas e médias empresas, então as convidamos para investir", disse o presidente João Lourenço, durante um encontro com Gentiloni na semana passada, em Luanda.   

Essa aposta na África deve ser colocada à prova no ano que vem, quando a Itália elegerá seu novo Parlamento, em uma votação que pode provocar uma mudança de governo e, por consequência, nas políticas voltadas ao continente. (ANSA)
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