Retrospectiva/ Fora da Copa, futebol italiano vive paradoxos

SÃO PAULO, 26 DEZ (ANSA) - Por Lucas Rizzi - Campeonato novamente competitivo, times se destacando na Europa, surgimento de jovens talentos, volta dos investimentos estrangeiros, sucesso do árbitro de vídeo. E uma seleção fora da Copa.   


Tetracampeão mundial, o futebol italiano vive atualmente um dos maiores paradoxos de sua história, que desafia as teorias pré-concebidas sobre um "calcio" em decadência e levanta a pergunta: como a Azzurra conseguiu fracassar nas Eliminatórias enquanto os clubes do país vivem um de seus momentos mais auspiciosos dos últimos anos? A derrota no placar agregado para uma limitada Suécia decepcionou fãs da Itália no mundo inteiro, mas, de certa forma, foi a crônica de uma tragédia anunciada. Depois do título mundial de 2006, conquistado em meio ao escândalo de manipulação de resultados que cassou dois "scudetti" da Juventus, a Azzurra amargou duas eliminações seguidas na fase de grupos da Copa, primeiro com o conservador Marcello Lippi e depois com o reformista Cesare Prandelli.   


Nos dois casos, a Itália vivia um claro momento de entressafra, com uma escassez de talentos provocada por um campeonato nacional que dava pouco espaço a jovens italianos e que perdia a concorrência com Premier League, La Liga e Bundesliga. Inclusive em nível europeu.   


Nos ciclos das Copas de 2010 e 2014, apenas dois times italianos chegaram à final da Liga dos Campeões: Milan (2006/07) e Inter de Milão (2009/10), esta última com uma escalação titular 100% estrangeira. Porém algo mudaria depois do vexame azzurro no Brasil.   


Na seleção, Antonio Conte levaria uma Itália limitada e desfalcada às quartas de final da Eurocopa 2016, passando pela Espanha e parando apenas nos pênaltis para a Alemanha. Na Europa, uma renascida e cada vez mais poderosa Juventus faria duas finais de Liga dos Campeões, impondo limites aos temidos Real Madrid e Barcelona e perdendo a taça justamente para os arquirrivais espanhóis.   


No cenário interno, um surpreendentemente farto cardápio de jovens promissores, mais do que o suficiente para, aliado à turma de Buffon e companhia, fazer a Azzurra superar a Suécia na repescagem. O goleiro Donnarumma, os zagueiros Rugani, Caldara e Romagnoli, os meio-campistas Verratti, Jorginho (ítalo-brasileiro) e Gagliardini, os atacantes Bernardeschi, Insigne e Belotti: nomes não faltam para a Itália formar um time competitivo e à altura de suas tradições.   


O que deu errado, então? - No país, o culpado pelo fracasso nas Eliminatórias atende pelo nome de Gian Piero Ventura. Técnico veterano e de carreira discreta, foi chamado para comandar uma das camisas mais tradicionais do futebol após a saída de Conte e com a missão de rejuvenescer um elenco que já passara do prazo de validade.   


Mas o que se viu nos duelos contra a Suécia foi a aposta em um modelo conservador que caminhava resolutamente na direção oposta à Rússia. Jorginho, cérebro do meio-campo de um Napoli que lidera o Italiano, só entrou no time após a suspensão de Verratti. Insigne, tido por muitos como o melhor da Série A na temporada, não saiu do banco de reservas no jogo de volta.   


A tragédia respingou no comando da Federação Italiana de Futebol (Figc), cujo presidente, Carlo Tavecchio, fugiu das explicações, mas não evitou a renúncia. Como toda pessoa apaixonada por futebol sabe, os clubes mexem mais com o coração do que as seleções, e este é o alento dos italianos neste momento.   


Se a ausência da Azzurra será lembrada a todo instante pelos próximos seis meses, a Série A 2017/18 se desenha como a melhor e mais disputada dos últimos anos - com pelo menos cinco times (Napoli, Juventus, Inter, Roma e Lazio) capazes de apresentar um futebol de alto nível e distante do "catenaccio" que ainda permeia o imaginário dos torcedores estrangeiros.   


Isso sem contar o Milan, turbinado pelo dinheiro chinês, porém que ainda luta para aliar cofres cheios à eficiência. Os euros, aliás, parecem ter recuperado o interesse pelo "calcio".   


Enquanto a Juve bate recordes seguidos de faturamento, gigantes do porte de Inter e Milan atraem a cobiça de investidores, e projetos de novos estádios, como o da Roma, aumentam a promessa de uma Série A novamente protagonista na Europa.   


Das seis equipes da Itália em competições continentais, cinco (duas na Champions e três na Liga Europa) superaram a fase de grupos, confirmando o momento auspicioso do futebol da bota, ainda que a lembrança de Tavecchio e Ventura demore algum tempo para cicatrizar. (ANSA)
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