Berlusconi abre caminho para governo M5S-Liga na Itália

ROMA, 09 MAI (ANSA) - O ex-primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi deu nesta quarta-feira (9) seu aval para um governo entre o antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) e o partido ultranacionalista Liga.   

O líder conservador, um dos pilares da coalizão de direita, vencedora das eleições de 4 de março, estava sendo pressionado a dar uma espécie de "bênção" para a Liga se aliar ao M5S e formar um governo populista.   

Durante os últimos dois meses, Berlusconi insistiu na unidade da aliança conservadora, frente à postura intransigente do movimento antissistema, que se recusava a incluir seu partido, o moderado Força Itália (FI), nas negociações.   

Por sua vez, a Liga, cortejada pelo M5S, não quis romper a coalizão de direita unilateralmente, uma vez que governa três regiões do norte, Lombardia, Vêneto e Friuli Veneza Giulia, com apoio do FI.   

"O governo Liga-M5S não marca o fim da aliança de centro-direita. Permanecem as colaborações nos governos regionais e locais, permanece uma história em comum, permanece o compromisso assumido com os eleitores", disse Berlusconi, por meio de uma nota.   

"Se outra força política da coalizão de centro-direita quer assumir a responsabilidade de criar um governo com os 5 estrelas, tomamos ciência dessa escolha com respeito. Não cabe a nós colocar vetos", acrescentou o ex-premier, ressaltando, contudo, que não dará o voto de confiança a um eventual novo governo. "Não dá para pedir mais", disse.   

Um possível gabinete entre M5S e Liga teria 55% dos assentos na Câmara dos Deputados e 53% no Senado, uma maioria estreita, mas suficiente para governar e garantir a aprovação de leis.   

"Continuo acreditando que a solução mais lógica seria um governo de centro-direita, a coalizão que prevaleceu nas eleições. Mas esse caminho não foi considerado viável pelo chefe de Estado [Sergio Mattarella]", destacou Berlusconi. A aliança conservadora é dona de pouco mais de 40% do Parlamento.   

Agora cabe aos líderes do M5S, Luigi Di Maio, e da Liga, Matteo Salvini, negociar a formação do novo governo. "Ninguém poderá nos usar como álibis frente à incapacidade - ou à impossibilidade objetiva - de encontrar acordos entre forças políticas muito diversas", ressaltou o ex-premier.   

Pontos em comum - De fato, a "bênção" de Berlusconi joga toda a responsabilidade para Di Maio e Salvini, dois jovens que simbolizam a ascensão do sentimento populista na Itália. M5S e Liga possuem diversos pontos em comum, como a postura eurocética, o desejo de abolir a reforma previdenciária italiana e as críticas à migração em massa no Mediterrâneo.   

No entanto, os principais projetos de seus respectivos programas ainda não receberam apoio claro do outro lado. A criação de uma alíquota única no imposto de renda, bandeira da Liga, não convence o M5S, enquanto a "renda de cidadania", defendida pelo movimento antissistema, só será aceita por Salvini se tiver uma "porta de saída" bem definida.   

Tanto a Liga quanto o M5S também defendiam a retirada da Itália da zona do euro - no caso dos ultranacionalistas, até da União Europeia -, mas ambos mudaram de ideia nas últimas eleições e agora pedem "reformas" em Bruxelas para reforçar o papel de Roma.   

Outro nó é a poltrona de primeiro-ministro. Uma das condições do secretário da Liga para negociar com o M5S era que o partido recuasse da exigência de reservar o comando do governo a Di Maio, algo que ele já fez. No entanto, as duas legendas ainda não encontraram um nome de consenso para premier.   

A tradicional Liga tem uma linha ideológica clara e se beneficiou do crescimento das ideias de extrema direita e ultranacionalistas na Itália. Já o M5S cresceu calcado em um difuso sentimento antipolítica no país e é ideologicamente bastante heterogêneo.   

Di Maio, por exemplo, é mais identificado com ideias conservadoras, mas o presidente da Câmara, Roberto Fico, seu principal adversário interno, lidera uma ala mais próxima a projetos de esquerda.   

O presidente Mattarella deu até a próxima sexta-feira (11) para M5S e Liga entrarem em acordo. Do contrário, convocará novas eleições. (ANSA)
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