Brasileira traduz ideias do Papa para arquitetura em Veneza

SÃO PAULO, 14 MAI (ANSA) - Por Lucas Rizzi - Houve um tempo em que catedrais e basílicas refletiam o luxo e a suntuosidade do papado. Grandes templos ornados com ouro e mármore e forrados de obras de artistas renomados deixavam evidente o alcance do poder da Igreja Católica. Mas seria possível traduzir o pontificado de Francisco, um papa desprovido de qualquer adorno, por meio da arquitetura? A brasileira Carla Juaçaba, 42 anos, mostrou que sim. Ela é uma dos 10 profissionais convidados para a primeira participação do Vaticano na Bienal de Arquitetura de Veneza, cuja 16ª edição começa no próximo dia 26 de maio. Assim como seus nove colegas, Juaçaba projetou uma capela para o pavilhão a céu aberto da Santa Sé, que ficará na ilha de San Giorgio Maggiore até 25 de novembro.   


Não será a estreia da arquiteta na Bienal de Veneza - ela já havia contribuído para o pavilhão do Brasil em 2014 -, mas é a primeira vez que ela tira de suas pranchetas um projeto voltado para a fé. Mesmo não sendo católica, Juaçaba, autora de construções minimalistas e sustentáveis e dona de um extenso trabalho de pesquisa, foi convidada diretamente pelo curador do pavilhão do Vaticano, Francesco Dal Co.   


"Foi uma surpresa maravilhosa. Ele escreveu me convidando em agosto do ano passado", diz Juaçaba, em entrevista exclusiva à ANSA. O projeto da brasileira, desenvolvido ao longo de dois ou três meses, é, talvez, o mais simples dos 10 que marcarão a estreia do Vaticano na 16ª Mostra de Arquitetura de Veneza.   


Única totalmente a céu aberto, a capela de Juaçaba é formada basicamente por duas cruzes de aço polido, uma deitada e outra de pé - esta última de ponta-cabeça, como a cruz do martírio de São Pedro. As quatro vigas que dão forma à capela são espelhadas, de forma a refletir o jardim dos arredores. Não há paredes, altares, vitrais, figuras, quadros. A própria cruz na horizontal, posta sobre o gramado, serve de banco para os fiéis, juntando dois elementos essenciais de uma igreja.   


"A ideia é de uma capela que quase não existe. Quando ela passa a ser reflexiva, quase deixa de existir. É um pouco uma metáfora da passagem da vida, do existir, do não existir. Tem horas que vai brilhar com o sol, tem horas que a sombra vai ser muito importante", explica a arquiteta.   


A capela da brasileira e as dos outros nove profissionais ficarão em uma área verde da ilha de San Giorgio Maggiore, a poucos passos da basílica homônima projetada por Andrea Palladio (1508-1580), que, com sua clássica fachada branca e seu campanário de pedra da Ístria e cume cônico, forma uma das paisagens mais fotografadas de Veneza.   


Assim como suas congêneres daquele tempo, a basílica de Palladio é grandiosa. Monumental. Mas os tempos e o papado mudaram. O jesuíta Francisco, ao tomar posse do trono de Pedro, abriu mão dos ornamentos de ouro nas celebrações do dia a dia. Buscou simplificar a mensagem da Igreja e aproximá-la dos fiéis.   


Colocou a preservação do planeta no centro de sua agenda.   


A capela de Juaçaba é, tal qual Jorge Bergoglio, desprovida de adornos. Bancos sobre uma cruz para a contemplação do símbolo máximo do catolicismo, reduzindo a Igreja à sua mensagem primordial: o sofrimento de Cristo - e o de Pedro. "Você pode associar a capela com uma religião mais simples, sem ornamentos.   


O único ornamento é o brilho dela", diz a brasileira.   


Após a Bienal de Arquitetura, de acordo com o próprio Vaticano, o projeto será desmontado e reconstruído em alguma das cidades afetadas pela sequência de terremotos no centro da Itália, iniciada em 24 de agosto de 2016 e ativa até hoje. Segundo Juaçaba, Francesco Dal Co comentou sobre essa ideia lá no início, mas ela ainda não está muito "madura".   


"Não é propriamente uma igreja tradicional. Tem de ser inserida no contexto da natureza, com um caráter mais contemplativo, não tanto para fazer cerimônias", diz a arquiteta, cujo trabalho, pelos próximos seis meses, será uma espécie de porta-voz da simplicidade de Francisco na exuberância de Veneza. (ANSA)
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