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Falta de dinheiro abre crise no governo da Itália

26/09/2018 14h20

ROMA, 26 SET (ANSA) - A discussão sobre a lei orçamentária da Itália para 2019, que deve chegar ao Parlamento no início de outubro, abriu uma crise no governo e se transformou na primeira grande turbulência enfrentada pela aliança entre o antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) e a ultranacionalista Liga.   

Pressionado pelo sucesso do ministro do Interior Matteo Salvini (Liga), o ministro do Trabalho Luigi Di Maio (M5S) vem buscando acelerar a implantação de bandeiras de seu partido, como a "renda de cidadania" e o piso de 780 euros para as aposentadorias.   

No entanto, a Itália ainda enfrenta um cenário de baixo crescimento econômico e elevada dívida pública - 130% do PIB, a segunda maior da zona do euro -, o que tem feito o ministro de Economia Giovanni Tria adotar um tom mais cauteloso.   

Por conta disso, o economista tem sido pressionado diariamente por Di Maio a encontrar os recursos necessários para financiar as promessas do M5S. "Eu jurei no exclusivo interesse da nação, e não de outros. Obviamente, cada um pode ter sua visão, mas é preciso interpretar bem esse mandato", declarou Tria, que não pertence a nenhum partido.   

Inicialmente, o ministro de Economia do governo Liga-M5S seria o professor Paolo Savona, mas o presidente Sergio Mattarella barrou sua indicação devido a suas posições contra o euro. A sucessiva escolha de Tria foi uma forma de obter o aval do chefe de Estado.   

O debate gira em torno do Pacto de Estabilidade e Crescimento da União Europeia, que obriga os Estados-membros a manterem a dívida pública em até 60% do PIB e o déficit fiscal em até 3%.   

No entanto, para não fazer seu débito subir ainda mais, a Itália precisa segurar o déficit estrutural (que exclui medidas emergenciais e efeitos da conjuntura econômica) em pouco mais de 1%, número considerado baixo por Di Maio e Salvini.   

"Estamos bem cientes de que existem equilíbrios financeiros e contas a se manter em ordem, mas a barreira de 2% [no déficit] não é um tabu", declarou o ministro do Trabalho. "Precisamos manter as promessas com as contas em ordem e deixando a nossos filhos e netos uma Itália melhor", acrescentou.   

Por sua vez, Tria garantiu que a lei orçamentária não será de "austeridade", mas também não "criará dúvidas" sobre a sustentabilidade da dívida italiana. "É preciso continuar no percurso de redução da relação dívida-PIB", disse. O M5S promete não apoiar o orçamento se não houver financiamento para suas promessas.   

O partido entrou no governo como o mais votado do país, mas as pesquisas mostram que a Liga, com o bloqueio dos portos para migrantes forçados imposto por Salvini, já ultrapassou a popularidade do movimento antissistema.   

O M5S deseja obter ao menos 10 bilhões de euros para financiar a renda de cidadania, projeto que distribuirá um valor fixo mensal a todos que recebem menos de 780 euros por mês. Além disso, pretende adotar esses mesmos 780 euros como piso de aposentadorias.   

A pressão sobre Tria aumentou na última segunda-feira (24), quando a França propôs um déficit de 2,8%, o dobro do que a UE pede para a Itália. No entanto, a dívida pública francesa é inferior a 100% do PIB.   

"A França, para financiar sua lei orçamentária, fará um déficit de 2,8%. Somos um país soberano exatamente como a França. O dinheiro existe e finalmente pode ser gasto com os cidadãos", disse Di Maio. (ANSA)
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