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Bolsonaro tende a se aproximar de Salvini e Trump

30/10/2018 15h17

SÃO PAULO, 30 OUT (ANSA) - Por Beatriz Farrugia - Matteo Salvini, vice-premier da Itália, e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, foram os primeiros líderes políticos mundiais a parabenizar Jair Bolsonaro pela eleição à Presidência do Brasil.   


O gesto, apesar de uma saudação de praxe dos protocolos diplomáticos, é capaz de prever como será a futura política externa brasileira no governo do PSL. O ex-militar de 63 anos, que tomará posse no dia 1 de janeiro de 2019, já indicou que pretende adotar uma diplomacia mais nacionalista, sem tendências ideológicas para manter relações com outros países, e priorizando os acordos bilaterais - e não os multilaterais, como vinha sendo feito pelo Brasil na última década. Em seu plano de governo apresentado à Justiça eleitoral, Bolsonaro listou cinco eixos de propostas para a política externa: ?A estrutura do Ministério das Relações Exteriores precisa estar a serviço de valores que sempre foram associados ao povo brasileiro. A outra frente será fomentar o comércio exterior com países que possam agregar valor econômico e tecnológico ao Brasil. ? Deixaremos de louvar ditaduras assassinas e desprezar ou mesmo atacar democracias importantes como EUA, Israel e Itália. Não mais faremos acordos comerciais espúrios ou entregaremos o patrimônio do povo brasileiro para ditadores internacionais. ? Além de aprofundar nossa integração com todos os irmãos latino-americanos que estejam livres de ditaduras, precisamos redirecionar nosso eixo de parcerias. ? Países que buscaram se aproximar, mas foram preteridos por razões ideológicas, têm muito a oferecer ao Brasil em termos de comércio, ciência, tecnologia, inovação, educação e cultura. ? Ênfase nas relações e acordos bilaterais.   


Em seus discursos durante a campanha eleitoral, Bolsonaro teceu elogios a Trump e disse que poderá adotar medidas similares às do republicano, como transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Segundo o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Guilherme Casarões, é provável que Bolsonaro autorize a mudança da embaixada como forma de satisfazer os anseios urgentes de seu eleitorado. "Essa não é uma pauta da comunidade judaica, mas sim da comunidade evangélica, que é uma parte importante do eleitorado dele", ressaltou o especialista.   


Nos primeiros meses de governo, se Bolsonaro não conseguir a maioria do Congresso para aprovar reformas ou concretizar suas promessas de campanha, poderá optar por medidas que não dependam da aprovação legislativa e gerem impacto imediato. "Ele vai apostar em pautas que consegue resolver na canetada, que são coisas de política externa, como uma transferência de embaixada, um acordo internacional", explicou Casarões.   


Outra previsão é a de que Bolsonaro aumente o tom contra o regime de Nicolás Maduro, na Venezuela, adotando uma postura mais incisiva do que o Brasil tem feito até agora diante da crise. "Não sei muito bem como ele pretende fazer isso. Tenho a impressão que os EUA possam fazer alguma intervenção na Venezuela, e pode ser que Bolsonaro se alinhe a uma eventual decisão americana. Caso ocorra, isso será um marco em nossa história diplomática, que é de diálogo e pacificação", afirmou Casarões.   


Na última segunda (29), um dia após a eleição de Bolsonaro, Trump anunciou em seu perfil no Twitter que conversara com o brasileiro e que pretende trabalhar em parceria nas áreas comercial e militar. "Tive uma boa conversa com o recém-eleito presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que venceu com uma substancial vantagem. Nós concordamos que Brasil e Estados Unidos trabalharão juntos no comércio, na área militar e em tudo o mais. Excelente ligação, desejo boa sorte a ele", escreveu. Nesse sentido, Bolsonaro também tem seguido Trump em ameaças contra a China, que hoje é o maior parceiro comercial do Brasil, acusando o país de manter uma relação desequilibrada. "A China não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil", alfinetou o presidente eleito durante sua campanha.   


"Eu tenho um medo sincero que Bolsonaro comece a irritar a China. Isso pode gerar um desgaste desnecessário. O Brasil tem muito a perder se o país se enfraquecer do lado chinês", comentou o professor da FGV.   


Na Itália, porém, Bolsonaro parece ter um forte aliado político.   


Matteo Salvini, líder do partido de extrema-direita Liga Norte, ministro do Interior e vice-premier, tinha demonstrado apoio à candidatura do PSL no Brasil desde a campanha eleitoral. Famoso por declarações contrárias a imigrantes, Salvini elogiou o fato de Bolsonaro "ter mandado a esquerda para casa". O vice-premier também tem dito que Bolsonaro entregará Cesare Battisti à Itália - onde foi condenado à prisão perpétua por assassinatos cometidos na década de 1970. O italiano, porém, vive no Brasil graças a um asilo concedido pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Não vejo a hora de encontrar o novo presidente Bolsonaro.   


Ficarei feliz em ir pessoalmente ao Brasil para pegar o terrorista vermelho Cesare Battisti e levá-lo para a cadeia", disse Salvini. Bolsonaro ainda não anunciou seu gabinete de ministros, e muitas de suas propostas para a política externa vão depender se um diplomata de carreira do Itamaraty assumir - ou não - o cargo de chanceler. "Os sinais internacionais que Bolsonaro vem mandando são muito arriscados. Essas atitudes de mudar a embaixada do Brasil em Israel, de ameaçar sair de entidades como as Nações Unidas ou de apoiar intervenções em outros países terão um custo relativo muito alto para o Brasil. Um dano maior que o sofrido pelos EUA quando toma medidas similares, pois a imagem do Brasil está ligada ao multilateralismo, aos direitos humanos", concluiu Casarões. (ANSA)
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