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Bertolucci, o 'último imperador' agora no Olimpo dos poetas

26/11/2018 19h19

ROMA, 26 NOV (ANSA) - Por Giorgio Gosetti - Quando morre um grande artista, sempre percebemos que não estamos preparados, como se sua voz também nos fizesse falta, como se tanto silêncio e mediocridade subitamente nos assediassem.   


Mas para Bernardo Bertolucci, morto na manhã desta segunda-feira (26), aos 77 anos, chamado por muitos de "o último imperador", a surpresa chega como uma libertação: da longa doença que o impedia de trabalhar como queria, dos impactos físicos que o mantinham longe do Olimpo dos poetas ao qual pertencia, da solidão depois que seu pai, Attilio, e seu amado irmão, Giuseppe, o deixaram.   


A partir de hoje é aquele gigante que buscava dentro de si e que deixa o cinema e a arte mais pobres. Belo, culto, filho de poeta, sedutor com seu erre arrastado à francesa e as posturas anticonformistas, Bertolucci desembarcou em Roma bastante jovem, estudou letras em La Sapienza, escreveu poesias e conheceu Pier Paolo Pasolini, o vizinho já famoso que o encorajava e que o tomou como assistente em seu primeiro filme, "Accattone", de 1961.   


Foi uma autêntica reviravolta: Bertolucci, que já havia feito experiências com curtas-metragens, descobre que o cinema pode ser uma linguagem poética à sua disposição. Para o jovem cineasta, é a ocasião para conhecer um círculo de intelectuais e uma das melhores amigas de Pasolini, Adriana Asti, sua musa e primeira esposa.   


Com um roteiro de Pasolini sob o braço, estreou como diretor em 1962, com "La commare secca". Dois anos depois, com Asti de protagonista, assinaria o primeiro trabalho autenticamente seu, "Antes da Revolução", que inaugura a "nouvelle vague" do cinema italiano.   


Bertolucci assinou apenas 16 longas-metragens, mas que marcam três eras do cinema italiano. Com "Partner" (1968), se fixou na memória aquele tempo de revolta ideológica e da liberdade nos costumes que Bertolucci identifica como filhas da nouvelle vague e homenageia tanto em "O Último Tango em Paris" (1972) quanto em "Os Sonhadores" (2003).   


Com o filme para a televisão "A Estratégia da Aranha" e seu irmão para o cinema, "O Conformista", ambos de 1970, se abre a temporada da memória italiana entre fascismo e a luta partisan, que em "Novecento" (1976) ganha contornos épicos e ressoa também em "La Luna" (1979) e "A Tragédia de um Homem Ridículo" (1979).   


Depois tem início a grande página global no cinema de Bertolucci, entre os nove prêmios Oscar de "O Último Imperador" (1987) e as viagens de iniciação de duas obras muito pessoais, como "O Céu que nos Protege" (1990) e "O Pequeno Buda" (1993).   


Por fim, um "retorno para casa" que oscila entre o esteticismo quase autoirônico de "Beleza Roubada" (1996), a força contida de uma pequena joia como "Assédio" (1998) e o intimismo de "Eu e Você" (2012). Com esta lembrança juvenil, mas moderníssima, uma fábula filmada em espaços exíguos, mas com a força de Bertolucci da primeira à última cena, o cineasta se aposentaria.   


Até o fim de sua vida ele acariciou a ideia de um terceiro e conclusivo capítulo para "Novecento". Casado desde 1978 com Claire Peploe, amigo de colegas como Marco Bellocchio, Dario Argento, Mark Peploe, Jeremy Thomas, cinéfilo apaixonado, Bernardo Bertolucci é bastante citado pelo escândalo ligado a "O Último Tango em Paris", em função das acusações de violência psicológica sofrida por Maria Schneider e do processo e condenação à queima dos negativos do filme.   


Por sorte, como todos sabem, o longa foi salvo até chegar ao esplendor da restauração digital. Bertolucci será lembrado pelo sorriso que mostrou apenas poucos meses atrás, no Salão do Livro de Turim, quando falava sobre seus "sonhadores" de maio de 1968, que viviam sua juventude entre utopias e imagens. Um pouco de Bernardo ficou ali, jovem para sempre. (ANSA)
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