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Salvini brande rosário e compra briga com católicos

19/05/2019 14h22

ROMA E SASSUOLO, 19 MAI (ANSA) - O comício da extrema direita realizado em Milão, no último sábado (18), aprofundou a cisão entre o ministro do Interior e vice-premier da Itália, Matteo Salvini, e a Igreja Católica.   

Já criticado nos últimos meses por expoentes e publicações do mundo católico devido à sua ofensiva contra os migrantes resgatados no Mediterrâneo, Salvini comprou uma nova briga ao subir no palco do comício de Milão com um rosário em mãos.   

"Eu, pessoalmente, confio a minha vida e a de vocês ao coração imaculado de Maria, que, tenho certeza, nos levará à vitória", disse Salvini a dezenas de milhares de apoiadores, que também não se furtaram a vaiar o papa Francisco quando seu nome foi citado pelo ministro.   

Em um editorial publicado neste domingo (19), a influente revista católica Famiglia Cristiana chamou a exibição de Salvini com o rosário e as vaias a Jorge Bergoglio de "soberanismo fetichista" e acusou o ministro de "instrumentalizar a religião para justificar a violação sistemática dos direitos humanos" por parte da Itália.   

"Enquanto o líder da Liga exibia o Evangelho, outro navio carregado de vidas humanas era rechaçado", diz o texto, em referência à embarcação da ONG alemã Sea Watch, que não teve autorização para descer na ilha de Lampedusa 45 migrantes resgatados no Mediterrâneo.   

O navio foi apreendido neste domingo pela Guarda de Finanças, que denunciará a tripulação às autoridades judiciárias. Ainda não se sabe o destino dos 45 deslocados internacionais que estão a bordo.   

Antes disso, o diretor da revista jesuíta La Civiltà Cattolica, Antonio Spadaro, afirmara que "rosários e crucifixos ainda são usados como sinais de valor político, mas de forma inversa em relação ao passado". "Se antes se atribuía a Deus aquilo que deveria ficar nas mãos de César, agora é César quem empunha e brande aquilo que é de Deus", escreveu Spadaro no Facebook, sem citar Salvini.   

"A consciência crítica e o discernimento deveriam ajudar a entender que um comício político não é o lugar para fazer ladainhas. Está claro que o identitarismo nacionalista e soberanista precisa se fundar sobre as religiões para se impor", acrescentou.   

Também sem citar Salvini, o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, segundo na hierarquia católica, afirmou que "Deus é de todos" e que é "muito perigoso invocar Deus para si mesmo".   

Resposta - O ministro, por sua vez, rebateu que "uma Europa que nega as próprias raízes não tem futuro". "Sou crente, e meu dever é salvar vidas e despertar consciências. Estou orgulhoso de testemunhar, com ações concretas e gestos simbólicos, minha vontade de uma Itália mais segura e acolhedora, mas no respeito de limites e regras", disse.   

Salvini também afirmou que recebe mensagens de "freiras, padres e cardeais" pedindo para ele manter sua política de linha dura.   

"Sou o último dos bons cristãos, mas tenho orgulho de andar sempre com o rosário no bolso", ressaltou.   

Desde que chegou ao poder, em junho passado, o ministro e vice-premier não se reuniu com o papa Francisco nenhuma vez, apesar de o próprio líder ultranacionalista ter anunciado certa vez que se encontraria com o Pontífice.   

Essa distância se aprofundou no início de maio, quando Francisco recebeu uma família cigana alvo de protestos de neofascistas por ganhar um apartamento popular em Roma. Além disso, o esmoleiro do Papa, cardeal Konrad Krajewski, reativou por conta própria o fornecimento de energia elétrica a um prédio ocupado por mais de 400 pessoas - incluindo muitos migrantes - na capital.   

A ação gerou críticas de Salvini, que pediu para Krajewski "pagar as contas dos italianos em dificuldade". A gestão do ministro do Interior também é alvo de ataques entre padres, como dom Paolo Tofani, de Pistoia, que em uma homilia chegou a dizer que Jesus teria morrido ainda criança se o Egito tivesse uma política migratória como a da Itália. (ANSA)
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