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Papa compara profissional de saúde que luta contra Covid a santo

27/11/2020 20h47

SÃO PAULO, 27 NOV (ANSA) - O papa Francisco publicou nesta quinta-feira (26) um artigo no jornal americano New York Times no qual fez uma extensa reflexão sobre o período de pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2), que já matou mais de 1,4 milhão de pessoas e deixou 61 milhões infectados em todo o mundo, e comparou todos os profissionais da saúde que lutam para salvar vidas a "santos".   

Segundo o Pontífice, neste último ano, ele pensa e reza, e às vezes chora, ao lembrar de tantas "pessoas que morreram sem se despedir daqueles que amavam, famílias em dificuldade, até mesmo passando fome, porque não há trabalho".   

O argentino recordou que existem diversos lugares de conflito no mundo, sofrimento e necessidade, mas são momentos na vida que podem servir para "mudança e conversão".   

"Cada um de nós teve sua própria 'paralisação' ou, se ainda não o tivemos, algum dia teremos: doença, o fracasso de um casamento ou de um negócio, alguma grande decepção ou traição. Como no bloqueio da Covid-19, esses momentos geram uma tensão, uma crise que revela o que está em nossos corações", explicou ele, classificando cada frustração como uma "Covid pessoal".   

No artigo, o Santo Padre lembrou de sua experiência de "limite, de dor e solidão", quando a maneira como via a vida mudou: ao ficar doente, aos 21 anos, em 13 de agosto de 1957. Na época, ele estava no segundo ano de preparação para o sacerdócio no seminário diocesano de Buenos Aires.   

Jorge Bergoglio contou que não sabia quem era, se viveria ou morreria, e os médicos também não sabiam. Na época, ele fez uma cirurgia para retirar o lobo superior direito de um dos pulmões e só sobreviveu pela ajuda de duas enfermeiras que dobraram a dosagem de seus remédios e receitaram analgésicos extras: Irmã Cornelia Caraglio e Micaela.   

"Tenho uma ideia de como as pessoas com Covid-19 se sentem enquanto lutam para respirar em um respirador", disse o religioso, lembrando que as profissionais lutaram por ele até o fim, até sua recuperação.   

"Elas me ensinaram o que é usar a ciência, mas também a saber quando ir além dela para atender a necessidades específicas. E a doença grave que vivi me ensinou a depender da bondade e da sabedoria dos outros", acrescentou.   

Francisco ressaltou que essa atitude de ajudar os outros permaneceu contigo principalmente nos últimos meses, durante o lockdown, quando muitas vezes rezou por aqueles que buscam todos os meios para salvar a vida de outras pessoas.   

De acordo com o Papa, muitas enfermeiras, médicos e cuidadores estão pagando o "preço do amor", junto com padres, religiosos e pessoas comuns cujas vocações são o serviço. "É melhor viver uma vida mais curta servindo aos outros do que uma vida mais longa resistindo a esse chamado".   

Em sua longa reflexão, o líder da Igreja Católica comparou os profissionais da saúde a "santos", pois despertaram algo importante nos corações das pessoas. Ele citou como exemplo o fato de diversos cidadãos, em muitos países, aplaudirem de suas janelas os médicos e enfermeiros "com gratidão e admiração".   

"Eles são os anticorpos do vírus da indiferença. Eles nos lembram que nossa vida é uma dádiva e que crescemos dando de nós mesmos, não nos preservando, mas nos perdendo no serviço".   

Apesar de exaltar os profissionais da saúde, o líder religioso criticou o negacionismo de alguns governos, que "ignoraram as dolorosas evidências de mortes crescentes, com consequências inevitáveis", e de parte da população mundial, que protestou contra as regras de proteção contra a Covid-19, "como se as medidas constituíssem algum tipo de ataque político à autonomia ou à liberdade pessoal".   

Francisco, no entanto, enfatizou os líderes que têm feito grandes esforços para colocar o bem-estar de seu povo em primeiro lugar, agindo de forma decisiva para proteger a saúde e salvar vidas. "A maioria dos governos agiu com responsabilidade, impondo medidas rígidas para conter o surto", afirmou.   

Para o Pontífice, "olhar para o bem comum é muito mais do que a soma do que é bom para os indivíduos. Significa ter consideração por todos os cidadãos e procurar responder eficazmente às necessidades dos mais desfavorecidos".   

"A crise do coronavírus pode parecer especial porque afeta a maior parte da humanidade. Mas é especial apenas na forma como é visível. Existem milhares de outras crises que são igualmente terríveis, mas estão longe o suficiente de alguns de nós para que possamos agir como se elas não existissem", explicou.   

Como exemplo, ele citou as guerras espalhadas por diferentes partes do mundo, da produção e comércio de armas; das centenas de milhares de refugiados que fogem da pobreza, fome e falta de oportunidades; das mudanças climáticas.   

"Essas tragédias podem parecer distantes de nós, como parte do noticiário diário que, infelizmente, não nos leva a mudar nossas agendas e prioridades. Mas, como a crise da Covid-19, eles afetam toda a humanidade", lembrou.   

Francisco também fez uma analogia com o uso das máscaras e questionou que atualmente a usamos para proteger a nós mesmos e aos outros de um vírus que não é possível ver, mas e os outros vírus invisíveis, de pandemias ocultas, como as de fome e violência e mudanças climáticas? "Como vamos lidar?".   

"Se quisermos sair desta crise menos egoístas do que quando entramos, temos que nos deixar ser tocados pela dor dos outros", alertou.   

De acordo com o argentino, "este é um momento de sonhar alto, de repensar prioridades - o que valorizamos, o que queremos, o que buscamos - e de se comprometer a atuar no dia a dia sobre tudo aquilo que sonhamos".   

Além disso, ele fez um apelo sobre a necessidade de ter um sistema político e econômico decente depois da crise sanitária, porque não se pode voltar ao que tinha antes. "Precisamos de uma política que possa integrar e dialogar com os pobres, excluídos e vulneráveis, que dê voz às pessoas nas decisões que afetam suas vidas. Precisamos diminuir o ritmo, fazer um balanço e projetar melhores maneiras de vivermos juntos nesta terra".   

Por fim, o papa Francisco lembrou que "a pandemia expôs o paradoxo de que, embora estejamos mais conectados, também estamos mais divididos". Conforme seu texto, "o consumismo febril quebra os laços de pertencimento. Faz com que nos concentremos em nossa autopreservação e nos deixa ansiosos.   

Nossos medos são exacerbados e explorados por um certo tipo de política populista que busca o poder sobre a sociedade".   

"Para sair melhor desta crise, temos que recuperar o conhecimento de que, como povo, temos um destino comum. A pandemia nos lembrou que ninguém é salvo sozinho. O que nos liga uns aos outros é o que comumente chamamos de solidariedade", explicou, ressaltando que somente "sobre esta base sólida podemos construir um futuro humano melhor e diferente". (ANSA)
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