Deodoro vê Rio-2016 com alegria e desconfiança

O anúncio da vitória carioca na disputa para organizar a Olimpíada de 2016 foi recebido com um mistura de alegria e desconfiança no subúrbio de Deodoro, na zona oeste do Rio de Janeiro.

O bairro será a segunda sede mais importante da competição porque abriga diversas instalações do Exército que - desde o Pan-Americano de 2007 - são usadas para competições internacionais de esportes mais ligados à cultura militar, como o hipismo, a esgrima, o tiro e o arco e flecha.

Mas os moradores da área reclamam para o bairro a mesma atenção dada aos centros onde ocorrerão as demais competições.

"Acho legal que as Olimpíadas venham para o Rio de Janeiro e acho que faz sentido o país gastar dinheiro nisso. Não é porque a gente tem problemas que vai parar de investir no esporte", disse o frentista Clayton Oliveira.

"Mas o problema é que eles têm que gastar dinheiro também com hospitais e escolas aqui no subúrbio. Essa Olimpíada é mais pros ricos do que pra gente", disse.

Festa Enquanto em Copacabana milhares de pessoas se reuniram para acompanhar o resultado da disputa pela Olimpíada, em Deodoro a sexta-feira foi absolutamente normal.

As TVs dos bares do bairro que mostraram as votações em Copenhague não atraiam grandes atenções.

"Eu acho muito errado gastar dinheiro com isso. Você já viu como são horríveis os hospitais públicos daqui? Era isso que esse governo tinha que arrumar", disse o desempregado Davidson Costa da Silva enquanto tomava sua cerveja numa mesa bem distante da TV ligada.

Ao ouvir a opinião do cliente, o dono do estabelecimento fez questão de também apresentar a dele, favorável à Olimpíada.

"Isso vai movimentar a economia por aqui e beneficiar nossa comunidade. Vai ser muito bom ter os jogos aqui no Rio", disse.

"Isso é porque você é empresário", comentou Davidson ao ouvi-lo.

Contraste Nas instalações militares de Deodoro também são treinados jovens da região com potencial de se tornarem atletas de alto nível, mas que têm dificuldades bem maiores para encontrar apoio do outro lado dos muros destes centros de excelência.

O nadador William Muniz, de 16 anos, está entre aqueles que sonham em participar de uma Olimpíada, principalmente no Brasil, mas diz que não é fácil ser esportista morando em um subúrbio carioca.

"Tem escolas que dão apoio aos esportes, mas a minha é estadual e não investe nada", diz o jovem. "Tanto que eu sou o único atleta da escola." A maioria dos moradores de Deodoro com os quais a BBC Brasil conversou disseram que gostariam de ver a Olimpíada no Rio de Janeiro, mas também pediram mais atenção aos problemas da comunidade onde os Jogos serão realizados.

"É bom e não é", diz a comerciante Adriana Tourinho. Para ela, "o Brasil merece, sim, ter uma Olimpíada", mas a região precisa de investimentos.

Manutenção A irmã de Adriana, Viviane Tourinho, faz coro reclamando que algumas medidas bem simples poderiam resolver problemas que atrapalham demais a vida dos moradores.

"Tem buraco de rua, tem esgoto entupido, tem a grade da quadra de futebol toda rasgada e mais um monte de besteirinhas que são fáceis de arrumar, mas que ninguém faz", diz.

Os moradores também reclamam que, mesmo com todo o incentivo dado ao esporte na região, as quadras e equipamentos de lazer do bairro continuam em péssimo estado.

"Nosso campo de futebol era para ser de grama sintética e até hoje nada, e a quadra está neste estado lamentável", diz o secretário-geral da Associação de Moradores do Conjunto Habitacional Pro-Morar, Jorge Rosa Cruz.

Ele diz que, no caso do Pan-Americano de 2007, a comunidade não foi beneficiada ao fim dos Jogos porque as instalações construídas para a competição ficaram fechadas depois.

Infraestrutura Cruz afirma que os atletas e visitantes estrangeiros que assistirão às competições na região não vão nem chegar a perceber os problemas do bairro.

"Eles vão para lá e para cá em pistas expressas, com batedores, e nem veem nossa mazelas", diz.

Mas as autoridades afirmam que a comunidade de Deodoro - e toda a cidade do Rio de Janeiro - será beneficiada pelas obras feitas para a Olimpíada.

O gestor do Centro de Esportes em Deodoro, o coronel reformado Sergio Perdigão Bernardes, diz que a maior parte do dinheiro é investido em infraestrutura geral e não em equipamento esportivos.

"Muitos projetos que tem a ver com infraestrutura da cidade, como transporte e saneamento, acabam sendo retirados da gaveta quando existe a oportunidade de um evento desses", afirma Bernardes.

"Na verdade, apenas 5% a 10% do investimento total acaba em equipamentos esportivos.

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