Ex-traficantes de favela no Rio procuram UPP atrás de emprego

Em uma tarde de agosto, cinco meninas chegaram juntas à Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, para pedir ajuda. Elas atuavam no tráfico de drogas, mas queriam deixar o crime para trás.

"Entramos todas juntas, e eu falei que não queria mais ficar na vida que eu levava. Perguntei se eles podiam me ajudar a largar essas coisas e arrumar um emprego, uma escola. Queria mudar de vida", conta C., de 18 anos.

Um ano antes, a jovem havia sido presa pelos mesmos policiais aos quais se entregou. Menor de idade, passou sete dias presa e voltou à sua atividade: venda de cocaína nas ruas da Cidade de Deus. Agora, com a ajuda da UPP, ela e sua amiga R., de 19 anos, conseguiram emprego em um salão de beleza na comunidade.

"Fomos bem recebidas, eles ajudaram a gente. Mudou a nossa vida totalmente. Mudou para melhor, porque naquela vida não dava mais, não", conta C., que tem cicatrizes no corpo de agressões sofridas no passado.

Na última segunda-feira, a dupla conversou com a BBC Brasil dentro da UPP da Cidade de Deus. Nos meses após a instalação da unidade, em fevereiro de 2009, elas continuaram traficando e fugindo dos policiais que trabalham ali. Agora, elas fogem de traficantes, e recorrem aos policiais para proteção.

"Acho que, se a UPP não tivesse vindo, eu já estava era morta", diz R. 

Menos dinheiro

O soldado Stanley Giffoni, que é apontado pelas duas como uma espécie de guardião, diz que elas chegaram sem rumo.

"A vida delas foi toda no tráfico, são nascidas e criadas ali dentro", diz o policial. "Essas pessoas acham que só existe aquilo. A gente ajudou, arrumou escola, trabalho. Agora elas estão ganhando bem menos do que ganhavam antes, mas de maneira honesta."

Com o tráfico de drogas, cada uma faturava de R$ 2 mil a R$ 3 mil por semana. Gastavam com roupas, cosméticos e noitadas em bailes funk. "Eu gastava muito no baile, só tomava bebida cara", diz R. "Antes o dinheiro era fácil. Agora é suado", diz.

Giffoni diz que as jovens não foram as únicas a recorrer à ajuda dos policiais para refazer a vida. Pelo menos outras três meninas e três rapazes deram o mesmo passo, e um deles já está empregado, de acordo com o soldado.

Além das UPPs, associações de moradores ou ONGs também têm sido procurados por jovens que querem sair do tráfico.

No Morro da Providência, o capitão Glauco Schorcht afirma que a associação local conseguiu emprego para alguns jovens da comunidade com pequeno grau de envolvimento com o crime.

Schorcht diz que um acordo foi firmado com uma empresa de óleo e gás, que está contratando moradores após oferecer um curso na área de solda.

"Eles já garantiram mais sete turmas para pessoas da comunidade ano que vem", afirma o policial. "Isso vai ser uma ponta de lança para tentar cooptar esses garotos envolvidos com o tráfico."

O capitão José Luiz de Medeiros, comandante da UPP da Cidade de Deus, diz que os policiais identificam as pessoas com envolvimento primário com o crime organizado para oferecer ajuda. "Muitas delas não devem nada à Justiça, não têm mandado judicial", afirma.
 

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