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Boicote político e acusações de racismo marcam início da Eurocopa

08/06/2012 13h38

Pela primeira vez sediada ao leste da antiga "cortina de ferro", a Eurocopa, que começa nesta sexta-feira, era para ser o símbolo de união dos europeus, por anos divididos pela Guerra Fria. Mas o clima de integração, representado pela escolha de Ucrânia e Polônia como sedes, acabou ofuscado pela crise econômica que ameaça a Europa, acusações de racismo nos estádios, boicotes e tensão política doméstica.

O governo britânico anunciou ontem que não enviará representantes oficiais aos jogos porque não quer que o apoio à seleção do país seja interpretado como um apoio à administração do presidente ucraniano Viktor Yanukovych.

Com isso, juntou-se a um boicote de autoridades oficiais aos jogos na Ucrânia ao qual já haviam aderido Alemanha, Bélgica, Áustria e República Tcheca. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, e a Comissária de Justiça do bloco, Viviane Reding, também decidiram não participar da cerimônia de abertura da Eurocopa.

Boicote

A principal causa do boicote são as acusações de que a ex-premiê da Ucrânia, Yulia Tymoshenko, condenada a sete anos de prisão em outubro por abuso de poder e desvios de verbas, estaria sofrendo maus tratos na prisão. Tymoshenko foi uma das líderes da chamada Revolução Laranja, em 2004, e acusa o governo ucraniano de perseguição política.

Segundo o porta-voz Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, Oleg Voloshin, o boicote não afetaria o caso de Tymoshenko. "Esporte e política não deveriam se misturar", disse o embaixador da Ucrânia em Londres, Volodymr Khandogiy.

"Na verdade existe um uso seletivo dessa ideia de que esporte e política devem caminhar por vias distintas", diz o historiador Kevin Jefferys, da Universidade de Plymouth, que estuda a relação entre esporte e política.

Jeffreys lembra os jogos Olímpicos de 1980, em Moscou, boicotados pelos EUA e outras seis dezenas de países em protesto contra a invasão soviética ao Afeganistão - e seguido de um boicote da Olimpíada de Los Angeles pelo bloco comunista. Para o historiador, essa experiência prova que tais boicotes são pouco eficientes em atingir seus objetivos.

Simon Kuper, autor de "Soccernomics" (publicado no Brasil pela editora Tinta Negra) e de "Soccer Against the Enemy" (Futebol contra o Inimigo), discorda. "Em geral líderes autoritários que realizam grandes eventos esportivos, aproveitam a exposição internacional para ganhar legitimidade, e os boicotes podem ao menos dar ao público interno a percepção de que a comunidade internacional não é conivente com o regime."

Racismo

Para Jeffreys, a questão que pode causar mais problemas nesta Eurocopa está relacionada às denúncias de racismo. Na segunda feira, a exibição de um documentário da BBC abriu um debate sobre a a ação de grupos neo-nazistas e racistas em jogos na Polônia. Entre as cenas polêmicas estavam o espancamento de asiáticos que assistiam aos jogos e a troca de saudações nazistas entre os torcedores radicais.

O governo polonês protestou contra o documentário, que considerou exagerado.

Na quarta-feira, porém, o capitão da seleção da Holanda, Mark van Bommel, disse que durante um treino em Cracóvia, jogadores negros teriam sido alvo de manifestações racistas pela parte de torcedores poloneses, embora a equipe tenha decidido não fazer uma queixa formal sobre o incidente.

"Manifestações como essas sempre foram um problema no futebol polonês", afirma Kuper. "A exposição para um público europeu e o debate sobre o tema ao menos força as autoridades do país a tomarem uma atitude para reprimir tais práticas racistas."

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