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Na cidade sem água, contas continuam chegando; entenda o 'caos' em Itu

Renata Mendonça

Enviada da BBC Brasil a Itu (SP)

07/11/2014 12h39

Em Itu, a cidade mais seca de São Paulo – a 102 km da capital -, água na torneira é uma raridade. Moradores têm se virado comprando água ou abastecendo suas casas enchendo galões nas bicas espalhadas pela cidade. A conta de água, no entanto, ainda chega alta para alguns ituanos.

Thiago Ferreira, por exemplo, está há 45 dias sem uma gota na torneira. Suas duas últimas contas, porém, chegaram com cobranças dobradas.

"Não tem água nenhuma. Eu costumava pagar R$ 23, agora chegaram essas contas de R$ 57, R$ 63. Aí eu vim aqui reclamar, mas eles disseram que eu tenho que pagar. Vou fazer o quê?", disse à BBC Brasil.

A reportagem contatou a empresa Águas de Itu, empresa privada que tem a concessão da prefeitura para o abastecimento de água da cidade, que reconheceu estar tendo alguns problemas com cobranças indevidas.

"Na época de estiagem, as pessoas não se dão conta que na realidade elas estão gastando muito mais do que no tempo normal. Isso acontece porque elas reservam mais. E essa água ela utiliza", explica Maurício Camilo, coordenador de sistema operacional da Águas de Itu à BBC.

"Mas todas as contas anormais passam pelo financeiro. Então liga no 0800 para abrir solicitação de atendimento ou indo nas lojas e levando essa situação. Todos os casos são revistos."

Gastos

Sem água na torneira, a alternativa encontrada pelos moradores tem sido comprar água. No condomínio Villa Verde, o síndico Mário Vanini conta que já gastou R$ 75 mil em caminhões pipa para abastecer os apartamentos dos 500 moradores desde fevereiro.

"Não recebemos água da rede há 28 dias. Mas nossa conta que era de R$ 5 mil agora está na faixa dos R$ 7 mil. Estamos comprando caminhões desde que começou o racionamento, já gastamos R$ 75 mil reais. Os moradores pagam uma taxa a mais de R$ 150 reais só de água", conta.

Mas os que não têm condição financeira de comprar água, tentam se virar como podem. Dona Rita, de 85 anos, mora com a filha, que fez um empréstimo para suprir os gastos com água.

"Minha filha gastou quase R$ 400 na caixa (d'água). Com mais os 1.000 litros de água que ela comprou, ficou em mais de R$ 500. Ela que fez um empréstimo pra pagar, porque eu sou pensionista, o que eu ganho não dá pra nada", lamenta.

Caos

Itu historicamente sofre com a falta de água todos os anos, mas em geral os racionamentos costumavam durar apenas os meses do inverno no meio do ano.

"Nós nos preparamos para uma estiagem de 30, 60, até 90 dias que é a estiagem que historicamente nós vivenciamos. Os investimentos foram feitos nessa ordem, o que nós não esperávamos, e aí não é só Itu, é uma seca prolongada como essa", disse Maurício Camilo.

Em meio ao caos na cidade, alguns tentam achar os culpados pela situação. Os moradores se revoltaram com a prefeitura, fizeram protestos em frente à Câmara dos Vereadores e alguns deles chegaram a atacar o comitê de campanha do ex-prefeito da cidade.

A Águas de Itu também foi alvo de retaliações – os caminhões pipa da empresa que distribuíam água na cidade sofreram ataques de moradores.

Questionada pela reportagem sobre o que levou Itu a essa situação, a companhia citou a estiagem histórica e disse que, por conta dela, "todo o Estado precisará rever o planejamento com relação a água."

"Foi a pior estiagem dos últimos 100 anos. Itu sofre mais com essa situação pelas características do município de ter seus mananciais que nascem e morrem no município. Não temos nenhum rio intermunicipal. Tem que chover para que nós possamos ter a recuperação desses mananciais", explicou Maurício Camilo.

Justificativas

Para o prefeito Antonio Tuíze (PSD) erros de administrações passadas contribuíram para a situação em que a cidade se encontra hoje.

"Por muitos anos, nós tivemos erros no direcionamento do abastecimento público na cidade, não é problema meu. Eu estou aqui há um ano e 10 meses e estou lutando para trazer investimentos", disse em entrevista no último final de semana ao jornal local Periscópio.

Para tentar administrar o problema na cidade, a prefeitura criou um Comitê de Gestão, com a participação de secretários municipais, de vereadores, da empresa Águas de Itu e da Associação dos Engenheiros. Esse comitê faz reuniões todas as manhãs para avaliar a situação do dia anterior e pensar em novas ações para o dia seguinte.

Dele saiu a ideia de distribuir caixas d'água em alguns pontos da cidade para aumentar os pontos de distribuição de água para a população. Foi de lá também que veio a ideia das duas obras recentes que Itu começou a fazer para amenizar o problema da seca, a captação de água dos ribeirões Mombaça e Pau D'Alho, que ficam na região.

O governador Geraldo Alckimin (PSDB) também prometeu ajudar o município e já destinou R$ 2 milhões para amenizar a situação em Itu. "Foram liberados 20 caminhões-pipa e estamos mandando também água da Sabesp, apesar de ser um serviço da prefeitura", anunciou o governador paulista.

Chuvas

Nesta semana, Itu pode finalmente festejar a volta das chuvas na cidade. Na segunda-feira, no fim da tarde caiu um temporal que fez a alegria dos moradores.

Foram 40 milímetros de água caindo do céu – o equivalente ao que choveu em outubro inteiro -, que ajudaram a melhorar a situação dos reservatórios em Itu. Seriam necessários, porém, 300 milímetros até o fim do ano para a cidade rever o racionamento.

A chuva 'abençoada', no entanto, também causou estragos na cidade. Alguns pontos de alagamento foram registrados e, na Praça da Matriz – a principal da cidade -, uma rede de esgoto estourou, espalhando a sujeira acumulada pelas ruas. O cheiro forte fez comerciantes fecharem os negócios mais cedo e irem para casa.

"É comum você ter nas épocas de grande chuva os rompimentos de rede, o volume de água quando é grande tem alguns transtornos. Em todo momento quando tivermos chuvas fortes nós vamos ter problema, como nós tivemos problema quando não choveu", explicou Maurício Camilo.

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