As lembranças de um menino-soldado das Farc

Natalio Cosoy

Da BBC Mundo em Bogotá

"Dona, me empresta seu filho para que ele faça umas comprinhas para a gente", diziam os membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, à mãe de Martín (nome fictício), conta ele.

"Assim começou meu trabalho como miliciano. E as responsabilidades só foram aumentando. Eu tinha 8, 9 anos."

Martín foi incorporado às fileiras das Farc ainda criança, viveu anos como guerrilheiro e até que 'voou' de lá, como ele mesmo diz.



Se as Farc cumprirem a promessa feita em junho de permitir que os menores de 15 anos deixem o grupo, muitos devem começar a percorrer o caminho que, hoje, Martín está quase terminando.

O caso dele é um entre os mais de 3.500 casos de crianças e adolescentes colombianos que saíram do grupo armado desde 1999, segundo o Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar (ICBF), entidade encarregada de acolher menores das fileiras guerrilheiras que retornam à sociedade civil.

O uso de meninos e meninas na guerra não é limitado a uma facção em particular. Entre 1999 e os primeiros quatro meses de 2015, o ICBF recebeu 5.753 menores que haviam sido recrutados por grupos como Farc, Exército de Liberação Nacional (ELN) e paramilitares.

Em 2010, a Promotoria da Colômbia havia estimado que, entre a década de 1990 e 2005, os grupos paramilitares haviam recrutado 2.824 meninos.

Os paramilitares se desmobilizaram na metade da década de 2000. Alguns de seus membros viraram criminosos comuns, organizados nos chamados "bandos criminosos" ou "bacrim", também acusados de recrutar menores.

De qualquer forma, é complicado saber quantas crianças foram recrutadas por essas organizações, porque muitas já são adultos quando saem.



"A maioria das pessoas que entra nos grupos (armados) entra quando é menor de idade", explica Martín. E ainda que exista registro de recrutamentos forçados por partes da guerrilha, ele esclarece: "Enquanto eu estive lá ninguém me obrigou. Pode ser que isso ocorra em outros lugares".

Mas, segundo ele, nem seria preciso alguém obrigá-lo a ficar lá. "Eles se aproveitavam na nossa inocência", conta.

Fui me acostumando

Como muitos ex-membros das Farc, ele lembra da guerrilha na infância como uma parte benigna do cotidiano da região; uma zona onde não havia muito mais, uma das muitas partes do país onde a palavra Estado só era dita para falar de uma ausência.

"Sou de uma zona indígena, uma zona onde sempre houve guerrilha, de mais ou menos 50 famílias. A presença deles nunca foi, para nós, um obstáculo."

"Eles chegavam e ficavam na nossa casa, se hospedavam ali. Eu sempre morei com minha mãe e meus irmãos, meus pais são separados."

"Todo esse tempo a gente compartilhava com eles, comíamos com eles, e aprendíamos muitas coisas também. Fui me acostumando", conta.

11 anos

De fazer compras ele passou, com seu irmão mais velho, a fazer tarefas de inteligência, acompanhando algum guerrilheiro.

Sua entrada definitiva ocorreu quando tinha 11 anos e saiu da casa da sua mãe.

"Quando me dei conta estava mais dentro que fora, porque as responsabilidades haviam aumentado, já tínhamos participado de várias operações. Quando havia uma batalha com o Exército a gente informava em que posição estavam para que a guerrilha pudesse fazer emboscadas."



"Me treinaram por três meses, como é o protocolo, com um fuzil de madeira. Aos 11 anos eu já sabia como usar um fuzil", diz.

Ele diz que participou de muitos enfrentamentos, porque estavam em um zona estratégica.

"Minha mãe nunca quis que a gente participasse, mas era difícil para ela pedir que a gente não fosse, porque ela não podia oferecer o que o grupo nos oferecia naquele momento". O salário da mãe só dava para pagar alimentos.

"E um jovem já quer ter dinheiro, comprar sua roupa", explica Martín.

"Com a guerrilha começamos a trabalhar e nos pagavam alguma coisa. Não era muito, eram 10 mil, 20 mil pesos (entre US$ 4 e 8, pelo câmbio da época), dependendo do que tivéssemos que fazer."

"Entramos porque era a única opção que a gente tinha."

Por causa de sua idade, o general dava a eles tarefas de inteligência, algo que, segundo Martín, era muito arriscado "porque nos expúnhamos a sermos capturados" e "um privilégio, porque isso nos permitia ir em casa visitar nossa mãe."

Em todo o tempo na guerrilha, ele lembra que a operação mais exigente foi uma planejada com dois anos de antecedência. Ele tinha 13 ou 14 anos e com outros garotos passou meses transportando munições através de três municípios.

"Tínhamos que fazer o transporte por toda a selva. Foi uma missão muito dura."

Eles caminhavam das 5 às 11h da manhã. Cada viagem durava cerca de um mês.

"O clima era muito pesado, o tempo todo ficávamos úmidos e com frio. Muita gente desertava nesta época. Se um companheiro desertava, a carga a ser levada era repartida entre todos os outros."

Também tinham pouca comida: "Sopa de macarrão, a sopa guerrilheiro que a gente fazia, com massa e batata. Ou sopa de arroz com batatas. Ou chocolate ou café", diz.

"Por que está chorando, viado?"

No período da guerrilha, Martín também viu muitos companheiros feridos. "Isso é muito forte, porque eles fazem uma operação sem anestesia. E é triste vê-los gritar, chorar e perder sangue."

Desde os 9 anos, viu soldados morreram. Mas foi a morte de um companheiro que o marcou.

"O Exército o matou de uma forma muito forte. Era um amigo. Isso foi em um 24 de dezembro, às seis da manhã. Todo mundo estava relaxado. O Exército fez uma emboscada contra este amigo e o mataram com uma M60 dessas que te destroem, que destroem seu corpo."

"Eu chorava o tempo todo", diz.

"Você se esgota de medo, cansaço, desespero. Eu sofri muito."

Na parte pessoal, segundo ele, não há apoio. "Se você está triste ou chorando, não faz diferença para eles. Quando viam alguém chorando diziam 'por que você está chorando, viado?"

Irmão capturado

Em meados da década de 2000, a ofensiva do governo do então presidente Álvaro Uribe havia se intensificado e a campanha de bombardeios contra os acampamentos rebeldes colocavam pressão principalmente sobre as Farc.

"Não podíamos acampar nem por uma semana", conta Martín, que fazia parte de uma coluna móvel.

Martín diz que não podia ficar no mesmo lugar por mais de um dia. "E se a pessoa deixava um rastro, o Exército vinha, te perseguia e podia te matar", afirma.

O irmão dele foi pego em uma dessas operações do Exército.

"Eu fiquei sozinho. Tinha 15 anos, e ele 17. Ele foi levado para uma instituição de menores e então o ICBF o ajudou a entrar no programa de desvinculados menores de idade."

"Uma vez fui visitá-lo onde ele estava e soube que existia esse processo e comecei a pensar como faria para 'voar' dali."

Um dia, quando o mandaram ir a um povoado fazer comprar, ele foi e não voltou mais.

"Nem comprei nada, segui no mesmo ônibus direto para cidade."

Ele tinha 16 anos.

"Ter asas"

"O importante era recuperar a liberdade, poder fazer o que eu quisesse", diz.

"Muitos companheiros diziam 'eu queria sair voando, ter asas, sair daqui e ficar com minha família'. Mas muitos deles morreram com os sonhos frustrados, sem poder fazer o que queriam."

"Por que eles esperam que a pessoa sobreviva a uma guerra para que o ajudem? Por que não fazer algo antes que esses garotos entrem na guerra?"

"Se houver oportunidades, há formas de a pessoa ter renda, da família ter projetos produtivos, então com certeza as pessoas não vão querer ir para a guerra."

Hoje, Martín tem 24 anos e trabalha como promotor de reintegração da Agência Colombiana para a Reintegração (ACR), órgão encarregado de ajudar aos desmobilizados e desvinculados de grupos ilegais armados a voltar para a sociedade civil.

"Temos que mostrar à sociedade que somos diferentes. Não dizer 'estou desmobilizado, vocês têm que me ajudar'. Não, temos que demonstrar que somos capazes. Para isso temos que estudar, nos preparar, nos reintegrar."

Ele ainda faz parte do programa de reintegração em que entrou ao completar 18 anos. O processo costuma durar 6 anos e meio, e ele está na fase final.

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