O que o assassinato de uma prefeita um dia após a posse revela sobre a realidade do México

Alberto Nájar

Da BBC Mundo, na Cidade do México

Uma mulher "aguerrida, comprometida com a luta social".

Assim é lembrada Gisela Mota Ocampo, prefeita de Temixco, no Estado de Morelos, no centro-sul do México, assassinada no sábado um dia após assumir o cargo.

Militante de esquerda durante toda sua vida, ela travou duas batalhas para chegar à prefeitura.

Uma contra a oposição de políticos locais em garantir a igualdade de gênero nas eleições prévias à prefeitura.

Essa disputa ela ganhou: pela primeira vez na história, Morelos teve um número importante de mulheres candidatas. Gisela seria a primeira mulher a governar o município.

A outra batalha ainda seria iniciada.

Gisela Mota havia prometido entregar a segurança de Temixco ao governo estadual para combater, desta maneira, o crime organizado.

Mas não pôde fazer isso. Na manhã de 2 de janeiro, foi assassinada por um grupo que entrou violentamente em sua casa.

O governador de Morelos, Graco Ramírez, diz que os responsáveis integram um grupo de traficantes de Los Rojos.

O crime se insere na disputa de cartéis de narcotráfico para controlar a região, segundo especialistas e autoridades.

Igualdade de gênero

A família de Gisela Mota era muito ligada às comunidades eclesiásticas de base fundadas pelo bispo católico Sergio Méndez Arceo.

O padre foi um dos principais representantes da Teologia da Libertação na América Latina.

A ativista Flor Desiree León Hernández, do grupo Comunicação e Intercâmbio para o Desenvolvimento na América Latina (Cidhal), disse à BBC Mundo que a formação da prefeita foi decisiva na recente contenda política do Estado.

Em Morelos, os partidos políticos se opuseram a que houvesse paridade de gênero na definição de candidaturas municipais.

"Ainda há uma visão patriarcal, em que a política e a tomada de decisões são vistas como assuntos de homens e não de mulheres", afirmou León Hernández, que apoiou a candidatura da prefeita.

"Foi uma referência muito importante", lembra a ativista. "Conseguimos unir mulheres de todas as ideologias políticas".

O resultado foi que, pela primeira vez na história de Morelos, agora existem 6 prefeitas e 27 secretárias municipais.

E, por iniciativa de Gisela Mota, a prefeitura de Temixco tem agora 50% de funcionários homens e 50% de mulheres.

Sua outra iniciativa foi combater a violência no município.

Los Rojos

O assassinato da prefeita ocorreu em meio à disputa pelo controle de rotas de narcotráfico em Morelos.

Uma guerra na qual o papel das polícias municipais é essencial, disse à BBC Mundo Armando Rodríguez Luna, investigador do Coletivo Análise de Segurança com Democracia (Casede).

"Primeiro eles tentam controlar o território - por isso se voltam contra os prefeitos. Depois, buscam o controle das polícias municipais", explicou.

Assim, a decisão do governo do Estado de assumir a segurança nos municípios por meio do programa "Mando Único" provoca resistência dos criminosos.

E também de autoridades vinculadas a eles, acrescentou o especialista.

"É visível o repúdio dos municípios a ceder uma área que permite que se vinculem ao crime organizado e obtenham benefícios econômicos importantes. Mas também pode-se ler como a resistência de grupos criminosos que encontraram nas polícias municipais uma forma de ter braços armados, operacionais e de inteligência."

Uma das hipóteses sobre a morte da prefeita era seu respaldo ao Mando Único em Temixco, disse o governador de Morelos Graco Ramírez.

Segundo ele, seu repúdio ao grupo Los Rojos em seu município também foi uma das causas.

"O motivo que vemos, a princípio, é a negativa (da prefeita) em deixar que eles tenham presença (no município) e que o mandato da polícia não seja deles, e sim dos cidadãos", explicou à imprensa local.

Contexto do crime

Los Rojos é uma das quadrilhas de traficantes que atualmente opera em Morelos, segundo o investigador de Casede.

Há outras três: Los Ardillos, Guerreros Unidos e el Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG).

Essas organizações disputam a produção de heroína nas montanhas do Estado vizinho de Guerrero, a qual é transportada principalmente por via terrestre aos Estados Unidos.

Elas também competem pela rota de tráfico de drogas sintéticas, especialmente anfetaminas, que vão da Cidade do México ao sul do país.

Neste cenário é fundamental a chamada Autopista del Sol, que liga a capital mexicana ao balneário de Acapulco.

Casede documentou que os municípios vizinhos à rodovia têm um alto índice de criminalidade.

Temixco é um deles, além de Huitzilac, Cuernavaca, Xochitepec, Jojutla, Zacatepec, Emiliano Zapata e Puente de Ixtla.

Ali foram encontradas forças de segurança vinculadas a grupos de extorsão, tráfico de drogas e sequestro.

"É um caminho estratégico para diferentes atividades delituosas", explicou Rodríguez Luna. "Também observamos uma colisão muito importante de policiais municipais com alguns desses grupos criminosos."

Os grupos que disputam Morelos são extremamente violentos, segundo o governador Graco Ramírez.

Com seus crimes conseguem enviar mensagens, o que parece ser o caso de Temixco, já que o endereço operacional do Mando Único da polícia estadual está neste município.

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