A vida secreta de um caçador de mafiosos na Itália

  • Eliana Guardiano/Divulgação

    A chamada praça da memória é dedicada ao juiz Giovanni Falcone, à sua mulher, Francesca Morvillo, e a todos os mártires que lutaram contra a máfia italiana. Foi inaugurada em 2006 pelo então presidente da Itália, Carlo Azeglio Ciampi

    A chamada praça da memória é dedicada ao juiz Giovanni Falcone, à sua mulher, Francesca Morvillo, e a todos os mártires que lutaram contra a máfia italiana. Foi inaugurada em 2006 pelo então presidente da Itália, Carlo Azeglio Ciampi

A máfia tem feito parte da vida na Sicília por gerações, assim como a luta da polícia para tentar prender seus líderes. O esquadrão de elite que tenta prendê-los é conhecido como os Catturandi (capturadores, em tradução livre para o português).

Um dos integrantes deste grupo falou à BBC sobre o obscuro mundo em que trabalha e sobre como escondeu seu trabalho inclusive de sua namorada, até que ela reconheceu seu traseiro na TV.

Este é, aliás, o único momento em que se pode ver um integrante dos Catturandi, quando ele está prendendo um mafioso. Normalmente, são pessoas sem nome nem rosto.

Quando estão trabalhando em operações, aparecem usando gorros onde só se veem os olhos, para que não sejam identificados.

"Preferimos que nos chamem de 'grupo de leões', porque é isso que somos: selvagens, livres e prontos para atacar na selva a qualquer momento", afirma I.M.D., iniciais do nome do oficial, que não quis ter sua identidade revelada.

Anonimato

São menos de 20 pessoas na unidade. As razões pelas quais elas querem manter anonimato são bastante óbvias.

"Há um tempo recebíamos ameaças de morte por parte dos mafiosos", conta. "Chegavam a enviar cabeças de cabra para a sua casa. Era bem desagradável".

Nos anos 1990, ele também recebeu fotos do documento de seu carro marcadas com uma cruz vermelha. Este tipo de ameaça fez com que muitos de seus colegas deixassem os Catturandi.

Ele e seus companheiros grampeiam telefones de criminosos e os seguem por períodos que podem chegar a décadas antes de prendê-los.

"É como se você vivesse com essas pessoas. Porque você os escuta quando estão com os filhos, quando falam de assuntos familiares, vê como os filhos vão crescendo e até entra em contato com as emoções dessa pessoa", conta.

Dicas de literatura

Uma das pessoas grampeadas era um médico de Palermo, capital da Sicília, que atualmente está preso.

"Ele era muito culto", reconhece o policial. "Só de fazer a escuta já se aprendia sobre literatura italiana. Fazíamos muitas anotações, líamos os livros que ele indicava aos filhos. Era como escutar um programa de rádio."

"Estávamos fascinados por seus hábitos, sua forma de pensar e sua criatividade. Era difícil acreditar que se tratava de um mafioso."

I.M.D. diz que chegou a sentir falta da pessoa que monitorava quando esta foi presa.

"Você não o vê mais. É difícil psicologicamente lidar com isso, já que eles faziam parte da sua vida diária. Você chega até a sentir saudade deles."

Tortura

Nas duas décadas em que está na polícia, I.M.D. já ajudou a prender 300 mafiosos. Um dos que prendeu foi Giovanni Brusca, famoso por sequestrar e torturar um menino de 11 anos, filho de um mafioso que supostamente o havia traído. Brusca ordenou que o menino fosse morto e que seu corpo fosse dissolvido com ácido para que sua família nunca pudesse enterrá-lo.

No momento da prisão, quando os Catturandi invadiram a casa do mafioso, I.M.D. disse que teve sentimentos contraditórios.

"Eu queria lhe fazer muitas perguntas: por que você assassinou o garoto? Como você pode fazer isso com outro ser humano?"

Mas em geral há poucas oportunidades de falar com eles.

"Quando prendemos Brusca, conhecido como 'o Porco', ele começou a chorar como um bebê", disse.

"No caso de Provenzano, um chefão da máfia, ele se manteve em silêncio e sussurrou no meu ouvido: 'Você não sabe o que está fazendo'. Mas o que conta é que finalmente ele foi preso."

Brusca foi uma figura que, indiretamente, inspirou I.M.D. a entrar para a polícia. Em 23 de maio de 1992, a máfia colocou meia tonelada de explosivos em uma estrada que ia até o aeroporto de Palermo, assassinando o maior juiz antimáfia da Itália, Gionanni Falcone.

"Estava na festa de 18 anos da minha namorada", conta o policial, sobre uma época em que ainda era estudante de biologia.

"O pai dela era chefe da força de intervenção da polícia de Palermo. O pager dele e de outros policiais da festa começaram a tocar ao mesmo tempo, e ao ler a mensagem, todos eles começaram a chorar."

I.M.D. quis saber o que estava acontecendo e foi de moto até o centro da cidade. Lá viu um grupo de jovens rindo, se divertindo e comendo. Cheguei perto deles e disse que o juiz Falcone havia sido assassinado. "E eles me perguntaram 'Que diferença isso faz pra gente?'."

"No dia seguinte eu me inscrevi para trabalhar para a polícia e poder prender o máximo de bandidos possíveis."

"A maioria das pessoas que te conhecia deixaria de conversar contigo ou cuspiam na sua cara, porque ser da polícia era considerado uma traição."

Em uma de suas missões, o policial acabou conhecendo sua atual namorada. Ela não sabia o que ele fazia realmente. Ele dizia que trabalhava no departamento de passaportes da polícia.

Mas quando ele e seus colegas prenderam Brusca, ninguém tirava os olhos da TV para acompanhar a operação.

"Quando minha esposa [que na época era namorada] viu os policiais com os gorros em que só se veem os olhos, ela acabou reconhecendo um traseiro que lhe era familiar e em seguida me ligou. Não podia continuar a enganando e pedi que ela não contasse nada para ninguém. Por sorte, ela concordou e manteve isso em segredo."

Máfia menos poderosa

A máfia siciliana não é mais tão poderosa como há 20 anos, mas continua sendo um problema para a ilha.

"Sabemos que não podem mais matar as pessoas como costumavam fazer. E agora o sistema da máfia se transformou em uma intrincada rede de interesses que envolvem a política, as finanças e a estrutura da sociedade siciliana", explica o policial.

Para alguns, especialmente os jovens e turistas, a máfia ainda mantém uma aura romântica.

Nas lojas de Palermo, há camisetas do Poderoso Chefão e isqueiros em forma de armas. Uma dessas lojas fica a apenas uma quadra da rua onde, em 1992, uma bomba colocada pela máfia matou outro juiz, Paolo Borsellino.

Conhecido como "o homem bom de Palermo", ele ficou famoso por sua luta contra o crime organizado.

"Essas ruas são um paradoxo, assim como essa cidade", afirma I.M.D. "Gostaríamos de ser tão civilizados como o resto do mundo, mas não conseguimos deixar de sentir uma fascinação perversa pelo submundo do crime."

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