Ponto de vista: O que têm em comum Ivete Sangalo, Justin Bieber. e Kim Kataguiri?

Ricardo Calazans*

Faz uns anos, um professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) me contou que costumava chegar na sala de aula com o jornal impresso debaixo do braço.

Um dia, um aluno perguntou: "Por que você ainda compra isso? É caro, suja as mãos e degrada o meio ambiente".

O professor respondeu com simplicidade: "Para ler as notícias". E o aluno: "Quando a notícia é importante, ela chega até a mim" - e mostrou o smartphone para ele.

O problema é combinar com os algorítmos das redes sociais o que é de fato uma notícia importante. Nas últimas semanas, soube, por exemplo, que Ivete Sangalo teve uma crise de ciúmes do marido em público. E que Justin Bieber está namorando a neta do compositor brasileiro Eumir Deodato.

Eu não busquei essas informações. Mas elas vieram até a mim. Como? Graças a meus amigos na internet e a um fenômeno que não ousa dizer seu nome.



As pessoas sentem-se atraídas pelas celebridades e adoram fofocar sobre elas, mas quase ninguém admite isso. É aí que nasce o paradoxo do compartilhamento "crítico".

A crise conjugal de Ivete ou o novo affair de Bieber não estão exatamente no topo em uma escala de relevância. Mas apareceram repetidamente na minha timeline.

Compartilhar é quase irresistível: em geral, são notícias que se encerram nos próprios títulos. Não precisa nem clicar nelas para saber do que se trata. É só passar adiante, pingando uma opinião em cima.



Meus amigos virtuais concordam. Volta e meia, porém, postam informações assim, com piadas, julgamentos morais e até mesmo críticas a quem compartilha essas histórias acriticamente. Eis o paradoxo: qualquer que seja a intenção, ela só aumenta o alcance dessas publicações.

Mesmo que a vontade seja contestar esses fatos público-privados ("Ivete expôs a relação de forma vulgar", "o Deodato deveria deserdar a neta!", "Homem nenhum presta, Ivete tá certa", e a onipresente "E desde quando isso é notícia?"), no fundo o compartilhamento "crítico" não auxilia muito na reflexão. Funciona mais como propaganda involuntária.

Foi assim que descobri que Kim Kataguiri, o jovem de 21 anos que é hoje um dos expoentes da direita brasileira, ganhou uma coluna semanal num grande jornal de São Paulo.



Não pretendo ser leitor de sua coluna. Mas aposto que meus amigos vão me contar tudinho. Ao ler os posts e comentários sobre ele nas minhas timelines, muitos atacando-o, lembrei na hora dessa antiga letra da banda de rock Autoramas:

"Fale mal de mim / Fale o que quiser de mim / Mas por favor, não deixe que em nenhum momento / Eu deixe de estar no seu pensamento".

Desconfio que o rapaz adorou a "mídia espontânea" para sua coluna, curiosamente liderada por quem gostaria de vê-lo cair no esquecimento.

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