Usuários temem maconha transgênica e com agrotóxico nos EUA

João Fellet

Da BBC Brasil em Washington

  • Steve DiPaola/Reuters

    1°.out.2015 - Amostras de maconha disponíveis para venda em loja de Portland (EUA), no primeiro dia da liberação do uso recreativo da maconha no Estado de Oregon

    1°.out.2015 - Amostras de maconha disponíveis para venda em loja de Portland (EUA), no primeiro dia da liberação do uso recreativo da maconha no Estado de Oregon

Eleitores americanos que nos últimos anos votaram para legalizar a maconha em seus Estados pensavam em criar novas fontes de receita para o governo, enfraquecer o tráfico de drogas e combater o estigma enfrentado por consumidores. Mas muitos usuários não contavam com um efeito colateral da medida: a absorção da erva pelo capitalismo.

Conforme a legalização da planta avança pelos Estados Unidos e investidores despertam para seu potencial econômico, usuários e pesquisadores tentam agora impedir que a maconha se transforme numa espécie de commodity agrícola, com variedades transgênicas, uso intensivo de agrotóxicos e poderoso lobby entre os políticos.

"Depois de tudo o que fizemos pela legalização, é frustrante ver o rumo que as coisas têm tomado", diz à BBC Brasil Larisa Bolivar, diretora executiva da Cannabis Consumers Coalition, uma organização de usuários da erva sediada no Colorado.

No fim de 2012, Colorado e Washington se tornaram os primeiros Estados americanos a legalizar o uso recreativo da maconha. Desde então, foram seguidos por Oregon, Alaska e pelo Distrito de Columbia (sede da capital Washington). O uso medicinal da erva já foi legalizado em 23 dos 50 Estados americanos.

Bolivar diz que, ao elaborar as regras que regem a produção e o comércio de maconha, políticos têm deixado os consumidores de lado e levado em conta apenas os interesses de empresas farmacêuticas e produtores da erva.

A indústria da maconha, como tem sido chamada, já conta até com representantes em Washington. Em 2014, a National Cannabis Industry Association, organização que representa o setor, contratou um lobista para atuar junto a congressistas, prática comum a grandes segmentos empresariais.

Agrotóxicos no pulmão

"A maconha já está se transformando numa commodity", diz à BBC Brasil o biólogo Mowgly Holmes, cientista chefe do laboratório Phylos Bioscence, em Oregon.

Ele diz que, assim como a maioria dos fazendeiros que plantam milho ou soja em larga escala, vários produtores de maconha estão recorrendo a práticas do agronegócio, como o uso de pesticidas para aumentar a produtividade.

Holmes publicou em junho um estudo sobre a presença de agrotóxicos na maconha vendida legalmente em Oregon. A pesquisa detectou as substâncias em quase a metade dos produtos testados, inclusive em alguns cujos rótulos diziam ser orgânicos. Em alguns casos, o nível de agrotóxicos excedia o limite permitido para outros produtos agrícolas.

Holmes afirma que fumar produtos com agrotóxicos é ainda mais arriscado do que ingeri-los, já que as substâncias entram na corrente sanguínea sem que antes sejam metabolizadas pelo sistema digestivo.

No ano passado, a cidade de Denver (Colorado) interditou seis estufas de maconha ao flagrar o uso de pesticidas impróprios para uso em produtos voltados ao consumo humano.

Cabe à agência ambiental americana (EPA, na sigla em inglês) definir as regras para o uso de agrotóxicos em alimentos nos Estados Unidos. Porém, como a legalização da maconha tem sido promovida por Estados, à margem da legislação federal, a agência não elaborou diretrizes para o uso de agrotóxicos na produção da erva.

Segundo Holmes, a ausência de regras faz com que muitos produtores de maconha estejam aplicando pesticidas sem saber dos riscos. Ele defende que os Estados restrinjam o uso de agrotóxicos em pés de maconha a produtos com toxicidade mínima, aceitos até no cultivo de orgânicos.

Maconha transgênica?

Em outra frente, o laboratório de Holmes se uniu ao filogeneticista Rob Desalle, do Museu Americano de História Natural, para fazer o sequenciamento do genoma de milhares de tipos de maconha. O pesquisador diz que a planta, domesticada por humanos há cerca de 10 mil anos, possui variedades "incrivelmente diversas e complexas".

Segundo Holmes, o estudo busca criar um banco de dados e impedir que empresas tentem patentear variedades em circulação. Outra preocupação, diz o pesquisador, é evitar que gigantes do agronegócio passem a dominar o setor, produzindo maconha transgênica e reduzindo a variedade atual.

"Estamos muito preocupados em proteger a diversidade e os pequenos produtores", ele afirma.

Por enquanto, não há informações sobre o desenvolvimento de variedades transgênicas de maconha. Segundo Holmes, grandes empresas do setor, como a Monsanto, só esperam um afrouxamento da legislação federal para atuar na área, o que para ele deverá ocorrer dentro de dois ou três anos.

A Monsanto afirma em seu site que não "trabalhou e não está trabalhando com maconha transgênica".

A farmacêutica alemã Bayer, que também desenvolve sementes transgênicas, já produz medicamentos à base de maconha. Consultada pela BBC Brasil, a empresa disse não ter planos de desenvolver produtos agrícolas relacionados à erva.

Nova indústria do tabaco

Cada Estado americano a legalizar a maconha adotou um modelo diferente. Enquanto as leis em Colorado e Oregon, por exemplo, permitem que lojas vendam a erva e encorajem agricultores a cultivá-la, na capital Washington o consumo deve se restringir à produção em pequena escala dos próprios usuários.

Estados que pretendem legalizar a substância têm considerado as diferentes experiências em seu planejamento.

Uma comissão que elaborou uma proposta para a legalização do uso recreativo da maconha na Califórnia aconselhou os legisladores a criar um modelo que "previna o surgimento de uma indústria da maconha grande e corporativa dominada por um grupo pequeno de participantes", como ocorreu com o setor tabagista.

Grupos que se opõem à regulamentação da erva passaram a ecoar os argumentos. Para a organização Grass is not Greener, ao se fortalecer, o a indústria da maconha poderá querer propagandear seus produtos para crianças.

A National Cannabis Industry Association não respondeu um pedido de entrevista da BBC Brasil sobre as preocupações de pesquisadores e consumidores com os rumos do setor.

Analistas dizem considerar improvável, no entanto, que a indústria siga os mesmos passos das empresas de cigarro.

Especialista em políticas sobre drogas, o articulista Christopher Ingraham comparou no "The Washington Post" dados sobre a venda de maconha em Colorado e o consumo de tabaco.

Ele diz que, enquanto um grupo proporcionalmente pequeno e cativo de usuários responde pela maioria das vendas de maconha, os lucros das empresas de cigarro dependem de um público menos concentrado, o que requer estratégias comerciais e publicitárias mais abrangentes.

Para Larisa Bolivar, diretora executiva da Cannabis Consumers Coalition, o mais provável é que o setor se desenvolva como a indústria cervejeira, com grandes empresas convivendo com produtores artesanais.

"Acho que daqui a alguns anos teremos grandes marcas de maconha, como a Budweiser no caso das cervejas, competindo com variedades orgânicas vendidas por microprodutores em lojas 'boutique'", ela diz.

 

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