Vídeo com 'detentos' atirando para o alto em prisão gera polêmica na Venezuela

Daniel Pardo

Da BBC Mundo em Caracas

  • Henrique Caprilles/BBC

    Vídeo com 'detentos' atirando para o alto em prisão gera polêmica na Venezuela

    Vídeo com 'detentos' atirando para o alto em prisão gera polêmica na Venezuela

Um vídeo mostrando supostos detentos disparando para o alto em uma prisão da ilha Margarita, na Venezuela, causou muita polêmica no país.

Nas imagens podem ser vistos homens com revólveres, fuzis e munição - um verdadeiro arsenal.

Para muitos venezuelanos, o vídeo causou pouca surpresa. Muitos dizem saber "há algum tempo" que presos estão armados e que na prisão de San Antonio, em Margarita, eles "fazem o que têm vontade".

Nos vídeos, os detentos estariam fazendo uma homenagem a Teofilo Cazorla, conhecido como "El Conejo" ("O Coelho"), que morreu no domingo e era o "pran" da prisão, como são chamados na Venezuela os detentos que controlam uma penitenciária.

Os vídeos foram publicados na internet pelo ex-candidato à presidência da oposição Henrique Capriles. Ele disse à BBC Mundo que não pode revelar a fonte das imagens.

A BBC Mundo não pôde verificar de forma independente a autenticidade dos vídeos.

Outras gravações

Moradores da ilha Margarita no entanto publicaram vídeos e fotos que parecem confirmar que um tiroteio tomou os céus do principal destino turístico do país na tarde de segunda-feira.

Na terça-feira, as imagens chegaram à Assembleia Nacional da Venezuela. Os deputados da oposição projetaram os vídeos e fotos durante a sessão para chamar a atenção para o problema carcerário do país, afirmando que a culpa é do governo.

Até o momento da publicação desta reportagem os porta-vozes do governo venezuelano não tinham se pronunciado.

Nos últimos anos, com o aumento do poder de criminosos na Venezuela, suas manias e tradições foram ficando mais conhecidas do grande público.

Uma das "tradições" dos criminosos locais é disparar para o alto durante o funeral de um de seus líderes.

"El Conejo", que cumpria pena por narcotráfico, estava preso em San Antonio desde 2003 e era considerado um dos líderes carcerários mais poderosos da Venezuela. Ele estava em liberdade condicional e, ao sair de uma festa na ilha Margarita, foi morto a tiros.

Enquanto esteve preso, era o "gerente" da penitenciária, coordenando as operações ilícitas dentro de San Antonio. Era famoso, assim como outros "pranes" de prisões do país.

Em contas de redes sociais são divulgadas as armas que eles possuem, os bens e atividades que fazem dentro das prisões.

'Sem armas'

O governo da Venezuela, por sua vez, já negou várias vezes que existam armas dentro das prisões.

"Não há armas nas prisões", disse a ministra para Prisões venezuelana, Iris Varela, durante uma sessão da Assembleia Nacional há algumas semanas.

"Existem apenas cinco líderes ('pranes') em todas as prisões venezuelanas que estão afetando negativamente os que estão reclusos", acrescentou.

Varela comanda a pasta desde sua criação em 2011 e recebeu a aprovação de Maduro em uma reestruturação recente do gabinete de governo. Ela defendeu seu plano de desarmamento das prisões do país e disse que o governo impulsionou uma política carcerária de "disciplina social".

Segundo o Observatório Venezuelano de Prisões, desde a criação do ministério até junho de 2015 foram mortas 1622 pessoas nas prisões do país e outras 2328 ficaram feridas. A maioria delas por armas de fogo.

O diretor da ONG, Humberto Prado, disse que a "política da ministra tem sido a de 'o que entra bom (em uma prisão) sai ruim e o que entra ruim sai pior'".

"Só é preciso ver que, cada vez que ela diz que não há armas nas prisões do país, dias depois acontece um escândalo como o que aconteceu na segunda-feira em Margarita", disse Prado à BBC Mundo.

"A última vez em que disse não haverem armas (nas prisões), houve, dois dias depois, o tiroteio na prisão de Sabaneta que deixou 16 mortos", afirmou.

Prisão de luxo

Não é a primeira vez que a prisão de San Antonio na ilha Margarita aparece com destaque no noticiário nacional.

Várias equipes de reportagem que entraram no presídio mostraram imagens do que mais parecia ser um resort de férias do que uma prisão.

Em 2011, uma reportagem do jornal americano "The New York Times" mostrou que dentro de San Antonio havia piscinas, rinhas de galo, discotecas, armas e drogas.

Vários prisioneiros davam seus depoimentos na reportagem afirmando que realizavam seus negócios de narcotráfico e contrabando através dos sistemas de comunicação que têm dentro da prisão.

O "The New York Times" também mostrou algumas das imagens que voltaram a circular nas redes sociais nesta semana, de murais com retratos do "El Conejo" junto com Hugo Chávez. Em uma das imagens, "Conejo" até aparecia comendo ostras.

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