O que o baterista do Metallica e o sindicato dos taxistas de SP têm em comum

Ricardo Calazans*

No século 15, escrever era uma habilidade rara, um trabalho para poucos. A conservação da memória coletiva dependia do esforço paciente e manual dos escribas. Eles eram a luz intelectual da Humanidade e garantiam, com seu esforço metódico, que o conhecimento não se perdesse no tempo.

Quando Johannes Gutenberg inventou a prensa de tipos móveis, por volta de 1440, o papel dos escribas começou a mudar. O ofício deles era copiar livros, um a um. De repente, havia uma máquina que fazia isso de maneira muito mais eficiente, e em muito menos tempo. O que eles deveriam fazer?

Imprimir um panfleto. Em 1492, enquanto Colombo descobria um novo continente e o mundo ganhava novas dimensões, o abade de Sponheim, Johanne Trithemius, escreveu uma defesa inflamada do ofício dos escribas, De laude scriptorium, e simplesmente mandou imprimir uma boa quantidade de cópias do texto.

"O conteúdo do livro louvava os escribas, mas sua forma impressa os arruinava; o meio solapava a mensagem", aponta o professor e escritor norte-americano Clay Shirky, um dos maiores especialistas na cultura de participação digital. "Apesar de serem substituídos em sua função essencial, a percepção que eles tinham de si mesmos como essenciais continuou inalterada".(*1)

No fim do século 20, o Napster deu o pontapé inicial na revolução P2P. Foi o primeiro programa a permitir o compartilhamento de arquivos musicais em rede (ponto-a-ponto), e logo caiu nas graças dos fãs de música.

Mas não nas da indústria fonográfica, nem na de Lars Ulrich, baterista do grupo de thrash metal Metallica, que tomou a frente da briga contra a empresa dos jovens Shawn Fanning e Sean Parker.

Em maio de 2000, Ulrich convocou uma coletiva de imprensa na frente da sede do Napster e entregou caixas e caixas com nomes impressos (viva Gutenberg) de cerca de 260 mil usuários que haviam baixado ilegalmente músicas da banda, exigindo seu banimento da rede. (*2)

O Napster perdeu a batalha judicial para a indústria, mas a história não caminhou como Ulrich esperava - nem, como se sabe, para as gravadoras. Em dezembro de 2012, durante um evento público, ele declarou: "Nós apenas queríamos controlar o que estava acontecendo com nossa música, porque foi isso o que sempre fizemos. Acabou virando 'Metallica contra seus fãs', o que nunca foi o objetivo".

O evento público era de divulgação do novo design do serviço de streaming musical Spotify, que tem, entre seus investidores, o ex-Napster Sean Parker. As músicas do Metallica estão todas disponíveis na plataforma.

Antônio Matias é o Lars Ulrich dos taxistas paulistanos. Semana passada, o presidente do Simtetaxis (Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores nas Empresas de Táxi no Estado de São Paulo) gravou um vídeo em que anunciava, para o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e quem mais quisesse ouvir, o fim da tolerância com o aplicativo Uber, uma espécie de P2P entre passageiros e motoristas, controverso como o Napster foi.

"Nós somos bem antes de Uber, seu prefeito. Não queira briga com esse presidente. A partir do dia 28 de janeiro de 2016 o senhor está na marca do pênalti. Acabou a moleza, chega de palhaçada nessa cidade. Agora é cacete, prefeito."

Nesse mesmo dia, cerca de 200 taxistas depredaram carros a serviço da Uber que levavam passageiros a um baile de carnaval nos Jardins, bairro nobre da capital paulista. Qualquer automóvel preto era atacado com chutes, socos, barras de ferro.

Vidros foram estilhaçados e os passageiros ficaram aterrorizados pela violência. Não foi o primeiro ataque no Brasil a carros da Uber. O resultado, porém, foi o de sempre: mais e mais pessoas indignadas com a selvageria dos taxistas. "Eu uso Uber há um ano e meio e agora é questão de honra: não entro num táxi nunca mais", declarou ao jornal Folha de S.Paulo uma das convidadas do baile dos Jardins, atacada pelos taxistas em fúria (nunca se viu, por outro lado, tamanha veemência contra as diárias extorsivas pagas aos donos das autonomias, dos quais os taxistas se queixam desde sempre).

A Uber foi criada nos Estados Unidos em 2009. Opera desde 2010 e, quanto mais se expande pelo mundo, mais gera polêmica. A empresa criada por Travis Kalanick e Garrett Camp está longe de ser uma unanimidade.

Um dos pontos que seus adversários mais atacam é a utilização de motoristas não-licenciados, que podem colocar em risco a integridade dos passageiros. O problema é que os taxistas a combatem colocando em risco a integridade dos passageiros, como fizeram nos Jardins ou, no dia seguinte, em Belo Horizonte.

Como escribas ao volante, os taxista ainda se consideram essenciais, intocáveis. Antônio Matias e seus colegas em chamas têm que aceitar: há um novo concorrente na praça, com preços competitivos e atendimento de qualidade, quase em tempo real. A eles, só resta um caminho, e não é a violência, e sim a melhoria de seus serviços.

Qualquer usuário tem uma história ruim para contar sobre os táxis, de simples falta de educação a episódios tenebrosos de despreparo, violência, assédio sexual. Mas os bons taxistas também existem - sempre nos espantamos quando somos bem atendidos, e tratamos de compartilhar as poucas experiências positivas, como fazemos com a Uber mais frequentemente.

Lars Ulrich queria acabar com o Napster, mas acabou desapontando os próprios fãs. Descer o "cacete", como quer o presidente do Simtetaxis, e culpar os usuários por escolherem um serviço que consideram melhor, apenas empurra os passageiros para os braços do concorrente. Kalanick e Camp agradecem a propaganda.

(*1) A história da bronca do abade de Sponheim contra a prensa de Gutenberg está no livro de Shirky "Lá vem todo mundo - o poder de organizar sem organizações" (ed. Jorge Zahar, 2012)(*2) A briga de Lars Ulrich contra o Napster está em "Downloaded", documentário de Alex Winter (2012), disponível no Netflix.

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