Na Rio 2016, Brasil enfrenta desafio de ser anfitrião que não decepciona em medalhas

Fernando Duarte

Da BBC Brasil em Londres

Do peso de expectativas, Adriana Behar entende. Muito.

Há 16 anos, ela e a parceira Shelda chegaram a Sydney tendo vencido praticamente todas as competições internacionais de vôlei de praia desde a Olimpíada de Atlanta, em 1996. Poucas vezes na história esportiva brasileira um alto de pódio parecia tão garantido como o da dupla.

Na Austrália, porém, Behar e Shelda foram surpreendidas pela dupla local (Cook/Pottharst), juntando-se a um festival de favoritos brasileiros que não conseguiram o ouro. Por sinal, naqueles Jogos Olímpicos - de 2000 - a delegação do país voltou para casa sem uma única medalha de ouro.



Uma década e meia depois, Behar é a gerente de Planejamento Esportivo do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). E uma das dirigentes responsáveis pela ambiciosa meta para a Rio 2016, que será duramente testada em seis meses, quando começam os Jogos: terminar pela primeira vez uma edição dos Jogos nas 10 primeiras posições do quadro de medalhas.

Ferrenha

A missão também é evitar o que se pode chamar de um "vexame doméstico": nas últimas 11 edições olímpicas, apenas por duas vezes o país anfitrião ficou fora da "dezena de elite": o Canadá (27º em Montreal-1976) e a Grécia (15º em Atenas-2004).

Desde que começou a participar das Olimpíadas, em 1920, a melhor classificação brasileira no quadro de medalhas foi o 16º lugar em Atenas-2004, quando subiu dez vezes ao pódio e conquistou o maior número de ouros em uma mesma edição dos Jogos (cinco).

Em Londres, há quatro anos, os brasileiros trouxeram um total de 17 medalhas, o maior já obtido. Mas o país ficou apenas em 23º lugar no geral, com metade do total de medalhas acumuladas pelo décimo colocado, a Austrália (que levou 35).



No último dia 2, a empresa de análise de dados holandesa Infostrada Sports divulgou sua mais recente projeção para o quadro de medalhas da Rio 2016. Nela, o Brasil aparece no top ten, com os analistas projetando um total de 22 medalhas (nove de ouro, oito de prata e cinco de bronze). Há quatro anos, a empresa projetara 16 medalhas para o Brasil na Londres-2012.

A ex-jogadora e agora dirigente Behar deposita confiança no que classifica de "ciclo inédito" no que concerne os recursos destinados à preparação dos atletas - um total estimado de mais de R$ 1,3 bilhão. Isso apesar de um 2015 com resultados aquém do esperado em modalidades que costumam ser responsáveis por pódios olímpicos frequentes.

O exemplo mais contundente foi o vôlei masculino; a seleção comandada pelo técnico Bernardinho sequer ficou no pódio da Liga Mundial, a mais importante competição antes da Olimpíada.

"Este é o ciclo em que houve o melhor investimento na preparação olímpica brasileira, justamente porque sabemos da importância que esse Jogos Olímpicos terão para o esporte brasileiro. Nós sabemos que não é uma meta simples e que resultados estão sujeitos a uma série de fatores. Mas a meta continua e acho que as condições de atingi-la foram dadas aos atletas. Eu adoraria ser mais nova para poder usufruir do que os atletas brasileiros hoje tiveram à disposição", diz ela.

'Número mágico'

Segundo as projeções da Infostrada, os pódios brasileiros no Rio não virão apenas de esportes de força no Brasil, como vôlei de praia, iatismo e judô. Contam com brasileiros conseguindo medalhas em modalidades inéditas - como um ouro no tênis, graças do sucesso dos jogadores de duplas Marcelo Melo (número um do mundo em duplas) e Bruno Soares (recentemente campeão do aberto da Austrália ao lado do britânico Jamie Murray).



Há previsão também de ouro na maratona aquática de 10 km, com Ana Marcela Cunha. E prata na canoagem de velocidade, com Erlon de Souza e Isaquias Queiroze. Outra aposta é o bronze de Aline Ferreira, na luta livre (categoria até 75 kg).

Nos cálculos do COB, o "número mágico" a que os atletas olímpicos precisam chegar no Rio gira em torno de 27 a 30 medalhas. Enquanto o Comitê Olímpico Internacional (COI) usa o número de ouros como principal critério de classificação, os dirigentes brasileiros vão considerar o total absoluto em sua contagem.

"Nossa análise é puramente do ponto de vista de resultados de competições, e é atualizada mês a mês", explica à BBC Brasil o britânico Simon Gleave, diretor de Análise da Infostrada. "Sob esse aspecto, podemos dizer que é possível para o Brasil terminar no Top 10, o que seria um grande resultado para um país que vem crescendo no cenário esportivo. Mas será uma grande briga. Há certamente mais do que 10 países em condições de lutar pelas 10 primeiras posições."



"Mas projeção não é previsão. A grande razão pela qual as pessoas gostam tanto de esporte é que ele pode ser extremamente imprevisível".

Apesar de a Infostrata ter previsto que o Brasil entraria no Top 10 com 22 medalhas - 13 a menos que o número de medalhas do décimo colocado em 2012, a Austrália - Gleave nega que ficar entre o Top 10 em 2016 será mais fácil do que em 2012.

Isso porque a queda no número de medalhas necessário para garantir uma posição resulta da diluição da concorrência - potências como Estados Unidos, China e Rússia perderam espaço para um número cada vez maior de nações.

"Por isso, o número de medalhas de ouro deverá ser ainda mais importante para decidir o top 10. Países que quiserem ficar nesse patamar vão precisar de pelo menos oito ou nove ouros", completa o britânico.

'Doping doméstico'

Nesse ponto, o Brasil poderá se beneficiar de uma estatística curiosa: nas últimas oito Olimpíadas, países anfitriões não apenas passaram por "doping emocional" - um aumento no número de medalhas conquistadas, influenciado por fatores como torcida e entusiasmo dos atletas - mas também viram o ouro ser a cor de quatro entre 10 conquistas.



À exceção do Canadá, cujas 11 medalhas em 1976 marcaram seu pior resultado olímpico, países-sede costumam se sobressair em sua própria festa.

O economista Daniel Johnson, da Universidade do Colorado, nos EUA, famoso por projeções que levam em conta mais fatores econômicos que esportivos, afirma que o fator doméstico pode gerar um acréscimo substancial de medalhas para o país-sede.

Mesmo ficando fora do Top 10, a Grécia conquistou 16 medalhas em 2004, sua melhor participação desde 1896, quando também sediaram as Olimpíadas - e quando o número de atletas (241) era pouco maior que o número de países (204) representados em Atenas na década passada.

Qualquer que sejam os critérios, porém, os atletas brasileiros no Rio precisarão de um desempenho recorde para atingir a meta. Especialmente porque as projeções gerais de medalhas apontam para uma disputa ferrenha entre Brasil e Nova Zelândia pela décima posição - no ranking da Infostrada, os dois se igualam em 22 medalhas, mas o Brasil fica em vantagem por um ouro.

Já na lista compilada pelo analista italiano Luciano Barra, também conhecido pelo sucesso nas previsões, os neozelandeses fecham em décimo à frente do Brasil, que conquistaria 23 medalhas - vale lembrar que Barra acertou o total brasileiro de 17 medalhas na Londres 2012.



"A meta de ser Top 10 nos Jogos Olímpicos é dura como deve ser uma meta, mas dentro da realidade do esporte brasileiro", afirma Marcus Vinícius Freire, superintendente do COB.

"Os resultados dos últimos anos indicam que estamos alcançando um dos nossos principais objetivos para chegar ao Top 10, que é o de aumentar o número de modalidades chegando ao pódio em Mundiais. Nos últimos três anos, o Brasil alcançou as primeiras colocações em 15 modalidades", completa o dirigente.

Colaborou: Claudio Nogueira, do Rio de Janeiro

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