Como é a vida no maior campo de refugiados da França

Carolina Montenegro

De Calais (França) para a BBC Brasil

  • BBC

A vida no maior campo de refugiados da França é cinza. Localizado na cidade de Calais, no noroeste da França, de clima nublado, chuvoso e sujeito a temperaturas negativas durante o inverno, o local ganhou o apelido de "Jungle" (selva, em inglês) e, hoje, abriga cerca de 4 mil pessoas.

Refugiados e imigrantes vindos de países como Síria, Afeganistão, Eritreia e Marrocos vivem ali em tendas no meio da lama desde o ano passado. Ele aguardam uma chance de cruzar o Canal da Mancha; Calais abriga a entrada do Eurotúnel, principal ponto de acesso não-aéreo à Grã-Bretanha.

A precariedade do cenário, o primeiro campo do tipo na França desde a Segunda Guerra, remonta a campos de refugiados de países pobres e distantes, como o Haiti ou Congo.

A "selva" de Calais começou a despontar como principal acampamento de refugiados que viviam nos arredores da cidade em 2002. A crise sem precedentes de migrantes e refugiados cruzando o Mediterrâneo inchou o acampamento - e a questão do abrigo se tornou um dos principais desafios.

O sonho de todos eles é chegar à Inglaterra para aproveitar as oportunidades do mercado de trabalho local e tentar, assim, reconstruir suas vidas.

Enquanto não conseguem fazer o trajeto pegando "carona" em caminhões, carros ou trens ou após juntar dinheiro suficiente para pagar traficantes de pessoas, esses imigrantes constroem aos poucos suas vidas ali mesmo.

Há mais de um ano na "Jungle", Mohammed, de 38 anos, abriu um dos restaurantes locais mais populares, que serve quase 500 refeições por dia. Os preços dos pratos variam de módicos "o que você puder pagar" a 5 euros. Ele sonha com um futuro estável para sua esposa e seis filhos na Inglaterra.

"Não há futuro para mim no Afeganistão. Quando conseguir refúgio na Inglaterra, quero abrir o melhor restaurante afegão do país, é meu sonho", conta ele à BBC Brasil.

Sarna e preces

Como Mohammed, muitos alimentam planos e esperança enquanto esperam. O etíope Salomon ajuda a administrar uma igreja construída no campo, que hoje recebe excursões até de grupos católicos britânicos.

"Rezamos aqui todos os dias e, aos domingos, realizamos missas. Pedimos que Deus nos proteja e acolha os nossos colegas refugiados mortos no mar a caminho da Europa. É muito difícil a vida que levamos aqui", afirma ele.

As condições de vida são precárias; a maior parte dos refugiados vive em tendas ou abrigos improvisados sujeitos a vento, chuvas, lama, lixo e doenças. A sarna é um dos mais recorrentes problemas de saúde no campo, segundo a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).

"Temos registrado muitos casos, principalmente entre os afegãos, e realizamos dedetizações frequentes nos abrigos", diz Pierre Cami, enfermeiro do MSF.

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Muitos refugiados resistem a receber tratamento, mas são convencidos a colaborar após longas conversas e negociações realizadas em seus próprios idiomas por tradutores e mediadores culturais do MSF.

Violência

Há cinco meses trabalhando no campo, o enfermeiro Cami conta que a outra grande preocupação médica são as denúncias de violência por parte da polícia e de grupos xenófobos: "Desde janeiro, registramos de 12 a 18 casos por semana de vítimas de violência policial".

"Um jovem afegão contou ter sido preso com um grupo de amigos, após tentar cruzar o Canal da Mancha em um caminhão. Eles foram algemados e espancados em um terreno baldio distante daqui", relata Cami.

O marroquino Khaled contou à BBC Brasil ter sido vítima de um grupo xenófobo. "Estava andando na estrada rumo à cidade de Calais de noite quando fui agredido por um grupo dentro de um carro. Eles falavam francês e me espancaram gritando que eu devia ir embora daqui", conta.

ONGs que atuam ali acreditam que a violência é reflexo do aumento da tensão entre as autoridades de Calais e os refugiados. O governo francês informou estar investigando as denúncias.

Moradores da cidade também estão alarmados com os episódios de violência contra refugiados. "É um absurdo o que está acontecendo, temos de fazer algo a respeito", afirma Nancy, que mora em Calais desde sua infância e, hoje, hospeda em sua casa jornalistas e ativistas em visita ao campo de refugiados.

No final de janeiro, o movimento alemão Pegida (sigla alemã para "Patriotas europeus contra a islamização do Ocidente"), tentou organizar uma manifestação anti-imigração em Calais, mas as autoridades locais rapidamente desmantelaram os protestos, que contaram com a adesão de cerca de 150 pessoas.

Solidariedade

Ao mesmo tempo em que crescem os episódios de violência, cresce o apoio de voluntários e ONGs à "Jungle".

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Sarah Parker, uma jovem britânica de 28 anos é voluntária na escola Chemin des Dunes, aberta no início de fevereiro como um projeto idealizado pelo refugiado nigeriano Zimako Jones. "É mais perto do que ir à Síria ajudar os refugiados fugindo da guerra", ela explica.

Graças a doações de franceses e britânicos, a escola foi construída em um barracão com duas salas de aula, uma enfermaria, um playground e uma sala de reunião. Sete dias por semana são oferecidas ali aulas de francês, inglês e artes para crianças e adolescentes.

"É difícil trabalhar aqui, mas conheço pessoas do mundo todo, é muito gratificante", afirma Cami, do MSF, que acrescenta "achar uma vergonha como as pessoas estão sendo tratadas em plena França". "É uma vergonha para mim como francês."

O britânico Steven Jones concorda. Há três semanas, ele visita Calais como voluntário, doando roupas e alimentos. Junto, traz seu filho Samuel, de 14 anos.

"Vi as notícias sobre os refugiados em Calais na TV e não pude deixar de fazer algo. Conheci muitos outros voluntários aqui, mas é uma tristeza ver como os governos estão distantes das preocupações e do que querem seus cidadãos", diz Jones.

Anúncio de despejo

Na semana passada, surgiu uma nova preocupação para os moradores da Jungle. A prefeitura de Calais anunciou uma leva de despejos na parte sul do campo, argumentando ter construído moradias com contêineres para cerca de 1,5 mil refugiados, o mesmo número de pessoas que seriam obrigadas a deixar o local.

Muitos deles, porém, rejeitam os novos abrigos por receio dos controles de movimentos a que estarão sujeitos se viverem ali. Um grupo de ONGs liderado pela organização Care4Calais entrou na Justiça contra o despejo.

Em uma correspondência ao ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve, oito organizações, entre elas Emmaus, Medicens du Monde e Secours Catholique, condenaram a decisão do governo.

Cazeneuve respondeu em outra carta afirmando que "a evacuação da zona sul será feita de maneira progressiva, em respeito às pessoas e levando em conta cada caso individual".

A expectativa é de que os despejos ocorram até março. ONGs e refugiados esperam manifestações e protestos pacíficos nas próximas semanas.

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