Analistas: Recessão será mais longa, mas menos 'dramática' que na era Collor

<div class="bbc-byline"> <div class="person"> <p class="name">Ruth Costas</p> <p class="role">Da BBC Brasil em São Paulo</p> </div> </div> <p>A recessão econômica pela qual o Brasil está passando deve ser mais prolongada mas menos "dramática" para a população que a da era Collor, segundo analistas consultados pela BBC Brasil.</p> <p>A última vez que o Brasil teve uma recessão da ordem de 4% - como a anunciada nesta quinta-feira pelo IBGE - foi em 1990, quando o país vivia as consequências do plano que confiscou a poupança de milhares de brasileiros.</p> <p>Na época, o recém-empossado governo de Fernando Collor de Mello anunciou o confisco dentro do chamado Plano Collor, em uma tentativa de controlar a inflação - que no fim do ano acumularia alta de 1.699%.</p> <p>O resultado foi uma onda de demissões e falência de empresas. Houve quem tivesse de suspender sua festa de casamento ou a compra da tão sonhada casa própria.</p> <p>Os jornais da época chegaram a relatar casos de pessoas que enfartaram diante da notícia de que suas suadas economias haviam sido confiscadas no banco.</p> <p>Como resultado, o PIB caiu 4,3% em 1990, segundo o IBGE - que na época utilizava uma metodologia um pouco diferente para calcular as contas nacionais.</p> <p>Em 2015, a retração foi um pouco menor, de acordo com os dados divulgados nesta quinta-feira pelo instituto: 3,8%.</p> <ul> <li> Leia também: No Brasil da recessão, aumenta desemprego entre engenheiros e sobram vagas para diaristas </li> <li> Siga a BBC Brasil no Facebook e no Twitter </li> </ul> <p>Mas, como ressalta a economista da consultoria Tendências Alessandra Ribeiro, o período de recessão deve ser mais prolongado.</p> <p>"Em 1990, a retração econômica foi consequência de um choque, um plano econômico absurdo que enxugou rapidamente a liquidez da economia (ou seja, o dinheiro em circulação). Mas, no ano anterior, a economia havia crescido 3,2%, e já no ano seguinte o PIB subiu 1% depois que foram adotadas algumas medidas para recuperar a liquidez, como a liberação de parte do dinheiro confiscado", conta Ribeiro.</p> <p>Já a atual recessão deve se prolongar pelo menos por este ano, segundo previsões de analistas do mercado e do próprio governo. A expectativa do Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, é de uma retração de 3,5% em 2016 e estagnação em 2017.</p> <h2>Crise política</h2> <p>Para o economista e professor da PUC Antonio Carlos Alves dos Santos, a recessão deve ser mais longa porque é resultado de uma série de fatores que convergem para uma "tempestade perfeita".</p> <p>"Além da crise política, temos as dificuldades da Petrobras e outras empresas envolvidas na operação Lava Jato, a queda dos gastos do governo em função do ajuste fiscal e a tentativa de remediar os erros de uma política econômica que não deu certo no primeiro governo Dilma (Rousseff)", diz Santos.</p> <p>"As prisões de empresários na Lava Jato, por exemplo, estão levando a uma redefinição das relações entre o setor público e o privado. O que era aceito, já não é mais. E deve levar tempo para que as novas regras fiquem claras."</p> <ul> <li> Leia também: Maioria do STF vota por tornar Cunha réu: o que deve acontecer agora? </li> </ul> <p>Ribeiro acrescenta que em parte a recessão deve se prolongar porque não há muito horizonte para que a crise política seja resolvida. Nesta quinta-feira, ela ganhou nova temperatura com a divulgação de uma suposta delação premiada (ainda não oficialmente confirmada) do senador petista Delcídio Amaral, com denúncias contra Dilma e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.</p> <p>"É verdade que nos anos 90 também houve uma crise política, que resultou no afastamento do Collor, mas na época essa situação foi resolvida com rapidez: o processo de abertura de impeachment tramitou em 28 dias na Câmara dos Deputados, por exemplo."</p> <p>O economista André Perfeito, da Gradual Investimentos, concorda, mas também diz que a crise da era Collor se resolveu mais rápido por que era mais simples.</p> <p>"Nos anos 90, o presidente era claramente o problema. Hoje, a crise atinge todo o sistema político. Temos um presidente do Congresso sob acusações, um senador preso, um questionamento sobre os gastos de campanha e investigações que ninguém sabe onde vão dar", diz ele.</p> <p>"Além disso, não há nenhuma garantia de que tirar a Dilma da Presidência vai resolver a situação econômica do país ou mesmo o problema fiscal. Acho difícil pensar que um eventual governo (Michel) Temer (PMDB) se comprometeria com um ajuste fiscal em um ano eleitoral, por exemplo."</p> <h2>Menos dramática</h2> <p>A boa notícia resultante da comparação com os anos 90, segundo os analistas, é que os fundamentos macroeconômicos brasileiros estão muito mais sólidos e tanto no que diz respeito a suas instituições quanto socialmente o Brasil está mais preparado para lidar com a crise.</p> <p>Para começar, a inflação do ano passado ficou fora do teto da meta do Banco Central (6,5%) - terminou 2015 em 10,6%. Mas, em 1990, essa chegava a ser a alta de preços de uma única semana.</p> <p>"Não temos mais uma inflação tão elevada corroendo diariamente a renda dos brasileiros", diz Santos. "E não há dúvidas de que isso representa uma grande diferença no que diz respeito ao bem-estar da população", completa Ribeiro.</p> <p>As reservas do país também estão mais robustas, o que ajuda a reduzir sua vulnerabilidade externa.</p> <ul> <li> Leia também: 'Aceito qualquer coisa': Para voltar ao mercado, desempregados se sujeitam a cargos e salários menores </li> </ul> <p>"Em 1990, tínhamos reservas da ordem de US$ 10 bilhões. Agora, temos US$ 370 bilhões", diz Ribeiro. "A dívida pública também está mais controlada e os juros são menores que nos anos 90. Ou seja, pode demorar, mas o país tem condições de reação."</p> <p>"Nos últimos anos, também houve um avanço da formalização do trabalho, aumento da escolaridade e melhoria das condições de vida da população mais pobre que faz com que a crise tenha um impacto social menos 'dramático'", segundo Ribeiro.</p> <p>"As pessoas enriqueceram nos anos em que a economia crescia e havia relativa estabilidade. Elas conseguiram fazer um 'colchão' que vai ser de grande ajuda nesses anos mais difíceis", diz ela.</p> <ul> <li> Leia também: Quais passaportes abrem mais portas no mundo? Brasileiro é 21º da lista </li> </ul> <p>"Além disso, essa maior formalização do trabalho significa que mais brasileiros estão tendo acesso aos recursos do FGTS e seguro desemprego ao serem demitidos."</p> <p>Para completar, segundo Santos, as políticas sociais ajudam a "amortecer" o impacto da crise entre os mais pobres. "Programas como o Bolsa Família garantem uma renda mínima para as famílias mais vulneráveis nesses tempos difíceis", diz o economista.</p> <p>Para ele, todas essas melhorias sociais e institucionais permitem que as pessoas tenham hoje mais "esperança" de avançar mesmo em meio a crise.</p> <p>"Há muita gente que está desempregada, mas o filho está na universidade, por exemplo, às vezes com Prouni (programa de financiamento estudantil do governo federal), então ainda sente que as perspectivas de sua família são melhores", diz Santos.</p> <p>Para Perfeito, da Gradual, "crescimento é importante, mas há outros fatores que contam muito mais quando o tema é qualidade de vida".</p> <p>"Japão não cresce há anos, mas as condições de vida lá são ótimas. E, nessa linha, não há dúvidas de que o Brasil avançou muito desde os anos 90."</p> <ul> <li> Leia também: Melhor surfista do Brasil descreve luta por patrocínio: 'Não sou modelinho, sou profissional' </li> </ul>

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