Tim Vickery: Quando as canções dos Stones pareciam mudar o mundo

<div class="bbc-byline"> <div class="person"> <p class="name">Tim Vickery*</p> <p class="role">Colunista da BBC Brasil</p> </div> </div> <p>Perdi a turnê dos Rolling Stones por estas águas. Uma pena, mas tranquilo - fico feliz com as minhas lembranças. Estive presente nas areias de Copacabana naquele show de dez anos atrás e, com mais impacto ainda - porque se tratou da primeira vez -, também estive no Maracanã em 1995.</p> <p>E, vamos ser sinceros: desde então (na verdade desde bem antes), pouca coisa mudou. É o mesmo repertório, o mesmo ambiente. A carreira dos Stones pode servir como um exemplo da relatividade das coisas. Há décadas a banda parece estar parada no tempo, fazendo o mesmo, e ótimo, show.</p> <p>Mas nada faz sentido sem referência aos primeiros anos dos Stones, quando a velocidade das mudanças foi outra - tão rápida que era capaz de deixar qualquer um tonto.</p> <p>Que capricho do destino e da história - de colocar um grupo de jovens londrinos no olho de furacão, quando o seu propósito inicial nada mais era do que tocar blues em homenagem aos grandes negros americanos.</p> <p>Mas, como sempre, os tempos fazem o homem. O mero desejo de tocar o blues já era um sinal das mudanças, a busca por uma identidade nova. Uma Inglaterra saindo da Segunda Guerra Mundial, deixando de ser império e investindo no social. O nascimento de novas possibilidades e perguntas, como a grande dúvida existencialista: como ser?</p> <p>O início do boom da música inglesa dos anos 60 reflete duas coisas - um amor pela musica negra americana e uma comemoração da nova prosperidade.</p> <p>Até hoje os músicos ingleses da época não param de prestar homenagem aos seus heróis do outro lado do Atlântico. Mas junto com essa humildade logo veio uma arrogância - tipo, "a gente não precisa se limitar a copiá-los, podemos usar a música deles como base para expressar a nossa realidade". Aí, a coisa ficou interessante.</p> <p> O grande triunfo no início da carreira dos Stones foi<em>Satisfaction</em> , em maio de 1965. A simplicidade aparente da canção esconde uma sabedoria extraordinária. Aborda as limitações da cultura do consumo, a sua incapacidade de cumprir a suas promessas, a sua necessidade de gerar insatisfação constante para ficar crescendo.</p> <p>É a canção que abre alas para a segunda metade dos anos 60, quando, em vez de comemorar-se a prosperidade, houve uma cultura de jovens aberta, contestadora e inquieta. A música estava na vanguarda e, durante alguns anos turbulentos, os Stones funcionaram como uma voz dessa geração.</p> <p> Com a pílula anticoncepcional agora disponível, abrindo novas possibilidades sexuais, a banda lançou no início de 1967<em>Let's Spend the Night Together,</em> uma celebração do amor livre. Poucos meses depois veio<em>We Love You</em> , uma ultra-hippie resposta às autoridades que viviam tentando prender a banda por usar drogas. Um ano depois, chegou uma mensagem mais agressiva para o poder,<em>Street Fighting Man</em> , refletindo o ambiente quase revolucionário de 1968.</p> <p> Em dezembro do ano seguinte veio mais uma obra-prima,<em>Gimme Shelter</em> , um hino inquietante e apocalíptico. Com sensibilidade, a banda sentiu o perigo do momento.</p> <p> Poucos dias depois do lançamento de <em>Gimme Shelter</em> , houve o show grátis em Altamont, Califórnia. Marcou o fim do sonho hippie, da ideia de uma cultura de massa jovem capaz de se autorregular. Foi uma noite de caos e loucura, com a segurança feita pelos Hells Angels, que espancaram ate a morte um jovem negro na plateia.</p> <p>Altamont é um marco importante na carreira dos Stones. E o momento de ruptura entra a banda e o público. Nunca mais o grupo seria a voz instintiva de parte de uma geração. A banda fechou-se em si própria, uma situação amplificada pelo deslocamento ao sul da Franca para fugir dos impostos ingleses.</p> <p> Ainda produziu grandes músicas - houve experiências interessantes com reggae, e uma última obra-prima em 1978,<em>Miss You</em> , uma ótima interpretação da era disco. Mas já não teve o mesmo peso cultural. Como a banda declarara em 1974,<em>It's Only Rock 'n Roll</em> . </p> <p>Mas durante anos na década anterior, não tinha nada de "somente". Os Stones brincavam com fogo, lançando álbuns que refletiram e influenciaram um tempo de turbulência.</p> <p>E isso ajuda a manter a banda viva ate hoje. As multidões que vão assisti-los não estão somente curtindo um show maravilhoso de rock. Estão também fazendo um tipo de comunhão - com uma época em que era possível pensar que as canções da banda realmente tinham o poder de mudar o mundo.</p> <ul> <li> <em>*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick</em> </li> </ul> <h2>Leia as colunas anteriores de Tim Vickery:</h2> <ul> <li> Com brasileiro não há quem possa? 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