Como um gol no time errado pode custar a vida em El Salvador, país mais violento do mundo

Nelson Rauda Zablah*

Especial para a BBC Mundo, em El Salvador

  • Nelson Rauda/BBC

    Enterro de José Misael Navas, em El Salvador

    Enterro de José Misael Navas, em El Salvador

Em El Salvador você pode ser morto por cuidar da filha do presidente, como ocorreu com Misael Navas. Ou por ser professora em uma região disputada por gangues, caso de Sandra Rivera. Ou simplesmente por marcar um gol contra uma equipe de criminosos.

Este foi o caso de Cristian Alexander Campos Sosa, de 19 anos, assassinado em 23 de fevereiro em San Martín, a cerca de 20 km da capital, San Salvador.

Os três episódios expõem o nível de violência que atinge El Salvador, país de 6,5 milhões de habitantes que registrou 6.657 mortes violentas em 2015 - taxa de 103 por 100 mil habitantes.

O Brasil, por exemplo, com população cerca de 30 vezes maior, teve 58.497 mortes violentas em 2014 - taxa de 28,8 por 100 mil.

Em 2015, El Salvador voltou a ser "coroado" com o título de país mais violento do mundo. E 2016 começou pior.

Entre 1º de janeiro e 28 de fevereiro de 2016, 1.380 pessoas foram assassinadas no país, segundo dados da Polícia Nacional Civil - duas vezes mais do que o mesmo período do ano passado.

Guerra às gangues

Analistas costumam definir a violência no país como "fenômeno multicausal", mas uma das explicações está na política oficial de combate às gangues.

As principais gangues são chamadas Barrio 18 (Bairro 18) e MS-13. Ambas surgiram em Los Angeles (EUA) e se deslocaram para a América Central no começo dos anos 1990, após deportações em massa iniciadas no governo Bill Clinton (1993-2001).

Impulsionadas por políticas linha-dura da primeira década do século 21, as gangues se tornaram um problema de segurança nacional.

Entre 2012 e 2013, o primeiro governo de esquerda da história do país ensaiou uma negociação conhecida como "a trégua", que reduziu drasticamente os homicídios mas nunca teve aprovação popular.

Mas, em janeiro de 2015, o segundo governo de esquerda - do atual presidente, Salvador Sánchez Cerén - declarou guerra às gangues. Disse que sua gestão não retomaria a negociação e encerrou a trégua.

A medida impactou diretamente o cenário da segurança e os níveis de violência em El Salvador.

Durante 2012 e 2013, os dois anos principais da trégua, o país registrou uma média de sete homicídios por dia. Em 2014, o número passou a dez. No ano da guerra aberta, 2015, atingiu 18. E a média de 2016 já está em 22.

Quando o presidente abortou a trégua, a polícia e as Forças Armadas partiram para a ofensiva. E também começaram a receber o troco. No ano passado, 63 policiais e 24 soldados foram mortos - 2016 continua no mesmo ritmo.

Jose Cabezas/Reuters
Menina cobre boca da mãe que grita ao saber da morte de filho em tiroteio em bairro de Zaragoza, El Salvador

Escolta presidencial

José Misael Navas, subsargento que lutou na Guerra do Iraque, foi morto em 15 de fevereiro deste ano. Outros três militares foram vítimas de homicídio entre 13 e 19 de fevereiro.

Analistas costumam definir a violência no país como "fenômeno multicausal", mas uma das explicações, dizem, está na política oficial de combate às gangues

Navas era membro do Estado-Maior Presidencial e cuidava de uma das três filhas do presidente da República. O crime ocorreu em uma chácara em Santa Tecla, onde vivem parentes do presidente e do vice-presidente.

Homens em um carro cinza atiraram em Navas, e até agora não há pistas dos responsáveis.

O caso colocou em evidência a falta de proteção aos soldados da segurança presidencial.

Navas e seu colega de trabalho - que sobreviveu ao ataque - não contavam com uma guarita para ficar. Guardavam seus pertences em um jardim público.

Navas também morava em uma área controlada por gangues. Viver nesses territórios significa estar sob vigilância de criminosos, que podem questionar e vetar o acesso de pessoas.

Membros das gangues cobram taxas de comerciantes, de entregadores e funcionários de companhias de TV por assinatura. Matam.

Há um lema que aparece em muros e está arraigado na mente dos salvadorenhos: "ver, ouvir e calar-se", dizem criminosos.

Execuções extrajudiciais

Cristian Campos, o jovem fã de futebol, trabalhava em uma empresa de laticínios. Não tinha vínculo com gangues ou quadrilhas, segundo a polícia.

O crime ocorreu às 6h20 de 23 de fevereiro. Campos dirigia uma moto na rua principal do distrito de La Flor, em San Martín.

A polícia encontrou indícios de 14 disparos, e acredita que ele tenha sido alvo de membros de gangues, embora não haja provas até o momento.

O pai de Campos disse acreditar que o filho tenha sido morto por soldados das Forças Armadas, que atuam na segurança pública desde 2009, ano em que assumiu o primeiro governo de esquerda, de Mauricio Funes.

Afirmou que, dias antes do homicídio, ele havia sido ameaçado e agredido por soldados por causa de um gol.

"Meu filho estava sob ameaça de soldados. Moramos uma região dominada pela (gangue Bairro) 18 e esses soldados apoiam mais os integrantes da MS", disse o pai. "Então o menino jogou contra uma equipe protegida pelos soldados e marcou um gol."

O pai disse também que seu filho chegou a ser agredido por soldados. "Disseram que iriam matá-lo na outra vez que o encontrassem, que iriam parti-lo em pedaços porque havia marcado um gol contra o time de que cuidavam."

A polícia não confirmou a hipótese do gol nem a eventual participação de soldados - mas essa não é uma acusação rara.

Marvin Recinos/AFP
Supostos membros de 18 gangues, acusados de homicídios e extorsões, são apresentados à imprensa em San Salvador


Ao todo, 74% das denúncias de abusos feitas à Procuradoria de Direitos Humanos do país em 2015 tiveram como alvo a polícia e as Forças Armadas. Um ano antes, essa cifra representava apenas 40%.

Setores da imprensa vêm denunciando casos de execuções extrajudiciais, como os massacres de San Blas e Panchimalco, mas a resposta institucional às acusações tem sido praticamente nula.

E o governo busca minimizar os números dramáticos dizendo que a maioria das vítimas integra quadrilhas - versão que já foi desmentida.

A Presidência sustenta, por exemplo, que 60% das vítimas de homicídio nos cinco primeiros meses de 2015 eram integrantes de gangues, mas dados da própria polícia situam esse índice na casa dos 30%.

Sem dúvida, a política oficial de "combate frontal" - com suspeitas de justiçamentos - também elevou a violência.

A polícia reconhece que suas operações acabam gerando mais mortes e confrontos armados, mas nega responsabilidade em possíveis violações a direitos humanos.

Família marcada pela violência

A professora Sandra Élida Rivera Ángel foi assassinada no último dia 15 de fevereiro, em Cojutepeque.

Com 39 anos, ela foi morta a caminho ao trabalho no centro escolar católico San Sebastián, perto de sua casa.

Membros de gangues a detiveram quando ela caminhava com alunos e a balearam. Segundo investigações, o possível motivo do crime é a professora ter se oposto ao recrutamento, por quadrilhas, de jovens estudantes - fenômeno que provoca evasão escolar e fortalecimento de grupos criminosos.

Sandra Rivera foi morta em suposta ação de quadrilhas, e a filha de nove anos já havia sido vítima de um ataque com granada.

Sete anos antes de sua morte, integrantes da MS já haviam matado a filha dela, em ataque a uma clínica pediátrica.

Em setembro de 2015, a Justiça condenou dois integrantes de quadrilha a 40 e 60 anos de prisão, respectivamente, pelo ataque a granada à clínica, que causou a morte da filha da professora, de nove anos à época, de um garoto de quatro anos e sua mãe de 42 anos.

O secretário de Comunicação do governo de El Salvador, Eugenio Chicas, disse que a estratégia de segurança do governo permanecerá a mesma até o final deste ano.

No atual ritmo, El Salvador poderá bater no final do ano o patamar de mais de 8 mil vítimas de homicídio.

*Nelson Rauda Zablah (@raudaz_) é jornalista da publicação digital salvadorenha El Faro

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