Por que o mercado ficou eufórico com a operação contra Lula?

<div class="bbc-byline"> <div class="person"> <p class="name">Ruth Costas*</p> <p class="role">Da BBC Brasil em São Paulo</p> </div> </div> <p>O mercado financeiro reagiu com euforia à notícia de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o alvo da 24ª fase da operação Lava Jato.</p> <p>Na manhã desta sexta-feira, após ser anunciado que Lula havia sido levado por policiais para depor no aeroporto de Congonhas, o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, chegou a se valorizar quase 6%.</p> <p>O índice fechou o dia com alta de 4,01%. E na quinta-feira já havia subido 5,12% com as notícias de que o vazamento de uma suposta delação premiada do senador Delcídio Amaral (PT) implicaria Lula e a presidente Dilma Rousseff no escândalo da Petrobras.</p> <p>Na semana, a alta acumulada foi de 18% - a melhor desde 2008.</p> <p>Entre as ações que mais subiram estão as da Petrobras. Em São Paulo, os papéis da empresa fecharam o dia com valorização de 9,89%.</p> <p>O dólar também despencou frente ao real, chegando a ser negociado a R$ 3,65. A moeda americana fechou o dia a R$ 3,76. E na semana, o recuo foi de 5,93%, a maior queda em sete anos.</p> <ul> <li> Leia também: Lula é alvo em 24ª fase da Lava Jato </li> <li> Leia também: Quatro perguntas sobre a suposta delação de Delcídio Amaral e seu impacto na crise </li> </ul> <p>Mas afinal por que o mercado está tão "animado" com a operação contra Lula?</p> <p>"A questão é que, apesar de até agora não haver evidências de participação pessoal da presidente (Dilma Rousseff) nos malfeitos (investigados pela Lava Jato), essas notícias estão minando a base de sustentação política do governo", explica Francisco Petros, ex-presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (Apimec) e sócio do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados.</p> <p>"O mercado está interpretando que, diante desse novo cenário, é mais provável que Dilma não termine seu mandato, o que, na sua avaliação, criaria condições para uma retomada da economia."</p> <h2>Renovação</h2> <p>A consultoria política Eurasia Group, por exemplo, agora estima a probabilidade de que Dilma chegue a 2018 no poder em apenas 40%.</p> <p>A convocação de Lula para depor "sugere que Rousseff não deve terminar seu mandato. A decisão de procuradores federais e da Polícia Federal de fazer buscas na casa de Lula não apenas sugere que as investigações encontraram mais evidências para implicar o ex-presidente, mas também que o tamanho e escala da operação devem crescer nos próximos meses", diz um relatório da consultoria.</p> <p>Para André Perfeito, da Gradual Investimentos, um cenário que vem ganhando força recentemente é uma possível "desfiliação" de Dilma do PT e filiação a outro partido - sendo o mais provável o PDT.</p> <p>"A presidente Dilma está construindo uma agenda que entra em choque com a base do PT no Congresso e vários parlamentares têm se posicionado contra algumas propostas", escreveu.</p> <ul> <li> Leia também: Ministro da Justiça de FHC vê 'exagero' em ação da PF contra Lula </li> </ul> <p>"A votação recente sobre o fim da obrigatoriedade de a Petrobras entrar em todas as áreas de exploração do pré-sal deixou exposto o mal-estar (...). Se ela se desfiliar, o PT pode se fortalecer junto a sua base para concorrer às eleições municipais de maneira mais coerente. Para a presidente, também seria bom se afastar do PT que tem acumulado notícias ruins dado as operações investigativas em curso."</p> <p>Para Thiago Biscuola, da RC Consultores, a percepção é de que "um novo governo poderia gerar um 'choque de confiança' e impulsionar uma série de reformas positivas, como fez Maurício Macri, na Argentina".</p> <p>"Seria uma renovação após mais de uma década de governo de um partido que está resistindo em fazer reformas necessárias. Daí a alta do Ibovespa", diz.</p> <p>"Mas é claro que esse caminho é árduo - e se a bolsa subiu nesta semana, provavelmente haverá uma reversão em algum momento. Teremos grande volatilidade nos mercados até que a situação política se defina."</p> <h2>Volatilidade</h2> <p>Neil Shearing, economista-chefe de mercados emergentes da consultoria Capital Economics, concorda.</p> <p>"O cenário é incerto e dependerá da forma como as investigações vão caminhar daqui para frente, se a presidente será ou não diretamente envolvida no esquema de corrupção da Petrobras", diz ele.</p> <p>"É provável que, nesse meio tempo, continuemos a ter essa montanha-russa nos mercados, com o dólar subindo ou descendo. Inclusive porque o que aconteceu hoje não necessariamente significa uma mudança na política econômica do governo".</p> <p>Para Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, que foi conselheiro econômico de Lula e professor de Dilma, o mercado joga "contra" o governo e tem trabalhado para que o aprofundamento da crise econômica se torne uma profecia autorrealizada.</p> <ul> <li> Leia também: 'Legado de Lula não pode justificar corrupção', diz Transparência Internacional </li> </ul> <p>"Os agentes do mercado financeiro são pessoas de carne e osso. Cada 'agente' acha que age racionalmente, mas o resultado é um comportamento de manada que nem sempre faz sentido", diz Belluzzo.</p> <p>"Se o mercado acha que tirando Dilma vai resolver a situação econômica do país, por exemplo, está muito enganado. Até porque essa recessão é em parte resultado dos cortes de gastos e políticas ortodoxas que a presidente adotou ao ser pressionada pelo próprio mercado", opina.</p> <p>Perfeito, da Gradual, também acha que muitos de seus colegas do mercado erram em sua aparente convicção de que um afastamento de Dilma aceleraria a recuperação econômica.</p> <p>"Acho difícil pensar que um eventual governo (do vice Michel) Temer (PMDB) se comprometeria com um ajuste fiscal em um ano eleitoral, por exemplo", diz Perfeito.</p> <ul> <li> <em>Colaborou Luis Guilherme Barrucho, da BBC Brasil em Londres</em> </li> </ul>

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