'Meu filho tá errado, mas a gente respeita': como ação contra Lula esquentou polarização dentro de famílias

Felipe Souza - Da BBC Brasil em São Paulo

Vitor Ricciardi Chiarello, 26, assiste ao lado de sua família a uma reportagem na TV que exibe o ex-presidente Lula sendo levado para depor. Mas, enquanto seus pais e irmão comemoram a investida da Polícia Federal, Vitor afirma que a ação foi abusiva. Esse é o estopim para o início de mais uma acalorada discussão política.

As discussões entre os quatro membros da família Chiarello, de São Paulo, dão uma ideia da polarização que o Brasil enfrenta desde as últimas eleições - e que esquentou com a investigação do ex-presidente Lula pela Operação Lava Jato.

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Na casa de Vitor, ele é o único defensor de políticas de esquerda. O jovem, bolsista do ProUni, cita programas sociais implantados no governo Lula como parte dos argumentos para defender o ex-presidente. Mas recebe contra-ataques de todos os lados.

"É muito claro que o Lula é uma pessoa egocêntrica, narcisista, que trabalha apenas por ele mesmo", diz a mãe dele Marly Alzira, 58. "O ProUni que o Vitor recebeu é apenas o retorno de parte dos impostos que nós mesmos pagamos", completa o pai Oswaldo Gabriel, 58.

O professor e pesquisador do núcleo de pesquisas em políticas públicas da USP (Universidade de São Paulo) Leandro Piquet Carneiro afirma que o cenário vivido pela família Chiarello é reflexo de uma intensa e inédita polarização da política brasileira.

"É a primeira vez que um governo de esquerda, que ainda não tinha alcançado o poder e contava com um apoio muito forte de setores escolarizados e populares, se vê numa situação de desconforto no país. Agora, vemos o apoio público e manifestações favoráveis a esses governos sob ataque, até mesmo em debates em família", afirmou.

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Para Carneiro, porém, a discussão política ainda é moderada no Brasil, quando comparado a seus vizinhos. "Por mais animado que esteja o debate, estamos muito moderados se comparado à Argentina, Venezuela e Chile, por exemplo", afirmou.

O pesquisador compara a situação de divisão ideológica no país com a dos EUA e avalia que a internet e o amplo acesso à informação ajudaram a acirrar esses debates. Por outro lado, ele vê as redes sociais como uma ferramenta prejudicial à discussão política no país porque as pessoas se isolam, se afastam do mundo real e evitam o acesso a opiniões divergentes.

"As redes sociais não correspondem à sua expectativa inicial porque elas criam um processo de encapsulamento. Você se liga ao seu circuito e rede de contatos e isso vai definindo o que você recebe de informação. Junte a isso o fato de as pessoas lerem cada vez menos jornal e dependerem cada vez menos de jornalistas profissionais que moderam esses assuntos de forma equilibrada", afirma.

Lula governou o país de 2002 a 2010, sendo sucedido por Dilma Rousseff na Presidência. A última pesquisa de opinião do Instituto Datafolha, feita em fevereiro, aponta que Lula teria 20% dos votos dos eleitores brasileiros caso fosse candidato à Presidência, atrás apenas do senador Aécio Neves (PSDB), que tem a preferência de 24% da população.

Cercado

O ator Guilherme Carrasco Neto, 27, também vive um quadro explosivo quando discute os rumos políticos do país com sua família. O jovem, que vê as ações contra o ex-presidente Lula como uma "encenação para criar a imagem de um bandido", é bombardeado por argumentos contrários de seus parentes.

A mãe dele faz duras críticas contra o governo, enquanto o pai tenta fazer o meio de campo nos debates ao mesmo tempo em que tenta acalmar os ânimos de ambos os lados.

Mas Neto se sente ainda mais encurralado quando seu irmão e a cunhada visitam sua casa no fim de semana. "Meu irmão é filiado a um partido neoliberal e é contra as políticas do PT. Eu não sou petista, mas considero os avanços sociais trazidos por esse governo", afirma.

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E quando o assunto é Dilma ou Lula, o tom de voz aumenta e os debates terminam de forma parecida: todos com a cara fechada. "São posições que não batem com a minha. Eu não consigo aceitar a deles e eles não me compreendem", conta Neto.

Neto diz que acha incoerente sua cunhada ter sido "beneficiada pelo governo Lula" e rejeitar o ex-presidente. "Ela é formada em economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) com bolsa do ProUni, é negra e morava na periferia da cidade", afirmou.

Neto disse que nunca usou isso como um argumento durante as discussões para evitar um possível "climão" familiar, mas tem vontade.

O debate mais acalorado, porém, ocorreu em janeiro deste ano, quando Neto defendeu as manifestações promovidas pelo MPL (Movimento Passe Livre), que pede a isenção das tarifas de ônibus, metrô e trem.

"Eu queria mostrar como esses jovens se organizam e que eles não são baderneiros aliados aos black blocs, como mostra a imprensa. Nesse dia, ainda estavam alguns tios meus que também ajudaram a criticar o Passe Livre com opiniões acaloradas", contou Neto.

O irmão dele, Daniel Carrasco Neto, 35, afirmou que Guilherme tem uma "visão romântica da política" porque ainda é muito novo.

"Ele acha que o mercado e o capitalismo são uma coisa ruim e pensa que os empresários devem ser controlados. A gente tenta ensinar que, se você não consegue ganhar dinheiro, não produz. Dar dinheiro para as pessoas não vai estimular ninguém a evoluir", afirma.

Para Daniel, a saída para a atual crise político-financeira passa pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. "Esse governo é um fracasso total. Já esperávamos que seria ruim, mas nem tanto. Os escândalos de corrupção aliados à incapacidade dela de fazer política está afundando o país", afirma.

Na visão dele, o sucesso do presidente Lula se deve à estabilidade financeira e à alta do preço das commodities quando ele assumiu o país. "Ele só distribuiu o dinheiro extra que estava entrando. Ele é um safado porque formou a imagem dele em cima desse marketing e quis comprar o apoio de todos os partidos, o que deu origem ao Mensalão e Petrolão", diz.

Daniel afirmou que vai participar dos protesto marcado para o próximo domingo (13) na avenida Paulista para pedir o impeachment de Dilma Rousseff.

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