Tensão, reuniões com PM e guarda-costas para Pixuleco: os bastidores dos protestos deste domingo

Felipe Souza e Ricardo Senra - da BBC Brasil em São Paulo

Após uma sequência de nove dias tensos que incluíram a condução coercitiva, denúncia e pedido de prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, este domingo promete grandes protestos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff em mais de cem cidades em todo o Brasil, além de outros países.

O clima quente trouxe temor de acirramento de tensão nas ruas e possíveis confrontos entre militantes a favor e contra o governo.

Em São Paulo, que deve ser palco dos maiores protestos, houve reuniões entre ativistas pró-impeachment com o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes.

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Para evitar conflitos, um dos grupos que convocaram os protestos aposta em uma rede de "policiais de folga" que farão a "segurança de trios elétricos voluntariamente". A estratégia foi criada após opositores ao impeachment terem combinado manifestações na mesma região, em São Paulo - poucos dias depois, recuaram e desistiram.

Vinte desses guarda-costas "trabalharão exclusivamente" para assegurar que o "Pixuleco" (boneco inflável gigante de Lula com roupas de presidiário) "não seja destruído". Pixuleco vem sendo alvo constante de ataques durante protestos, quando é furado e esvaziado. O boneco já virou até caso de polícia.

Passados três meses desde as últimas manifestações a favor do impeachment, em dezembro do ano passado, os atos deste domingo são vistos como cruciais para o governo Dilma. O tamanho do movimento deve definir posição de partidos aliados e pode reforçar o processo de impeachment no Congresso.

O governo trabalhou durante a semana para evitar violência nos protestos - avalia que isso poderia ser usado contra ele. Neste sábado, a presidente disse que confrontos seriam um "desserviço" ao país.

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Os atos acontecem após a presidente ter sido mencionada pelo senador Delcídio do Amaral em sua delação premiada, de acordo com a revista IstoÉ - ela negou as denúncias. Também ocorre na expectativa da avaliação, pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, da denúncia e do pedido de prisão feitos pelo Ministério Público estadual contra o ex-presidente Lula - o petista refuta as acusações feitas contra ele.

Na última quinta, após encontro em São Paulo com os deputados Paulinho da Força (SDD), Carlos Sampaio (PSDB-SP), Mendonça Filho (DEM-PE), e representantes do Movimento Brasil Livre (MBL), o governador Alckmin sugeriu que pode estar presente no ato.

"Nossa tarefa é garantir a segurança para uma livre manifestação", disse o tucano. "Como cidadão pode ser (que eu vá)."

Do outro lado, movimentos sociais contrários ao impeachment de Dilma Rousseff se reuniram diversas vezes nas últimas semanas para planejar um contra-ataque.

Após o cancelamento das manifestações neste domingo, o primeiro ato anti-impeachment ficou marcado para o dia 20 de março, também um domingo, em São Paulo. É organizado por entidades como Fora do Eixo, CUT (Central Única dos Trabalhadores), Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e outros movimentos sociais.

O segundo está previsto para ocorrer no dia 31, em Brasília e também vai contar com o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).

'Coxinhas, não covardes'

Rogerio Chequer, líder do Vem Pra Rua, minimiza a chance de conflitos - mas afirma que o número de reuniões com a Polícia Militar foi "bem maior" do que nas manifestações anteriores.

"Vamos mostrar que, coxinhas ou não, não somos covardes. Não vai ser por conta de ameaças que os brasileiros vão deixar de ir às ruas", diz. " A PM já estabeleceu um sistema de segurança, ciente do que está acontecendo. Já houve ameaças antes e a polícia sempre conseguiu assegurar a ordem", afirma.

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O empresário frisa, entretanto, que não teme confrontos em São Paulo. "A polícia está montando um esquema extremamente robusto", prossegue. "O número de reuniões que tivemos com eles desta vez foi muito maior."

Uma das principais figuras que pedem a queda da presidente, o coordenador do MBL (Movimento Brasil Livre), Kim Kataguiri, disse que os manifestantes estão orientados a evitar confrontos caso grupos pró-governo façam provocações durante o protesto.

"Esse tipo de ameaça acontece desde o protesto que fizemos no dia 15 de março de 2015, com o Lula nos atacando e o presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores) falando que pegaria em armas. Mas até hoje não aconteceu nada e nossa expectativa é que não ocorra nenhum conflito", afirmou.

O líder do MBL disse ainda que participou de uma reunião com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, para definir um plano de ação no dia do ato.

"Por precaução, o governador vai alocar um efetivo maior da Polícia Militar e haverá cordões de isolamento na região para evitar a aproximação de manifestantes em busca de confusão", afirmou.

Consultada, a Secretaria de Segurança Pública do Estado não informou o efetivo policial que será empregado nas manifestações alegando motivos de segurança.

Kataguiri disse que sua expectativa é que a manifestação leve à queda da presidente Dilma Rousseff. "Não é mais uma questão de se ela vai cair, mas quando. Se ela não renunciar, ela vai sofrer o impeachment", concluiu.

'Amigos policiais'

Já Marcello Reis, do Revoltados Online, aposta nos "amigos" dentro das forças de segurança para garantir tranquilidade aos militantes e à "mansão sobre rodas" que alugou por R$ 50 mil para discursar aos seguidores, em São Paulo.

"Alguns policiais à paisana que estarão de folga no domingo estarão no trio elétrico porque já conhecem", diz. "O que mais tem no Revoltados Online são policiais da Civil, da Militar e delegados, que simpatizam com as nossas ideias."

Reis afirma que os oficiais de folga estarão no ato "voluntariamente" para garantir a segurança de seus convidados. "Os outros 50 seguranças 'tipo armário' nós pagamos do nosso bolso. Segurança para nós é muito importante."

Dos 50, um total de 30 cercará o trio elétrico, enquanto os outros 20 farão a segurança de "Pixuleco".

Estreando na Paulista, o trio elétrico em questão é climatizado, tem telões, elevador, e foi qualificado por Reis como "o mais potente do mundo". "Já foi usado pela Ivete Sangalo. É enorme, uma mansão sobre rodas. Vamos usá-lo para mostrar a que viemos."

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