Tucanos e petistas trocam acusações, mas negam corrupção em seus partidos

Ricardo Senra - Enviado especial da BBC Brasil a Brasília

A homologação da delação premiada do ex-senador Delcídio do Amaral acirrou as divergências parlamentares do governo e da oposição quanto às acusações de corrupção.

A BBC Brasil conversou com deputados de ambos os lados e o resultado é curioso - eles usam a delação de Delcídio como "prova" de supostos atos ilícitos cometidos por seus rivais políticos, mas minimizam as declarações do ex-senador quando elas se referem a seus companheiros de partido.

Em depoimento sobre o esquema de corrupção da Petrobras, homologado hoje pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Delcídio afirmou que a presidente Dilma Rousseff "tinha pleno conhecimento" sobre o processo da compra da refinaria de Pasadena, nos EUA - que depois causou prejuízos à Petrobras -, e que Lula teria tentado "comprar o silêncio" de Marcos Valério durante o mensalão.

Também afirmou, entre outras acusações, que o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, recebeu "sem dúvida" propina na estatal de energia Furnas, em atos ilegais que envolveriam as mesmas empreiteiras investigadas pela operação Lava Jato.

Em notas divulgadas à imprensa, Dilma, Aécio e Lula negam as acusações do ex-senador - as quais ainda precisam ser investigadas pelo Ministério Público.

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Crimes

Para o líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Antônio Imbassahy, as afirmações de Delcídio sobre o PT "impulsionam mais ainda o processo de impeachment porque cada vez mais se constatam crimes de responsabilidade" por Dilma.

Para o líder tucano, a afirmação de que o ministro petista Aloizio Mercadante teria sugerido vantagens financeiras para que Delcídio não fizesse a delação (supostamente em nome do Palácio do Planalto) deveria levar a presidente a demiti-lo - Mercadante nega acusações e afirma ter oferecido "solidariedade pessoal" ao ex-colega petista.

Em nota, o Planalto afirmou que Dilma "repudia com veemência e indignação a tentativa de envolvimento do seu nome na iniciativa pessoal do ministro Aloizio Mercadante".

"Delcídio era líder do PT, era da 'cozinha de Lula', da confiança de Dilma. É ele que está contando, é ele que está contando", diz Imbassahy, por telefone. "Um ministro que faz propostas como estas deveria ser demitido e depois preso, obviamente."

Mas a opinião do líder é diferente quando o assunto são as citações ao companheiro de partido Aécio Neves - já citado em outras quatro delações premiadas, todas arquivadas.

"O Aécio está absolutamente tranquilo e fez esclarecimentos à imprensa que desmontam totalmente as citações de Delcídio e deixam tudo bastante claro."

Seletividade

Entre parlamentares petistas, a postura do "nós não, eles sim" é semelhante.

Atual vice-líder do governo Dilma Rousseff no Congresso, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) diz que a citação de Delcídio a Aécio Neves "evidencia a conduta seletiva dos investigadores, que agem de modo a escolher quem deve ser investigado".

"Já são seis delações. Mais uma vez surge o nome dele e ele não é objeto de nenhum inquérito", afirma.

Mas, sobre Lula e Dilma, Pimenta minimiza as declarações do ex-senador. "Não há nada. É uma falação. Uma marola. Inclusive para o Mercadante. É evidente que há tentativa de prova forjada."

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Para o petista, o PMDB de Eduardo Cunha e Michel Temer também seria beneficiado pela "seletividade" da Lava Jato.

Segundo Delcídio, o vice-presidente Temer seria "padrinho" de um ex-diretor da BR distribuidora em um esquema de compra ilegal de etanol. Eduardo Cunha, segundo Delcídio, seria intermediário do banqueiro André Esteves na "compra" de medidas provisórias na Câmara dos Deputados.

À BBC Brasil, a assessoria de Temer declarou que "o PMDB jamais participou institucionalmente de qualquer arrecadação de recursos ilícitos em qualquer órgão do governo federal" e que a afirmação de Delcídio sobre o vice-presidente está "equivocada".

Segundo O Estado de S. Paulo , Cunha minimizou a citação de seu nome na delação, dizendo que "há coisas muito mais graves" no material.

E Esteves negou, via assessoria de imprensa, ter relação próxima com Cunha.

Criminalização

À BBC Brasil, o deputado federal Wadih Damous (PT-RJ) afirmou que o país vive uma "criminalização da vida política".

"Os vazamentos seletivos e ilegais se integraram ao jogo político para se combater posições adversárias. É um vale tudo", disse à reportagem.

Ele também minimiza as acusações a colegas petistas, enquanto reforça as destinadas ao opositor Aécio Neves.

"Vê-se que a menção a Aécio é objetiva. Ele recebeu propina em Furnas", diz. "É de se estranhar que o procurador-geral da República, tão cioso da moralidade, não tenha investigado Aécio também."

O deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) diz que a consequência das menções a Dilma e Lula deve ser a aceleração do processo de impeachment da presidente.

"Atingimos hoje o clímax do processo, me parece que nada mais surpreende a sociedade. Desde domingo (dia de protestos contra a presidente), quanto mais demorar a solução, mais vai derreter a relação entre sociedade e instituições brasileiras".

Sobre Aécio, Araújo diz "apostar nos esclarecimentos" das informações. "Esperamos que sejam devidamente apuradas para que haja a devida clareza."

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