'Há corrupção no governo, mas defendo sua permanência': por que fui ao protesto na Paulista

Rafael Barifouse

Da BBC Brasil, em São Paulo

  • Rafael Barifouse/BBC Brasil

    Da esquerda para a direita: Luanda Santana, Magrelinho da Silva e Nana Caracciolo. Os três foram ao protesto em defesa do governo Dilma na avenida Paulista, em São Paulo, e afirmam que há corrupção em setores do governo, mas que não há provas contra Dilma e que as alternativas são piores

    Da esquerda para a direita: Luanda Santana, Magrelinho da Silva e Nana Caracciolo. Os três foram ao protesto em defesa do governo Dilma na avenida Paulista, em São Paulo, e afirmam que há corrupção em setores do governo, mas que não há provas contra Dilma e que as alternativas são piores

Nesta sexta-feira (18), dezenas de milhares de pessoas foram à Avenida Paulista, no coração da capital de São Paulo, para participar do protesto contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Segundo a Polícia Militar do Estado, 80 mil manifestantes compareceram ao local, estimativa semelhante feita pelo instituto Datafolha, para o qual 95 mil participaram do ato. Já os organizadores estimaram o público em 250 mil.

Entre gritos de "não vai ter golpe", os presentes circulavam com roupas vermelhas e bandeiras do Partido dos Trabalhadores (PT) e de movimentos sindicais, além de cartazes de apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à Dilma.

A BBC Brasil esteve na Paulista e conversou com os manifestantes para entender o que os levou a estarem ali e se concordavam com as acusações de corrupção feitas contra o governo.

"Estou aqui porque acredito na democracia e sou contra o golpe. É preciso comprovar (os crimes) primeiro, senão o país vai só piorar com o impeachment", disse a assessora de imprensa Nana Caracciolo, de 62 anos.

'Problema histórico'

Nana chegou cedo à avenida com um cartaz em que pedia respeito aos votos que elegeram Dilma, inclusive o dela própria. "Não admito que joguem meu voto no lixo."

Caracciolo acredita que existe corrupção em "alguns âmbitos do governo", mas não acha que Dilma esteja envolvida.

"Uma pessoa como Dilma, com seu histórico, não se venderia desta forma. Temos que defender o Executivo e pressionar o Congresso para aprovar medidas anticorrupção."

Motivação semelhante levou Luanda Santana, de 39 anos, a sair de Campinas, onde mora e trabalha como gerente de um centro cultural, para participar da manifestação. "Vim pelo meu direito de dizer que a democracia passa pelo respeito ao meu voto", afirmou Santana.

"Sempre houve corrupção, é um problema histórico. Não foi uma invenção do PT. Este governo priorizou os direitos dos mais pobres. No Brasil, não houve governo de direita que tenha feito isso. Mas roubaram também."

'Sem escolha'

A advogada Maíra Marrone, de 32 anos, também disse que a corrupção é um problema generalizado e acha que a que existe no governo "está sendo investigada".

"Mas não acredito no envolvimento de Dilma e Lula. Não há provas concretas. Se houvesse, já teriam vindo à tona, ainda mais com o Ministério Público e a Justiça contra eles."

O músico Magrelinho da Silva, de 25 anos, havia acabado de chegar de viagem nesta sexta-feira e foi à Paulista para acompanhar o protesto.

"Vim aqui para ver de perto a esquerda de São Paulo, porque as pessoas que estavam aqui no último domingo não me representam", disse Silva.

Apesar de dizer concordar "totalmente" que há corrupção no governo, um problema que ele considera "histórico e inevitável", o músico defende a permanência de Dilma Rousseff no cargo.

"A gente não tem escolha. Pode não ser o melhor, mas prefiro o governo dela a um de direita."

Políticas sociais

O casal de professores Bárbara Buck, de 32 anos, e Igor Pires, de 36, caminhavam pela avenida com cartazes em que se lia "Fora Cunha golpista", em referência ao presidente da Câmara dos Deputados, que é réu na Operação Lava Jato. Ambos acreditam que haja corrupção no governo.

Rafael Barifouse/BBC Brasil
Bárbara Buck e Igor Pires protestaram contra o presidente da Câmara dos Deputados

"(Mas) um governo eleito pelo povo só pode ser destituído pelo povo, porém não aquele (povo) que estava aqui no domingo", opinou Buck. "Quem está aqui foi beneficiado pelas políticas desse governo, enquanto quem é contra acha que está pagando por estas políticas."

O casal Felipe*, de 41 anos, e Marcela Silva, de 28, também tinham entre si um consenso: o fato de ainda não terem uma opinião formada sobre os últimos acontecimentos do país.

Usando coletes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) que estavam sendo distribuídos por militantes na Paulista, eles observavam o protesto, assim como fizeram no domingo, quando compareceram ao mesmo local para participar da manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff.

"Estou em dúvida se o governo é corrupto. Estou buscando informações de ambos os lados para saber", disse Felipe.

"É melhor aguardar", complementa Silva. "Não dá para ter uma opinião, porque não está muito claro. Toda pessoa é inocente até que se prove o contrário."

'Investigação para todos'

Usando um boné do Movimento Sem Terra e com faixas verdes e amarelas pintadas no rosto, a cuidadora de idosos Isilda de Oliveira, de 54 anos, foi à Paulista por acreditar que "a direita está tentando usupar o poder".

BBC Brasil
Isilda de Oliveira acredita que 'a direita está tentando usurpar o poder'

"Estamos mostrando aqui hoje que não vamos permitir isso de braços cruzados", disse Oliveira. Ela afirma existir corrupção em "em alguns setores do governo", mas não acredita que isso inclua a presidente nem Lula.

"Uma pessoa forjada na luta não iria se prestar a esse papel. O Lula muito menos. Ele é muito inteligente. Não iria manchar seu legado com esta chácara que estão chamando de sítio", afirmou.

"É lógico que existe corrupção no governo, senão não estariam investigando. Mas precisa investigar todos, inclusive a Polícia Federal."

Já o advogado André*, de 26 anos, carregava um cartaz com críticas à atuação do juiz federal Sérgio Moro, responsável pelas decisões da Operação Lava Jato na primeira instância.

Ele afirmou que não estava na manifestação para defender o PT ou "alguma pessoa específica". "Estou aqui para defender os direitos fundamentais que estudei na faculdade", disse ele.

"Para mim, o último ataque deferido por Moro vai contra as garantias individuais. Quando se começa a agir politicamente desta forma, a Constituição começa a sucumbir."

O advogado destacou não estar certo de que o atual governo é corrupto, mas acredita ser provável, pois "onde há poder, há abusos".

"Mas não podemos demonizar só alguns. Tem que ser tudo apurado dentro da legalidade e democraticamente."

* Os entrevistados pediram para que seus sobrenomes não fossem incluídos

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