Grupos pró-impeachment trocarão megaprotestos por pressão no Congresso

Adriano Brito - @adrianobrito

Da BBC Brasil em São Paulo

  • Agência Câmara

    Comissão Especial do impeachment foi instalada sob grande confusão na Câmara

    Comissão Especial do impeachment foi instalada sob grande confusão na Câmara

Quase uma semana após a manifestação que levou cerca de 500 mil pessoas à avenida Paulista - segundo o Datafolha -, em São Paulo, a organização de grandes protestos pró-impeachment deve ficar em segundo plano.

Segundo o líder do movimento Vem Pra Rua, Rogério Chequer, a ideia agora é pressionar os parlamentares para que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff avance.

"A gente não vai ficar montando megamanifestações como a gente fez no último domingo. O povo está vindo para a rua espontaneamente. E a nossa principal batalha agora é no Congresso."

Para Chequer, o "corpo a corpo" com os congressistas é importante porque "o impeachment vai resolver grande parte das coisas" -- inclusive a nomeação de Lula como ministro, o que ele chama de "absurdo".

O ex-presidente foi empossado ministro-chefe da Casa Civil na última quinta-feira, mas desde então uma sucessão de decisões judiciais têm impedido que ele exerça o cargo -- a última delas foi proferida nesta sexta-feira pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Caso o governo recorra, o que é provável, a decisão final será tomada pelo plenário da corte.

Para investigadores da Operação Lava Jato, o principal objetivo da entrada de Lula no governo é adquirir foro privilegiado e, assim, escapar das decisões do juiz federal Sergio Moro, responsável pelo caso na primeira instância. O governo nega.

Embora tenha protocolado uma das dezenas de ações apresentadas na Justiça para impedir que Lula seja ministro, o líder do Vem Pra Rua avalia que o processo de impeachment deve caminhar mais rápido do que esses pedidos. "Quando cair o governo, ele cai junto."

Tanto Chequer como Kim Kataguiri, integrante mais conhecido do outro grande grupo anti-Dilma, o Movimento Brasil Livre, estavam na Câmara na quarta e na quinta-feira, dias em que a Comissão Especial do impeachment foi instalada e escolheu seus representantes, destravando o processo.

Congresso e Temer

Questionado pela BBC Brasil sobre a revelação, pela imprensa, de que boa parte dos integrantes da comissão respondem a ações judiciais e receberam doações eleitorais de empresas acusadas na Operação Lava Jato, Chequer minimizou:

"Isso não é uma realidade apenas da comissão especial. Números, que não sei se estão corretos, dizem que um terço do Congresso está nesta situação. Ou nós continuamos com as instituições operando e vamos pouco a pouco promovendo uma renovação política, ou nós temos que interromper todos os trabalhos", afirma.

"Se esse Congresso não fosse legítimo para exercer sua função (a tramitação do impeachment), ele não deveria exercer nenhuma função", acrescenta.

Nos últimos dias, o Vem Pra Rua subiu o tom contra o PMDB do vice-presidente Michel Temer. Em uma imagem publicada em suas redes sociais, o movimento diz: "O PMDB ainda está de braços dados com o governo mais corrupto da história. PT e PMDB são farinha do mesmo saco. Lembre-se disso nas próximas eleições".

Mesmo assim, Chequer afirma não estar nos planos do movimento pedir a saída do peemedebista da Presidência caso a petista seja afastada.

"O crime de responsabilidade da Dilma está totalmente caracterizado", diz. "Mas não conseguimos ver, até agora, um crime de responsabilidade atribuído ao vice-presidente. Se em algum momentos nós o percebermos, vamos defender que seja apurado e seja levado a cabo se caso for, com impeachment também."

Segundo ele, as críticas ao PMDB se justificam porque o partido está há 13 anos aliado ao PT no governo federal, e, por isso, "não pode se esquivar totalmente da responsabilidade da condução do país".

"É muito importante que o PMDB tome a responsabilidade, pelo menos agora, de conduzir o país de uma forma produtiva para retomar o crescimento econômico", diz ele sobre um eventual governo Temer.

O vice-presidente foi citado na delação premiada do senador Delcídio do Amaral como padrinho de operador do PMDB no escândalo do petrolão, mas ainda é necessário que sejam colhidas provas para que ele possa ser processado. Por enquanto, Temer, que nega qualquer participação, não é investigado pela Lava Jato.

A polêmica das gravações

A crise política ganhou um novo capítulo na quarta-feira, dia em que Moro levantou o sigilo das investigações sobre Lula na Lava Jato.

Com isso, foram reveladas escutas telefônicas que, segundo os investigadores, sugerem que o líder petista foi nomeado ministro da Casa Civil para evitar ser alvo de ações da Justiça do Paraná.

Entre o material interceptado estão conversas entre Lula e Dilma, o que motivou críticas do governo e de alguns juristas, para os quais as conversas da presidente da República não poderiam ser divulgadas sem a autorização do Supremo Tribunal Federal - já que ela tem foro privilegiado.

Moro, que foi defendido por juristas e pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, negou irregularidade e reforçou que o telefone grampeado foi o de Lula, e não da presidente. E reforçou que tirou o sigilo das gravações "por interesse público".

Além disso, foi alvo de questionamento a liberação de gravações que, para esses críticos, nada acrescentam às investigações – caso de conversas da esposa de Lula, Marisa Letícia, por exemplo.

Chequer diz que, por não ser advogado, não tem condições de avaliar a questão jurídica do imbróglio. Mas afirma que, como cidadão, acredita que "a população deveria saber".

"Teoricamente, esses políticos foram eleitos pelo povo, e deveriam estar servindo o povo. E como isso não é o que está acontecendo, o povo fica ao menos se sentindo justiçado de saber o que está acontecendo nesses bastidores imundos que a gente tem assistido."

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