'O Brasil não é Venezuela, mas não há condições de Dilma seguir no cargo', diz ex-chanceler mexicano

Marcia Carmo - De Buenos Aires para a BBC Brasil

O ex-ministro das Relações Exteriores do México, Jorge Castañeda, acredita que não há condições para que a presidente Dilma Rousseff siga no cargo mas, ao mesmo tempo, descarta que o Brasil esteja seguindo o caminho da Venezuela, onde a polarização entre grupos pró e contra o governo cria um cenário de convulsão social.

Professor na Universidade de Nova York, autor doA Utopia Desarmada , de 1993, e coautor do livro Lo que Queda de la Izquierda (O que resta da esquerda, em tradução livre), de 2007, ele se define como "pragmático, adversário do populismo e que viu com bons olhos os dois governos de Lula e não da mesma maneira o governo de Dilma".

Veja os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil - O Brasil vive uma época de intolerância política e até violência entre diferentes grupos nas ruas em meio às investigações sobre a operação Lava Jato. Alguns setores dizem que o Brasil pode estar caminhando para viver o mesmo nível de tensão que existe na Venezuela. Qual é a sua opinião?

Jorge Castañeda - Acho que a sociedade política brasileira, as instituições brasileiras são muito mais sólidas que as venezuelanas. E não acho que se chegará aos níveis de confronto, de violência que temos visto na Venezuela e em alguns outros países. Sem dúvida, a polarização é alta e vai continuar até que ocorra um desfecho em um sentido ou em outro. O Brasil é um país mais maduro que a Venezuela.

BBC Brasil - Como o senhor espera que será o desfecho desta crise política brasileira?

Castañeda - Eu não posso opinar sobre detalhes jurídicos, até porque eles vão mudando a cada hora, tanto no caso da nomeação do ex-presidente Lula como chefe da Casa Civil (do Palácio do Planalto) como no caso do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Mas politicamente falando é obvio que cada dia que passa, com essa polarização, com esse acúmulo de problemas políticos, econômicos, fica mais difícil que a presidente (Dilma) Rousseff possa terminar seu mandato. Não são cálculos políticos ou jurídicos. Mas porque ela tem problemas demais. O de Lula, o impeachment, de João Santana, do senador Delcídio (do Amaral), da economia. São muitos problemas. Em qualquer país seria difícil permanecer no poder com tanta pressão.

BBC Brasil - No fim de semana, um ator gerou polêmica ao chamar Lula de 'ladrao' durante musical sobre Chico Buarque, em Belo Horizonte. Chico decidiu retirar a autorizaçao para a realizaçao da obra. Este episódio...

Castañeda - É um reflexo da polarização em toda a sociedade brasileira. Na ditadura militar, os cantores, os poetas, a intelectualidade brasileira desempenharam um papel muito importante na política brasileira. E seria estranho que em um momento tão crítico como esse de agora, que é a crise mais séria vivida pelo país talvez desde o retorno da democracia, que pessoas como Chico Buarque e muitos outros não tivessem um papel preponderante também nesta crise política.

Insisto é parte desta polarização intensa. Uma polarização que, em menor medida, vimos na última eleição (presidencial) quando o país se dividiu em dois politicamente, geograficamente e quase que etnicamente.

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BBC Brasil - O senhor diz que o nível de tensão foi crescendo desde a reeleição, no segundo turno, da presidente Dilma em diante...

Castañeda - A tensão não nasce da eleição, mas da divisão do país em dois, o que era visível no mapa dos resultados da votação. Os Estados que votaram em Aécio (Neves) são todos do centro e do sul. Ou seja, os Estados mais ricos e em votaram Dilma, os estados mais pobres. E essa polarização está agora nas ruas e em muitos outros âmbitos da sociedade brasileira.

BBC Brasil - No fim de semana, o presidente da Bolívia, Evo Morales, pediu uma reunião de urgência da Unasul para discutir a crise no Brasil e, segundo afirmou, "defender a democracia" brasileira. Qual a sua opinião? E o senhor acha que a crise brasileira poderia afetar outros países da região, da América do Sul principalmente?

Castañeda - Não acho que a democracia brasileira esteja em perigo. E também não acredito que a crise brasileira possa afetar ou desestabilizar a região.

BBC Brasil - Mas como fica a imagem da esquerda associada ao ex-presidente Lula e a Dilma?

Castañeda - Acho que esta esquerda fica desprestigiada. Que aumenta o desprestígio da esquerda associada a eles, como Evo Morales e Maduro, por exemplo.

BBC Brasil - Alguns setores falam do risco de uma ação militar. É exagero?

Castañeda - Acho exagero. Não acho que exista esse perigo.

BBC Brasil - O protagonismo de setores do Judiciário gera polêmicas (intensificada com a divulgação de gravações). Qual é a sua opinião?

Castañeda - A independência do Poder Judicial é muito saudável para o Brasil e para a democracia. Assim como os protestos são saudáveis para a democracia. Pode haver alguns excessos, estridência de alguns setores. Mas acho que nunca vimos protestos assim com milhares de pessoas nas ruas na América Latina, talvez na Guatemala. Mas, além dos protestos, eu destacaria a independência dos poderes (no Brasil).

BBC Brasil - O juiz Sergio Moro é elogiado, mas também criticado. Qual sua posição?

Castañeda - Acho que existe independência dos poderes no Brasil. E, como eu disse, podem ocorrer alguns excessos, mas eles são para o fortalecimento da democracia.

BBC Brasil - A América Latina parece com um zigue-zague, no sentido de caminhar para frente mas também para trás. Ou o senhor opina diferente?

Castañeda - Eu acho um avanço que as pessoas saiam às ruas para protestar contra a corrupção. Isso é bom para o Brasil e para a região. Existem problemas como a queda nos preços das commodities que afetam as economias latinas, mas eu vejo como salutar o que está acontecendo.

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