'Como resolvi me assumir como mulher': ex-soldado de elite dos EUA relata transição de gênero

- BBC Outlook

Christopher Beck passou 20 anos no grupo de elite das Forças Armadas americanas, onde era conhecido como "homem das cavernas". Após a aposentadoria das Forças Armadas, um dia acordou, colocou um vestido e foi trabalhar.

A partir daí, Christopher Beck virou Kristin Beck.

Ela diz que, desde criança, sentia que não se encaixava no corpo de menino.

Por isso mesmo acabou indo trabalhar no Navy Seals, um comando especial da Marinha dos EUA que frequentemente faz operações secretas em territórios inimigos.

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"Sofria muito bullying, então frequentemente estava envolvido em brigas. E comecei a defender outras crianças que sofriam também, me via como um defensor. Por isso o serviço militar me atraiu", conta.

Na Marinha, o mundo de Beck era duro, machista e às vezes violento.

"Fiquei no grupo dos melhores, acho que porque eu ainda estava tentando me provar. Tinha autoestima muito baixa e queria mostrar que eu tinha algum valor", diz.

Nos anos de Marinha, ele chegou a contar para um amigo - na verdade, apareceu para tomar uma cerveja vestido de mulher -, que disse que respeitava sua personalidade mas alertou que ele seria demitido se aquilo fosse descoberto.

Os oficiais do Navy Seals participam de algumas das missões militares mais difíceis e perigosas do mundo (uma das unidades em que Kristin trabalhou, por exemplo, foi responsável pela missão que matou Osama Bin Laden no Paquistão, em maio de 2011) e têm, entre si, um código de lealdade, integridade e confiança. Beck temia que seus ex-colegas a acusassem de desonrar esse código por assumir-se como transgênero.

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Depois disso, não disse mais nada sobre o tema. Nas Forças Armadas, participou de operações na Bósnia, na África e esteve também na Guerra do Iraque. Neste período surgiu o apelido de "homem das cavernas", já que ele tinha barba.

Quando se aposentou, começou a trabalhar no Pentágono como civil, com pesquisa em tecnologia e desenvolvimento.

Trabalhava de terno e gravata e, à noite, trocava de roupa e ia para bares frequentados pela comunidade transgênero. Teve contato com a violência sofrida por transgêneros. E, depois de uma noite em que apanhou na rua, decidiu mudar.

No dia seguinte, colocou um vestido cinza, peruca e maquiagem e foi trabalhar. A reação inicial, diz, não foi boa, mas depois as pessoas compreenderam.

"Não estou tentando ser o 'homem das cavernas' e nem a 'Barbie'. Estou tentando ser eu mesmo", afirma.

'Não pergunte, não conte'

O fim da política "don't ask, don't tell" ("não pergunte, não conte"), em 2011, pôs fim ao veto a pessoas abertamente homossexuais nas Forças Armadas americanas. Mas essa mudança não se aplicou a transgêneros, que ainda podem ser dispensados se descobertos.

Kristin, por sua vez, defende que oficiais transgêneros possam ser realocados dentro das Forças Armadas.

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"É uma condição humana", argumenta. "Os militares têm de olhar além do gênero e ver pessoas como eu como indivíduos, não apenas feminino ou masculino, e entender que eu ainda posso fazer um bom trabalho. Posso não conseguir fazer todas as tarefas de antes, mas posso fazer algo diferente - ser analista de inteligência ou oficial de segurança em postos de checagem."

Beck hoje mora em uma fazenda e é casada com uma mulher. Ela diz que as roupas femininas, na verdade, são apenas uma forma de mostrar ao mundo quem você é por dentro.

"As pessoas entendem que isso é muito mais profundo do que roupas. A maquiagem, as roupas, isso é para as pessoas verem, reagirem a quem você é de verdade."

Ela também concorreu ao Congresso pelos mesmos motivos, diz, que entrou nas Forças Armadas. "Sou uma defensora, quero lutar pelo que é certo. E além disso eu realmente acredito em liberdade individual, em igualdade. É fácil falar essas palavras, mas como você vive essas palavras?"

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