Brasileiro que parou aula de piano por falta de dinheiro vira mestre de um dos principais corais do mundo

Felipe Souza - Da BBC Brasil em São Paulo

O paulista Luiz Guilherme de Godoy estudou música e trabalhou durante 23 dos seus 28 anos até chegar, em fevereiro deste ano, à frente de um dos principais corais do mundo: os Meninos Cantores de Viena, da Áustria.

Em sua trajetória, o jovem teve de interromper um curso de piano por falta de dinheiro, mentiu para entrar numa escola de música e diz ter sido vítima de racismo de professores quando estudava na USP (Universidade de São Paulo). Hoje, após suas primeiras apresentações no coro de Viena, o jovem impressiona críticos europeus.

"Luiz de Godoy é brasileiro e regeu nessa noite (...) seu primeiro concerto, o qual foi fabuloso, especialmente na segunda parte. (...) O novo mestre de capela já se ambientou precisamente e causou também no último número, aValsa do Danúbio , uma ótima impressão", diz trechos de crítica publicada pela imprensa austríaca.

Leia o depoimento de Luiz à BBC Brasil:

"Aos 5 anos, comecei a ir com a minha mãe e meu irmão a um coral em Mogi das Cruzes (Grande São Paulo), onde eu morava. Eu queria cantar, mas fui proibido porque era apenas para crianças acima de 10 anos.

Mesmo assim, aprendi todo o repertório porque frequentava todos os ensaios. Sempre que havia uma apresentação, eu entrava no meio dos outros alunos ou ficava na frente cantando junto.

A Dulce Primo, regente do coro, viu a situação e resolveu fazer um teste comigo. Ela gostou do resultado e me convidou para cantar.

Aos 6 anos, falei para a minha mãe que eu queria tocar piano. Ela procurou um professor, mas ele que disse que eu precisaria ser alfabetizado para fazer o curso. Isso é um absurdo, mas eu respeitei e só comecei quando aprendi a ler.

Eu logo comecei a amar a música e a tratava como a coisa mais importante da minha vida. Se eu não fazia alguma atividade da escola para tocar piano, por exemplo, eu pensava que estava tudo bem porque aquilo era menos importante.

Estudei em escola pública a minha vida inteira. Meus pais eram separados e minha mãe, professora, precisava dar aula em duas escolas para conseguir pagar as contas.

Aos 10 anos, tive de parar o curso de piano porque ficamos sem dinheiro. Dois meses depois, a minha professora procurou minha mãe para falar que eu poderia estudar de graça. Para isso, ela e o dono da escola abdicaram da minha mensalidade para eu voltar a estudar.

Meu desenvolvimento só ocorreu porque tive apoio de todos os lados. Até a minha escola abriu espaço para eu mostrar meu trabalho. Eu sempre sugeria apresentações e a coordenadora não só concordava, mas também disponibilizava salas para ensaio para ensaio.

Mentira

Aos 13 anos, passei na Escola Municipal de Música de São Paulo, onde construí minha base musical. Quando comecei a estudar lá, decidi que viveria de música o resto da minha vida. Eu não pensava se aquilo poderia me sustentar ou se conseguiria pagar minhas contas, mas aquele era o meu mundo.

Minha primeira dificuldade na escola de música foi eu ter mentido na ficha de inscrição. Escrevi que eu tinha um piano porque o instrumento era um pré-requisito para a matrícula.

Assim que fiz a matrícula, minha mãe pediu desculpas ao professor e pediu para ele indicar um piano para ela comprar. Ela teve de fazer um empréstimo porque não tinha dinheiro.

Dívidas

Meu desenvolvimento só ocorreu porque tive apoio de todos os lados. Até a minha escola abriu espaço para eu mostrar meu trabalho. Eu sempre sugeria apresentações e a coordenadora não só concordava, mas também disponibilizava salas para ensaio para ensaio

Nesse mesmo ano, eu entrei na atual Emesp (Escola de Música do Estado de São Paulo). Na época, era uma escola voltada à música popular, enquanto a municipal era mais erudita.

Eu saía da escola, passava em casa para almoçar e pegava o trem quase todos os dias para a Vergueiro, na zona sul de São Paulo. Cada viagem demorava duas horas.

Quando não dava tempo de ir para casa comer, eu comprava três esfihas por R$ 1 na estação Brás. Eu achava uma delícia e só voltaria comer de novo à noite.

Depois de um ano, senti que aquilo não ficaria bem e decidi que teria de me dedicar com todas as forças a apenas uma das escolas. Escolhi o curso de música erudita na escola municipal, que dura dez anos.

Racismo

No último ano do ensino médio, prestei vestibular na Unesp (Universidade do Estado de São Paulo) e na USP. Passei nas duas, na Unesp em primeiro, mas escolhi a USP.

O ensino universitário sempre foi algo destinado à elite, mas o ambiente de arte e música talvez seja o mais elitista e preconceituoso. Eu me sentia deslocado no Departamento de Música da USP.

Fechei o curso com uma média de 9,3 e tirei nota máxima no TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), mas, no fundo, a minha vontade era me ver livre daquilo.

Eu tive algumas experiências muito desgastantes, sobretudo com professores. Me disseram: "Você não vai ser músico". Isso sem se basear em questões técnicas, mas em preconceitos.

Eu sou negro e tenho certeza absoluta de que, quanto mais escura a pele, mais o comportamento das pessoas que interagem com a gente muda, no Brasil.

Há um racismo velado nessas instituições tradicionalmente voltadas para a elite porque ninguém se assume racista. Jamais disseram para mim: "Luiz, você não vai dar certo na música porque você é negro". Mas me pergunto se essa não foi a motivação da pessoa.

Público ou privado?

Certa vez, tive de tocar uma prova da USP na casa de uma senhora da alta sociedade paulistana. O objetivo era que a gente se apresentasse para possíveis financiadores da nossa carreira.

O professor pede para eu trocar de classe porque tem a "sensação de que eu não me esforço o suficiente". O que é esforço para ele? Eu não ter condições de ir para Boston e comprar um piano (de R$ 18 mil)?

Parece até uma intenção boa do professor que organiza algo assim, mas aquilo é uma universidade pública e eu tenho que tocar o meu exame final num ambiente externo à universidade, e privado.

Daí, você está nesse ambiente e todos os seus colegas são brancos e todas as outras pessoas também são brancas. Em seguida, aqueles colegas vão tendo oportunidades a partir daquela situação na qual você também estava - menos você.

Em outra oportunidade, seu professor fala para você que a classe toda vai para Boston (EUA) nas férias de julho para uma aula de aperfeiçoamento. Eu digo: que legal, mas não tenho condições de ir.

Tempos depois, o mesmo professor diz que você precisa comprar um piano de cauda e diz que conhece um amigo que vende por R$ 18 mil. Eu agradeço, mas digo que é muito dinheiro para mim.

O semestre acaba e esse professor pede para eu trocar de classe porque tem a "sensação de que eu não me esforço o suficiente". O que é esforço para ele? Eu não ter condições de ir para Boston e comprar um piano?

Ele não deve conhecer outra realidade e nem deve passar pela cabeça dele que uma pessoa de outra origem possa dividir o mesmo espaço e ter o mesmo desempenho. Então, ele usa o mesmo discurso e as mesmas ferramentas de costume. Mas quando alguém fala que aquilo não funciona com ela, cria-se um problema que ele não sabe resolver.

Viena

Em 2011, fui convidado para dar um workshop em Viena, na Áustria, e comecei a crescer em coros da cidade.

Durante o trabalho com um coro infantil, fui convidado a concorrer ao cargo de mestre de capela dos Meninos Cantores. É um coro de 1478 formado por cem meninos de vários países, entre 10 e 14 anos, que estudam num internato. O coral é dividido em quatro, e eu rejo um deles.

Minha família está extremamente orgulhosa dessa trajetória e vai se realizando junto comigo. Hoje, não tenho novas metas ou desafios e vejo tudo como um processo natural.

Sou muito grato pelo que aconteceu comigo e não acho que foram golpes de sorte. Estive muitas vezes no lugar certo e na hora certa, mas foi essencial ter sido preparado por pessoas competentes.

Há dois nomes importantes para mim: a Dulce Primo, que que me iniciou no canto coral quando eu tinha 5 anos, e o Renato Figueiredo, que me deu aulas na escola municipal por dez anos. Se eu não tivesse sido aluno dele, certamente não seria o que eu sou hoje.

Ele é muito competente e parte do princípio de que precisa oferecer tudo o que tem para o aluno antes de julgar sua habilidade, ao contrário de outros professores.

Tem muita gente estudando música no Brasil e elas precisam saber que se levarem isso a sério também serão levadas a sério. A vida sempre devolve aquilo que a gente dá para ela."

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