Hoje ninguém fala mais de Cunha, questiona ex-promotor do Tribunal Penal Internacional

Marina Wentzel - De Basileia (Suíça) para a BBC Brasil

"Para mim, no Brasil hoje é fascinante que o presidente da Câmara dos Deputados (do Brasil) esteja altamente envolvido em corrupção e ninguém fale disso", diz à BBC Brasil Luis Moreno Ocampo, ex-promotor do Tribunal Penal Internacional, em referência ao fato de as acusações contra Eduardo Cunha terem saído dos holofotes em meio ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O presidente da Câmara, que é réu da operação Lava Jato, nega as acusações de envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras.

"Ele (Cunha) está lá, sem problemas. O que é isso? Para mim é importante que seja discutido como lidar com as questões que realmente importam para o Brasil. Não é sobre um partido contra o outro, mas sobre achar uma forma de reduzir a corrupção, pois essa é a forma de tornar o Brasil melhor", prosseguiu Ocampo.

"É importante encontrar opções políticas em todos os partidos que sejam limpas. O que precisamos nos nossos países (latinos) é a coalizão de diferentes partidos para fazer com que todos respeitem os limites."

Ocampo, advogado argentino que trabalhou como promotor do Tribunal Penal Internacional da ONU entre 2003 e 2012, é um renomado especialista em direitos humanos, governança e corrupção.

Em entrevista na Universidade de Basileia, após painel sobre corrupção no futebol, Ocampo falou sobre o cenário político brasileiro e elogiou o trabalho do Judiciário e a operação Lava Jato.

"O Judiciário no Brasil está conduzindo uma investigação muito difícil e fazendo-o com muita eficiência. O impacto disso vai depender de como a classe política administra o problema", avalia.

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Dilma

Durante o debate sobre futebol, Ocampo acusou Joseph Blatter - ex-presidente da Fifa e participante do evento - de ser conivente com a corrupção na federação futebolística e, portanto, igualmente culpado. Questionado se o papel de Dilma na Lava Jato seria semelhante, ele respondeu: "Se ela não fez nada antes, ela deveria estar fazendo agora".

"A saída de Dilma ir em frente é propor um novo caminho. Se ela não estava envolvida no que ocorreu sob o comando dela, a partir de agora não poderia ocorrer de novo. Ela deveria dar um jeito para assegurar que o seu próximo gabinete seja eficiente e honesto".

"Dilma, enquanto líder do país, tem uma grande responsabilidade. Ela precisa oferecer uma opção aos brasileiros de como ela vai conseguir gerir um governo onde a corrupção não seja universal".

'Estamos aprendendo'

A ideia de que na época das ditaduras latino-americanas havia menos corrupção é uma percepção descartada por Ocampo. "Não é verdade", disse em resposta à ideia de que um retorno a um governo militar, propiciaria uma moralização do país. "Corrupção é um abuso de poder".

"Nas ditaduras você não sabe o que está acontecendo. A questão é que a América Latina aprendeu a estabelecer a democracia durante os anos 80. (...) O próximo desafio é controlar a corrupção. Estamos apenas aprendendo como fazer isso, mas a classe política deveria oferecer administradores capazes", afirmou o ex-promotor.

"Eu sempre falo a respeito da Argentina: o nosso governo (antes) nos matava, agora está apenas nos roubando. O problema no Brasil é que nunca investigou-se o passado. Nunca investigaram-se os abusos de direitos humanos, então as pessoas tem uma ideia mais romântica sobre a eficiência e a honestidade dos regimes militares".

Na ONU, Ocampo investigou crimes de guerra ocorridos em países como Uganda e República Democrática do Congo e na região sudanesa de Darfur, obtendo, inclusive, ordem de prisão contra o presidente sudanês Omar Al-Bashir. O ex-promotor é hoje diretor da ONG anticorrupção Transparência Internacional para América Latina.

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Fifa

Em relação ao escândalo de corrupção da Fifa, Ocampo afirmou que "o silêncio não está adiantando" e condenou a postura da organização sediada na Suíça, atacando a inatividade de Blatter perante os colegas.

Durante o debate, Joseph Blatter negou envolvimento com corrupção e rebateu as críticas de Ocampo, reforçando que corrupção era problema das confederações nacionais e não da Fifa.

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Falando sobre se Ricardo Teixeira e José Maria Marin, ambos ex-presidentes da Confederação Brasileira de Futebol, teriam a culpa pelos escândalos relacionados à Copa do Mundo no Brasil, Blatter rebateu: "Eu não sou juiz, eu não posso julgar. Deixemos os tribunais julgar sobre isso. É um caso pendente e eu não devo me pronunciar sobre ele".

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