'Paguei um preço alto por apoiar governo', diz socialite contrária ao impeachment

Jefferson Puff - @_jeffersonpuff - Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

Habituada às altas rodas brasileiras, a jornalista Hildegard Angel, que já organizou jantares para a presidente Dilma Rousseff na casa de Lily Marinho, diz que "pagou um preço alto" por apoiar abertamente o governo do Partido dos Trabalhadores e que a "tomada de posição explícita" a transformou numa "pessoa diferente", além de render o afastamento de alguns.

Hildegard escreveu no jornal O Globo e no Jornal do Brasil por mais de 40 anos, sendo considerada uma das mais proeminentes colunistas sociais do país. Nos últimos anos também passou a se interessar por outros temas e tem mantido um blog e uma conta no Twitter, nos quais transmite seus pontos de vista.

Ela se diz contrária ao impeachment e a favor da continuidade do governo Dilma.

"Votei na Dilma, sim. Não sou jurista, nem política, nem exerço função pública e tampouco sou jornalista de política, mas posso dizer que o ocorre hoje é uma tentativa de golpe. Sei que me arrisco e posso comprometer toda uma carreira junto a um grupo social que sempre me admirou, gostou de mim e construiu meu nome, mas não posso me calar", diz.

Hildegard fez menções a uma entrevista concedida à BBC Brasil em outubro de 2014, às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, em que declarou que votaria em Dilma.

  • Esta reportagem é parte de uma série da BBC Brasil, ouvindo cidadãos de diferentes pensamentos políticos e classes sociais a respeito do impeachment.

Para ela, foi uma oportunidade importante de se posicionar, mas que teve um "preço alto", já que a fez rever algumas amizades e também levou algumas pessoas a se afastar.

"Houve uma seleção, uma mudança de parâmetros. A vida é dinâmica e você procura estar com pessoas com quem se sente confortável. Já me calei muito, e agora não preciso mais me explicar, as pessoas já sabem qual é minha posição", explica.

Na época, a colunista disse que votaria em Dilma por concordar que o Brasil precisava de "uma política econômica que prioriza o povo brasileiro, a multiplicação de empregos, e o desenvolvimento nacional".

Agora, ante a votação do impeachment da presidente, Hildegard mantém sua opinião e diz que, mesmo sabendo que pode estar cometendo "um ato kamikaze profissional e pessoalmente", considera que as elites do país nunca se conformaram com um governo com programas voltados à área social.

"É a elite que sempre determinou tudo, que sempre estabeleceu as peças do tabuleiro. A elite sempre estabeleceu as regras e sempre venceu no Brasil, e a verdade é que o governo do PT nunca interessou a essa classe dominante", indica.

História pessoal, Dilma e imprensa

Questionada sobre as motivações por trás de seu posicionamento político tão contundente, Hildegard opina que "Dilma fez muito mais pelo social do que Lula, embora ela não tenha habilidade política nem gerencial. Ela colocou os jovens nas universidades, fez projetos de luz elétrica, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, enfim, reverteu essa tragédia brasileira".

Outro motivo é sua própria história pessoal. Seu irmão, Stuart Angel, participou da luta armada contra o regime militar e faz parte da lista de desaparecidos políticos, enquanto sua mãe, Zuzu Angel, notabilizou-se por denunciar os crimes da ditadura até sua morte, em 1976, em um acidente de carro sobre o qual há suspeitas do envolvimento de militares.

Hildegard se emociona ao lembrar da mãe, cuja morte completou 40 anos na última quinta-feira, e diz que o clima de intolerância e enfrentamento no país a deixam muito triste.

"Quando eu vejo a direita tão irascível, tão mal informada, e esses espetáculos constrangedores de gente nas ruas pedindo a volta da ditadura militar, são coisas que me afetam profundamente. Ao contrário de 1964, desta vez não vamos ter canhões, mas eu vejo os dois lados falando em luta, luta, e eu sei onde isso pode dar, é muito triste", diz, emocionada.

Hildegard relembra alguns encontros com Dilma Rousseff nos últimos anos e diz que as duas não são amigas, mas mantêm uma relação "de grande cerimônia e distância".

"Já a encontrei em jantares no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente, na época do governo Lula. Num jantar que organizei para ela na casa de Lily Marinho ela me contou que conhecia meu irmão e que se encontravam mensalmente em reuniões dos líderes dos movimentos contrários à ditadura. Sei que ela é honesta e tem sensibilidade com os pobres", diz.

Sobre um eventual governo do vice-presidente Michel Temer, a colunista ironiza as propostas do PMDB divulgadas recentemente sob o nome de "Ponte para o Futuro".

"Teremos um retrocesso com todas as conquistas sociais, um retrocesso enorme, sobretudo com essa 'Ponte para o Futuro', que já estão chamando de 'Ponte para o Inferno'".

Sobre a imprensa, a colunista critica o trabalho de alguns colegas.

"É triste ver que pessoas que foram suas colegas atuam na pantomima do golpe. Entendo, eles têm uma agenda de trabalho e altos salários para manter. Eu tive que engolir sapos durante muitos anos, mas agora não posso mais fazer isso. Fico triste com a nossa imprensa", diz.

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