O que esperar do governo? Haverá reação? Quatro opiniões

Mariana Della Barba e Renata Mendonça - Da BBC Brasil em São Paulo

Com o processo do impeachment aprovado na primeira etapa - com 367 votos a favor e 146 contra (somando abstenções) - qual o cenário que podemos esperar para as próximas semanas?

Dados indicam que o governo vinha conseguido reverter a tendência de apoio ao impeachment na população. Segundo pesquisa do Datafolha divulgada há uma semana, esse apoio caiu de 68% para 61% em um mês.

Para a consultoria Eurasia Group, com sede em Nova York, esses dados e o risco de que a operação Lava Jato envolva ainda mais o PMDB poderiam mudar o curso do processo nas próximas semanas.

Mas e agora? A BBC Brasil conversou com analistas políticos sobre as chances do governo no Senado, o que esperar das ruas e das próximas negociações políticas que devem ocorrer nos bastidores.

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Antonio Lavareda, cientista político da Universidade Federal de Pernambuco

Para Antonio Lavareda, professor de ciência política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o governo dificilmente conseguirá reverter o cenário na votação do Senado. "É muito difícil que esse placar provavelmente seja revertido, que o Senado delibere contra a Câmara", afirmou à BBC Brasil.

"Eles vão tentar estender o rito esperando que novos atos da Lava Jato ou do Supremo Tribunal Federal venham desequilibrar o jogo. Vão tentar judicializar ainda mais o processo, tentando fazer com que o Supremo reverta isso. Mas a conjuntura a favor do impeachment é nítida e isso enfraquece ainda mais o governo."

Lavareda acredita que os próximos dias ainda serão agitados por manifestações nas ruas e insatisfação do lado contrário ao impeachment. "Vamos ter algo ruidoso nos próximos dias até que venha a decisão no Senado e as coisas tendam a se normalizar", avaliou.

Apesar disso, ele não acredita na possibilidade de greves serem utilizadas como estratégia dos sindicatos para fazer pressão. "A crise econômica, na gravidade que está, não favorece nenhuma greve. Acho isso bem pouco provável. A dureza da crise e a precariedade do trabalho torna esse cenário quase impossível."

Quanto a Michel Temer, o professor da UFPE diz que o vice-presidente precisa ter cautela nos próximos dias e esperar o desfecho do processo do impeachment. "Ele precisa ter uma postura cautelosa, não vai anunciar ministros agora, precisa esperar a conclusão do processo."

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Lavareda disse ainda que o Brasil sairá fortalecido desse processo e que o "povo brasileiro está dando uma lição de muito equilíbrio e sensatez".

"Acho que a democracia sai fortalecida. Quando a gente vê que tudo isso está se desenrolando sem violência nas ruas, a população dá um exemplo para a classe política", afirmou.

"Mostramos que esse povo que discutiu política de forma contundente nesse último ano - e às vezes até se excedeu nisso -, ele imergiu na busca de mais informações, leu mais coisas, aprendeu muito mais, discutiu questões, acompanhou sessões do Supremo. Então isso mostra que sairemos desse processo com aprendizado, fortalecidos."

Renato Perissinoto, cientista político da Universidade Federal do Paraná

Com o governo fragilizado, o cientista político Renato Perissinotto, da Universidade Federal do Paraná, acha pouco provável reverter a aprovação do impeachment no Senado. "O Senado estará sob forte pressão depois dessa votação e a tendência é que confirme o resultado da Câmara", disse.

"Tanto governo quanto Temer adotarão a mesma estratégia, que é a distribuição de cargos no governo. A moeda de troca é a mesma, mas você tem um governo enfraquecido e uma força em ascensão que negocia com mais facilidade. Por isso é improvável que algo mude no Senado."

Para ele, Temer já está negociando cargos tanto em Brasília quanto na direção de empresas estatais e está "articulando seu novo governo" desde já.

Quanto à resposta da população, o cientista político da UFPR acredita que ela será forte e marcará o retorno dos movimentos sociais "domesticados durante os anos de governo do PT" às ruas.

"Minha visão é que teremos mais instabilidade pela frente. No Congresso, o PT vai entrar numa oposição destrutiva. Pode tentar o impeachment contra o Temer e contra o Cunha. E nas ruas os movimentos sociais devem voltar com toda a intensidade para enfrentar governo que consideram ilegítimo."

De acordo com Perissinotto, o pós-impeachment de Dilma Rousseff ainda é uma incógnita no país, mas as perspectivas não são positivas.

"Acho que o Brasil sai pior do que entrou. Porque o processo é visto como ilegítimo por parte significativa das forças políticas. Eu estou falando de gente organizada, do segundo maior partido na Câmara, de movimentos sociais, de gente que está sentindo vítima de um golpe", avaliou.

" Sem entrar no mérito dessa questão, essas forças ao meu ver vão reagir. Essa polarização recente não gera boas perspectiva."

Maria Hermínia Tavares de Almeida, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro Análise Planejamento) e professora de Ciências Políticas da USP

Apesar da derrota na Câmara, a professora acredita que o PT vai continuar a ser um ator importante e isso precisará ser levado em conta. "Qualquer governo sensato precisa conversar com o PT. E talvez aí a rua histérica se decepcione. Porque agora é hora dos políticos, das negociações."

Maria Hermínia acredita que o poder de mobilização do PT também deve ser reduzido. "Uma coisa é mobilizar a população antes desse cenário. Outra é mobilizar agora com essa derrota do governo. É claro que a sociedade continuará mobilizada. Mas não acredito que veremos protestos gigantescos. O PT não tem mais essa capacidade de mobilização. Sair às ruas para quê?"

A professora diz ainda ser importante agora diferenciar o cenário hoje do que tivemos após o impeachment do Collor. "O resultado de hoje é muito diferente, porque hoje a nação sai desunida. Agora tudo depende de quem for para o governo e de sua capacidade de cicatrizar feridas", diz a professora.

Carlos Melo, cientista político do Insper

Para o professor, um dos pontos mais importantes das próximas etapas será analisar a atuação e os desafios de Temer.

"Dilma tem 20% da (de apoio da) população, o que não garante governabilidade. Mas qual a porcentagem da população está a favor do Temer? Ele começa com um saldo negativo de 20%, mas isso não significa que ele tenha 80% de apoio. Ninguém foi às ruas para pedir o governo Temer. Ele vai ter de conquistar esse apoio"

Na opinião dele, o vice-presidente sai com base bastante volátil e vai ter muito trabalho. "Se ele está à altura do desafio, só vamos saber daqui a alguns meses."

"Temer vai precisar formar um Ministério de altíssimo nível. Mas não sabemos quais os compromissos assumidos com a negociação do impeachment. Ninguém votou de graça. Essas pessoas vão cobrar recursos para se reelegerem. Temer hoje é uma vidraça e o PT é uma imensa pedra."

Apesar do "oba-oba político", o professor lembra que os problemas do país persistem. "A votação de hoje não é um novo tempo. Temos desemprego, problemas na economia e um sistema político falido, além de outros problemas que não serão resolvidos em um passe de mágica, ainda mais em um ano de eleição.

O cientista político, que é autor do livro Collor: o ator e suas circunstâncias (editora Novo Conceito), disse ainda que é preciso lembrar que o cenário hoje é totalmente diferente do que na época de Collor por vários motivos.

"Em 92, a economia do Brasil estava voltando a crescer e o Collor tinha, de fato, deixado um Ministério de alto nível. Então, Itamar encontrou a casa organizada, bem diferente do que vemos hoje."

Para Melo, outro ponto a ser levado em conta é o fato de que Collor era um "outsider". "Quando Collor caiu, ele caiu e ponto. Já o governo do PT tem inserção social e ainda tem bastante capilaridade. O impeachment do Collor foi um passeio de domingo. Não havia nada como a polarização de hoje, por isso o desafio é bem maior."

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