'Acredito no impeachment, mas fiquei indignado com clima no Congresso'

As dedicatórias, declarações e trocas de ofensas por parlamentares durante a votação do impeachment na Câmara dos Deputados, no último domingo, foram alvo de críticas e sátiras nas redes sociais e causaram impressão negativa mesmo em quem acredita que a presidente Dilma Rousseff deve deixar o poder.

É o caso do músico e estudante de administração baiano Manoel Passos, de 22 anos. Filho de um ativista do Partido Comunista do Brasil (PC do B), ele diz ter pensamentos "mais para a direita" e ter discutido com familiares e amigos em defesa do processo de impeachment, que considera correto.

No entanto, ele diz que as justificativas apresentadas pelos deputados durante a votação - citando, por exemplo, Deus ou familiares - o levaram a torcer contra o processo de impeachment.

Leia seu depoimento:

"Votei duas vezes em Dilma. Mas no início desse ano me tornei um defensor do impeachment, cheguei a ir a uma passeata. Até então eu estava pesquisando sobre as razões para o processo.

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Meu pai é comunista, filiado ao PC do B. E nós chegamos a brigar, divergíamos muito. Ele defendia com todas as forças que isso era um golpe - uma estratégia da oposição para ferir e atingir os direitos adquiridos pela democracia - e eu defendia que o processo era legal e que a presidente era a grande culpada pela crise econômica. Ainda acho isso. Os fatos não devem ser ignorados.

Briguei até com alguns amigos, mas graças a Deus a amizade não se desfez, não.

Mas ao começar a assistir ao andamento da votação e ouvir os argumentos dos deputados para justificar o sim, eu pensei: até que ponto esses argumentos justificam um impeachment? O que isso tem a ver?

Eles fugiram totalmente do assunto. Muitos falavam em Deus, na própria família. E eu acho que religião e a política não deveriam se misturar.

As justificativas que me convenceriam seriam as provas das pedaladas. O mérito da questão não era a família deles ou interesses individuais. Era o bem do povo, o bem do Brasil.

Diante disso, eu estava com o computador na minha frente e fui pesquisar a ficha de todos os deputados que falaram sim ao impeachment no site do Congresso. Muitos dos que disseram não à corrupção durante a votação respondem a processos judiciais por corrupção.

Pesquisei especialmente sobre Cunha. Eu acho que alguém que responde a tantos processos de corrupção não pode estar sentado naquela cadeira.

Também me chamou a atenção negativamente a fala do deputado Jair Bolsonaro.

Antes eu me identificava com algumas opiniões dele, como as referências a favor da família tradicional. Eu também acredito na família tradicional, mas nem por isso devo desmerecer os homossexuais e achar que eles não podem constituir uma família.

Eu o admirei em um vídeo em que ele criticou a Comissão de Direitos Humanos e Minorias e disse que nosso país é muito dedicado à defesa de bandidos. Acho que a impunidade é o grande problema do nosso país, seguida da educação.

Eu tenho um lado de pensamento voltado para a direita, assim como ele. Mas isso não me dá o direito a achar que minha opinião é a melhor para o funcionamento de um país. Sou aberto ao diálogo, mas ele é radical.

Na votação, quando ele (Bolsonaro) parabenizou Eduardo Cunha pela condução do rito do impeachment, isso me entristeceu bastante. E ele fez uma referência ao coronel Brilhante Ustra, que eu fui pesquisar e descobri que foi um dos grandes torturadores da ditadura. Acho que ele foi muito infeliz na fala dele e totalmente incoerente.

Fiquei indignado com o clima visto na TV. A gente estava vendo um circo, eles se desrespeitavam entre si, vaiavam quem tinha opiniões contrárias, houve intolerância.

Hoje vejo o processo como um golpe diante do real interesse de quem o promove - que é nada mais do que poder.

Dilma é culpada pelo que está acontecendo com o país? É. Não inocento a presidente de seus crimes de responsabilidade fiscal. Mas convenhamos, ela foi eleita democraticamente. E aquela votação de ontem não foi nada democrática. A grande maioria dos que disseram sim não me representava. E quem garante que representava os interesses da maioria do nosso país?

A questão para mim não é o impeachment, mas as pessoas responsáveis por ele. Se fossem outras pessoas, continuaria apoiando. Mas agora, vou torcer contra."

  • *Depoimento concedido à repórter Camilla Costa

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