Membro do Crea-RJ aponta possível falha de projeto em ciclovia que desabou

Rafael Barifouse - Da BBC Brasil em São Paulo

Uma falha do projeto é uma possível causa do desabamento de um trecho da Ciclovia Tim Maia, na zona sul do Rio de Janeiro, nesta quinta-feira, segundo o engenheiro civil Antônio Eulálio, integrante do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ).

Segundo ele, o projeto não teria previsto a ação de ondas fortes sobre a estrutura. "Ainda é preciso fazer uma análise, mas tenho 99% de certeza que a causa foi essa", afirma Eulálio.

"Já participei da construção de plataformas da Petrobras e, em obras assim, é preciso prever o efeito do que chamamos de 'onda centenária', ou seja, a onda mais forte gerada num período de cem anos segundo as estatísticas. O projeto não deve ter previsto nenhum efeito de onda."

Procurada pela BBC Brasil para comentar as avaliações feitas pelo membro do Crea-RJ, a Prefeitura não se manifestou até a publicação desta reportagem. A BBC Brasil não conseguiu entrar em contato com o consórcio Contemat-Concrejato, responsável pela obra.

Em nota enviada à imprensa, a Prefeitura do Rio informou que a Fundação Geo-Rio está apurando as causas do acidente junto com técnicos do município e a coordenação da secretaria municipal de obras.

"O resultado da vistoria será divulgado assim que concluído", informou o comunicado.

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Ressaca

Ao menos duas pessoas morreram no desabamento da ciclovia, inaugurada há apenas três meses ao custo de R$ 45 milhões e construída em uma rota elevada sobre costões e rochedos, com as ondas do mar de um lado e a mata atlântica do outro.

Os bombeiros realizam buscas no mar por uma terceira pessoa que estaria desaparecida após o desabamento, ocorrido após a estrutura ser atingida por uma forte ressaca.

Segundo diagnóstico do conselheiro Eulálio, uma onda teria "levantado e torcido" a estrutura após atingi-la por baixo e pela lateral. Ele acha que "não foi por causa do material usado nem por erro de cálculo no dimensionamento. Ela quebrou ao se chocar contra a rocha".

Eulálio explica que, provavelmente, só um único trecho desabou por ter vigas de apoio que estavam posicionadas mais próximas umas das outras. No restante do percurso, estas vias estão mais separadas, o que favorece a resistência da estrutura à ação da onda.

O engenheiro ainda critica o fato de a obra ter sido executada sob o Regime Diferenciado de Contratações Públicas, um tipo de licitação pública aplicado às obras da Copa das Confederações, da Copa do Mundo, dos Jogos Olímpicos e dos Jogos Paralímpicos.

Nesse regime, a obra é contratada por inteiro e deve ser entregue à administração pública pronta para uso. "Neste modelo, quem constrói é responsável por contratar o projeto, normalmente pelo preço mínimo e fazendo pressão por prazos mais curtos de entrega. Ás vezes, o engenheiro responsável não tem nem tempo de pensar", afirma Eulálio.

"Quem deveria contratar o projeto é a Prefeitura e, depois, abrir concorrência para sua construção. Assim, poderia fazer um controle de qualidade, inclusive ao contratar uma seguradora, que verificaria todas as etapas do projeto."

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Esclarecimentos

O engenheiro afirma que, agora, os responsáveis pelo projeto da ciclovia serão chamados pelo Crea-RJ para prestar esclarecimentos e se defender. Caso uma eventual falha do projeto seja confirmada pelo órgão, eles podem receber uma punição que vai de uma mera advertência à cassação do registro profissional.

"Também gostaria que fosse feita uma verificação dos trechos que ficaram incólumes para checar sua segurança diante desse efeito de onda, para que isso não se repita."

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, disse "lamentar profundamente o acidente" e se "solidariza" com as famílias das vítimas. Paes estava a caminho da Grécia, onde participaria da cerimônia da tocha olímpica, mas decidiu retornar ao Brasil.

"É imperdoável o que aconteceu. Já determinei a apuração imediata dos fatos e estou voltando para acompanhar de perto", disse Paes em nota.

Os reparos serão executados pela empresa responsável pela construção, sem ônus adicionais ao município, diz a nota da Prefeitura, já que a ciclovia ainda está na garantia de obra.

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