Militar presente em atentados de Bruxelas recorda 'imagem apocalíptica'

Márcia Bizzotto - De Bruxelas para a BBC Brasil

Da manhã de 22 de março, o primeiro sargento Paul-Henri guarda na memória um cheiro de carne e sangue misturados com cinzas.

E uma imagem "apocalíptica", desenhada dor duas das três bombas que explodiriam em Bruxelas naquele dia, há exatamente um mês.

No total, 12 pessoas morreram no aeroporto internacional de Zaventem e outras 20 na estação de metrô de Maelbeek, próxima às instituições da União Europeia.

Era a primeira semana de Paul-Henri (ele pediu para não ter o sobrenome divulgado) como parte do contingente de 28 militares que reforçava a segurança no aeroporto desde os atentados de Paris, em 13 de novembro.

Quando a primeira bomba explodiu, na área de check-in, o militar, de 29 anos, estava na outra extremidade do andar abaixo, o saguão de desembarque. Pensou que o "barulho surdo" vinha das obras que eram realizadas em parte do aeroporto.

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Mutilados

Mas, poucos depois, a segunda explosão aconteceu logo acima da área onde ele e o parceiro se encontravam. E não deixou espaço para dúvidas.

"Subimos as escadas e aí nos demos conta. Era uma imagem apocalíptica. Tinha uma fumaça espessa, cinza. E, no meio, pessoas mutiladas, gritando, muitas sem perna e sem mão; gente correndo, o teto caindo, vidros quebrados. Uma tubulação estourou e jorrava água do teto. E havia esse cheiro forte de carne e cinzas misturadas, algo que não vou esquecer nunca", contou o soldado à BBC Brasil.

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Ele e o parceiro passariam as próximas doze horas no local, ajudando os feridos e os investigadores.

Com olhos mareados, Paul-Henri lembra como o sapato de uma aeromoça ferida "se desfez" quando ele a levantou para tirá-la do local. "Não sei como é possível, mas o pé dela estava intacto. Essa imagem me marcou."

Apesar de duas experiências em zonas de guerra - uma no Kosovo e outra no Afeganistão -, o militar afirma que "nunca se está preparado para um cenário desse tipo".

"Pensar que isso aconteceu no seu próprio país é irreal", disse.

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O diretor-médico do hospital militar Reine Astrid, David Vanhoutte, também diz ter ficado profundamente afetado pelas cenas que presenciou.

Os 270 feridos nos atentados, todos inicialmente atendidos no hospital, apresentavam quadros "muito complexos" de feridas de guerra, incluindo queimaduras graves, membros mutilados, hemorragia interna, lesões auditivas e visuais e perfurações por estilhaços.

Metrô

Algumas vítimas tinham pregos ou parafusos no corpo, objetos usados pelos terroristas nas bombas para aumentar os danos.

"Vi coisas que nunca tinha visto em 20 anos de carreira. Como médico e como pessoa, foi muito impressionante. Você pode ter 20 anos de prática, mas quando vê uma criança mutilada com feridas de guerra..."

Segundo o médico, muitos sobreviventes só começarão a se recuperar em dois ou três anos. As feridas darão lugar a problemas crônicos e os deixarão "marcados para sempre", principalmente no caso dos que sofreram queimaduras ou amputações.

"É essa a estratégia terrorista: tentar deixar um rastro inapagável pela vida."

Cidade traumatizada

Um mês depois, Bruxelas, ela mesma vítima do duplo atentado, também tenta seguir adiante, apesar das feridas não cicatrizadas.

A presença militar e policial é menos ostensiva que nos dias que se seguiram aos atentados e já não há controles sistemáticos de bolsas e bagagens nas entradas das estações de trem e metrô.

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A linha de metrô que passa por Maelbeek, cortando a cidade de leste a oeste, voltou a funcionar, mas a estação permanecerá fechada até 25 de abril.

"Quando o trem sai de Schuman (estação anterior a Maelbeek no sentido centro), parece que as conversas param. Fica um ar pesado. Acho que todo mundo tem medo. A gente sabe que a ameaça continua, mas temos que ir ao trabalho todos os dias", disse uma passageira à BBC Brasil.

Uma grande lona azul esconde a plataforma de Maelbeek dos olhares curiosos lançados pelas janelas quando o trem passa, em velocidade reduzida.

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No aeroporto de Zaventem, reaberto dez dias depois dos ataques, passageiros apreensivos percorrem o caminho improvisado demarcado nos estacionamentos até a estrutura pré-fabricada que hoje serve como área de check-in.

Só passageiros com cartão de embarque podem entrar no edifício destruído, também escondido por trás de tapumes e protegido por exército e polícia.

A frequência de voos alcança atualmente 450 voos diários, frente a 650 em período normal, e a administração assegura que restabelecerá a capacidade máxima até o final de junho, a tempo para as férias de verão europeias.

Mas ainda não há previsão para a reabertura da área afetada pelas explosões, onde a enorme escultura em bronze "Flight in Mind", de Olivier Strebelle, será mantida com os danos que sofreu, em lembrança do dia trágico.

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