Analistas divergem sobre posição dos EUA em relação a impeachment

Alessandra Corrêa - De Winston-Salem (EUA) para a BBC Brasil

No embate entre governo e oposição sobre a narrativa do impeachment de Dilma Rousseff, os Estados Unidos ganharam papel de destaque nesta semana, com visitas dos dois lados, incluindo da própria presidente, que discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas na sexta-feira (22).

A posição oficial do governo americano é de neutralidade. Mas analistas ouvidos pela BBC Brasil divergem em suas avaliações sobre a reação de Washington à crise brasileira.

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O economista Mark Weisbrot, codiretor do Center for Economic and Policy Research, centro de estudos econômicos de tendência de esquerda, vê sinais de apoio à oposição.

Ele cita o encontro entre o ex-embaixador americano no Brasil e atual subsecretário de Assuntos Políticos do Departamento de Estado, Thomas Shannon, e o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, que visitou Washington no início da semana.

"Esse encontro é um forte sinal de que eles (o governo americano) apoiam a oposição e o impeachment", disse Weisbrot à BBC Brasil.

Apoio ou cortesia?

O porta-voz do Departamento de Estado, John Kirby, salientou que o encontro já estava agendado há meses e não tem relação com a votação do impeachment no último domingo na Câmara dos Deputados.

Em entrevista à BBC Brasil no início da semana, Nunes também ressaltou que a visita já estava programada, mas revelou que o vice-presidente Michel Temer (PMDB) lhe telefonou na véspera da viagem pedindo ajuda para rebater a tese de que haveria "um golpe" em curso no Brasil.

Weisbrot destaca que Shannon é a autoridade mais influente no Departamento de Estado em relação a assuntos latino-americanos e diz que o fato de a reunião ter sido marcada antes da votação do impeachment "não significa nada".

"Não há qualquer protocolo que diga que Shannon teria de se encontrar com ele (Nunes) neste momento em particular. Ele poderia ter dado qualquer desculpa, é o número três no Departamento de Estado, é um cara ocupado", observa.

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Mas o cientista político Matthew Taylor, analista do Council on Foreign Relations e professor da American University, em Washington, discorda da avaliação.

"É comum que autoridades em visita aos Estados Unidos se encontrem com pessoas como Shannon. Não vejo isso como sinal de nada", disse Taylor à BBC Brasil.

"O governo americano tem sido cauteloso em não escolher lados na política interna do Brasil neste caso em particular. Acho que se reunirão com figuras importantes seja de oposição ou governo, como cortesia", afirma Taylor, que é co-editor do livroCorrupção e Democracia no Brasil .

Governos de esquerda

Weisbrot cita as reações de Washington a outras crises na América Latina, como as que tiraram do poder os presidentes de Honduras, Manuel Zelaya, em 2009, e do Paraguai, Fernando Lugo, em 2012.

"(Os Estados Unidos) querem se livrar de todos os governos de esquerda da região. E é apenas questão de crimes de oportunidade. Conseguiram em Honduras, no Paraguai. Tentaram várias vezes na Venezuela", diz.

"Têm um objetivo muito simples, que é ter governos que façam o que os Estados Unidos dizem, principalmente em política externa", afirma.

Taylor, porém, diz que o governo americano não seria "tão ingênuo de pensar que se livrar da esquerda é a melhor opção" no caso da crise brasileira.

"Acho que há um argumento de interesse nacional para os Estados Unidos, de que não está claro que um dos lados seria preferível ao outro", observa.

Taylor ressalta que, na visão americana, um governo do PMDB enfraquecido não seria melhor que um governo de esquerda liderado pelo PT.

"Os Estados Unidos sabem com quem estão lidando, com que sistema político estão lidando. Em um sistema de coalizão, como no Brasil, em que nenhum partido tem clara maioria, seria temerário favorecer um partido."

Ofensiva nos EUA

Taylor considerou inteligente a decisão de Dilma de não mencionar "golpe" no discurso desta sexta-feira nas Nações Unidas, em Nova York.

"Não acho que traria qualquer apoio de organismos internacionais ou governos estrangeiros e geraria uma reação dentro do Brasil", diz.

Mais tarde, porém, em entrevista a jornalistas, a presidente disse ser vítima de "processo ilegal, golpista e conspirador".

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A ofensiva brasileira nos Estados Unidos incluiu ainda os deputados federais Luiz Lauro Filho (PSB-SP) e José Carlos Aleluia (DEM-BA), enviados pela Câmara para acompanhar a participação de Dilma na ONU e divulgar a versão da oposição sobre o impeachment.

Temer também deu entrevistas a correspondentes estrangeiros no Brasil, nas quais rejeitou a ideia de golpe e ressaltou que as etapas do impeachment estão "de acordo com a Constituição".

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Na avaliação de Weisbrot, a oposição brasileira saiu prejudicada do que define como "circo televisionado" da votação do impeachment na Câmara e pelo fato de mais da metade dos deputados ser alvo de investigações ou acusações criminais.

Para Weisbrot, a imprensa estrangeira, que inicialmente seguia a brasileira, começou a cobrir o processo de maneira mais crítica, questionando sua legitimidade.

"Tudo isso prejudica a imagem do Brasil como uma democracia", diz Weisbrot, para quem esses fatores impulsionaram os esforços da oposição no exterior, em busca de legitimidade.

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Taylor avalia que os recentes esforços de ambos os lados no exterior têm mais relação com política doméstica do que com a comunidade internacional.

"Ao mesmo tempo em que creio ser bom para ambos os lados contar sua história, não acho que as pessoas que estão tentando influenciar, os governos estrangeiros, irão mudar de posição com base nas declarações de cada lado", diz Taylor.

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