O drama da menina paraguaia 'torturada e morta' que comoveu a Bolívia

Boris Miranda

BBC Mundo

  • Arquivo pessoal

    Tatiana Barreto, 3, morreu durante viagem que fez para visitar a mãe na Bolívia

    Tatiana Barreto, 3, morreu durante viagem que fez para visitar a mãe na Bolívia

A menina paraguaia Tatiana Barreto, de 3 anos, havia ido passar três meses de férias com sua mãe na Bolívia, mas jamais voltou para casa. Tatiana morreu depois de lesões que parecem decorrente de tortura e agressões físicas graves, segundo um laudo forense.

O caso aconteceu no ano passado e provocou comoção na Bolívia e no Paraguai, mas ainda não foi plenamente solucionado pela Justiça.

Segundo o laudo da morte dela, a garota teve edema cerebral, hemorragia, um traumatismo craniano e lesão nos seus centros nervosos superiores. Além disso, ela apresentava traumatismos no tórax, no abdômen, costelas quebradas, vestígios de agressões no rosto e em todo o corpo, além de estar sem se alimentar muitas horas antes de morrer.

Havia também marcas no pescoço que sugeriam tentativa de estrangulamento. "Trata-se de uma morte violência por intervenção de força externa lesiva", concluiu o exame forense.

Os principais suspeitos da morte de Tatiana são sua mãe, Fátima Velásquez, e o atual marido dela, Rubén Graff, a quem a garota havia ido visitar por três meses. Os dois foram presos preventivamente em La Paz – mas alegam inocência.

O pai da menina, Óscar Barreto, não pôde se despedir da filha no Paraguai, terra natal dela. Isso porque, por conta do imbróglio judicial do caso, Tatiana acabou sendo enterrada na Bolívia.

"Minha filha foi maltratada e torturada antes de morrer", disse ele à BBC.

Já a mãe de Tatiana alega que também "é vítima" e diz que a filha morreu após ter caído de uma escadaria. "Eu quero te dizer que eu não estava naquele momento (da morte de Tatiana). Minha filha é uma vítima e eu sou uma vítima da mesma forma. É injusto que eu esteja presa", disse Fátima Velásquez em setembro de 2015.

Ela e o marido são acusados de infanticídio, crime que prevê pena de até 30 anos de prisão, sem direito a indulto.

A BBC tentou falar com a defesa de Velásquez, mas não obteve resposta.

Viagem para a Bolívia

Segundo Óscar Barreto, Tatiana viajara à Bolívia para passar um tempo com sua mãe biológica.

"Eu apenas a enviei (em uma viagem) de férias. Faltavam sete dias para ela voltar quando morreu", afirmou o pai.

Ele diz que, no Paraguai, sua filha o acompanhava na academia que ele administra e que era uma garota "feliz e extrovertida".

"Minha irmã era com uma mãe para ela, e minhas sobrinhas estavam com ela em todo lugar, na dança, na natação, na igreja..."

O pai alega ter decidido autorizar a viagem de Tatiana por insistência da mãe e que nunca havia imaginado que isso custaria a vida de sua filha.

Agora, ele diz acreditar que os meses que a menina passou em La Paz foram "um pesadelo" e que ela apanhava constantemente da mãe e do padrasto. "Eu sei que ela (Tatiana) iria me contar sobre os maus-tratos e as torturas que sofreu", declarou.

Barreto diz que viu uma foto de Tatiana durante o período que ela passou com a mãe na qual seria possível ver as marcas de hematomas no rosto e na boca da garota.

Justiça

O pai conta com o apoio de duas advogadas voluntárias na Bolívia, Ninoska Durán e Roxana Pérez del Castillo, que acompanham o caso.

A Defensoria da Infância, instituição pública dedicada à proteção de menores da prefeitura de La Paz, disse à BBC que o caso de Tatiana "com certeza se trata de infanticídio".

"O laudo e as investigações do Ministério Público são claros. É uma menina que chegou a passar algum tempo na Bolívia e sofreu violência física, psicológica e violência por negligência", disse a chefe da entidade, Inés Aramayo.

Ela explica que o corpo da garota não pôde ser enviado ao Paraguai por causa das ações judiciais que correm na Bolívia contra a mãe dela.

Os representantes legais de Fátima Velásquez pediram que o corpo de Tatiana seja desenterrado para que possa ser feita uma necrópsia, com o objetivo de confirmar algumas conclusões do laudo.

A mãe da menina usou seu direito de permanecer em silêncio durante as audiências públicas e não se manifestou mais sobre o caso.

"O corpo de minha filha está sequestrado, mas nós vamos até ao fim. Os advogados me disseram que o julgamento vai ser muito doloroso para mim, mas não importa. Que ela sirva de exemplo. É uma dor que não desejo a ninguém", disse Barreto.

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