Rio 2016: Brasil incorpora atletas e apoio militares em busca de mais medalhas

Luis Kawaguti - Enviado especial ao Rio de Janeiro

O Comitê Olímpico do Brasil estabeleceu como meta que o país fique entre os dez maiores ganhadores de medalhas na Olimpíada do Rio. E, para treinar os atletas, tem recebido ajuda das Forças Armadas.

Segundo o COB, o Brasil tem 428 vagas já garantidas para os jogos. Muitas delas se devem ao fato de o país ser o anfitrião e já ter participação assegurada em diversas modalidades. Até agora ao menos 145 delas já foram preenchidas por atletas específicos.

Segundo o Ministério da Defesa, dos atletas já garantidos 67 são militares - quase a metade do total. A estimativa do COB é que, quando os jogos começarem, os atletas das Forças Armadas representem ao menos 30% do Time Brasil.

O apoio das Forças Armadas começou durante a preparação para os Jogos Mundiais Militares, em 2011.

Como o Brasil era anfitrião dos Jogos, as Forças Armadas realizaram concursos públicos para incorporar atletas profissionais às suas fileiras.

A ideia era que esses civis se tornassem militares para representar o Brasil. Mas a partir daí passavam a receber salário, alimentação, moradia e outros benefícios da carreira militar. Era o PAAR (Programa Atletas de Alto Rendimento).

Os atletas precisavam já ter se destacado em seus esportes e, uma vez incorporados, passavam pelo treinamento militar regular - para depois se dedicar ao treinamento em suas modalidades. Nas Forças Armadas passavam também a ter acesso a instrumentos e instalações esportivas.

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'Topo da pirâmide'

"É uma medida para um momento de necessidade. Dá um grande resultado, mas é mais voltada para o topo da pirâmide", diz à BBC Brasil a ex-atleta do vôlei Ana Moser, que hoje atua em gestão esportiva. Ela preside o Instituto Esporte e Educação, que atende crianças e capacita professores na área do esporte.

"Temos que criar novos atletas, não só investir nos que existem", prossegue.

O PAAR teve sucesso nos Jogos Militares e por isso foi mantido. No Panamericano do Canadá (2015), muitos atletas militares se destacaram - e chamaram atenção ao bater continência ao subir no pódio.

O gesto foi alvo de críticas. Mas foi explicado pelas Forças Armadas não como uma determinação, mas sim como uma deferência dos atletas às suas forças.

Na Olimpíada, o programa de treinamento de atletas de alto rendimento almeja ser uma das maiores contribuições das Forças Armadas, junto com as funções de segurança, logística e fornecimento de instalações.

Estratégias do COB

O COB montou uma estratégia para preparar o Time Brasil que tem alguns paralelos com uma operação militar - quanto ao elevado número de detalhes e fatores condicionantes -, disse à BBC Brasil o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, que dirige o Instituto Olímpico (órgão educacional do COB) e o departamento de Comunicação e Educação Corporativa da entidade.

Antes de ir para a reserva, Heleno foi o primeiro brasileiro a comandar a missão de paz da ONU no Haiti e passou por uma série de postos na cúpula do Exército. Ele é um general de Exército, mas não faz parte da ajuda "oficial" das Forças Armadas ao esforço olímpico.

Ao deixar a entidade em 2011, foi convidado por Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, para trabalhar em sua equipe - o general já havia chefiado o Centro de Capacitação Física do Exército, órgão que auxilia na preparação de atletas militares.

Segundo Heleno, a Diretoria de Esportes do COB elaborou uma estratégia de treinamento de atletas que tem alguns pontos básicos.

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O primeiro deles é fornecer recursos financeiros para as confederações, com o objetivo de dar aos atletas brasileiros acesso a treinamento de qualidade dentro do Brasil e a campeonatos internacionais - para ganhas vivência e vencer o nervosismo gerado pelas competições de alto nível.

Outro ponto é a estrutura de "ciência do esporte". Ou seja, montar equipes de apoio formadas por médicos, fisioterapeutas, especialistas em sono e psicólogos - para que os brasileiros não fiquem em desvantagem em relação a equipes estrangeiras que possuem esses recursos.

De acordo com o general, outro fator da estratégia é melhorar as instalações esportivas internas - como com a construção por meio de parcerias público-privadas de instalações como o Parque Olímpico da Barra e o Parque Radical do Rio.

Gestores e técnicos

O COB identificou também uma lacuna na área da formação de treinadores gestores e equipes de apoio ao atleta. Para fortalecer essa área criou o Instituto Olímpico, o órgão dirigido por Heleno.

O órgão montou um MBA para gestores esportivos e uma academia brasileira de treinadores. Umas das principais ações é trazer ao Brasil técnicos e atletas internacionais para ministrar cursos para os membros do Time Brasil.

Segundo Heleno, essa "preparação científica" dos atletas começou há relativamente pouco tempo.

"Durante muito tempo houve uma ausência enorme de recursos (apesar de) sabermos o que tínhamos que fazer. Hoje temos recursos, estamos buscando aplicar aquilo que nós sabemos que tem que ser feito, mas temos pouco tempo", diz.

Por outro lado, segundo ele, o treinamento tem sido intenso e o Brasil contará na Rio 2016 com a torcida favorável e uma vantagem numérica, na medida em que tem participação garantida (independentemente de índices olímpicos) em muitas modalidades.

Ausência de programa nacional

Mas tanto Heleno como Ana Moser afirmam que embora tenha havido grande investimento nos atletas profissionais, o Brasil não possui um programa nacional de esportes que fortaleça as categorias de base dos esportes - de onde poderiam surgir novos talentos.

Segundo Moser, o investimentos voltado especialmente aos atletas profissionais aparenta vir tanto de uma necessidade de ter bons resultados nos Jogos como de uma falta de conhecimento dos gestores públicos.

"Não temos uma cultura de disseminação dos esportes, ainda não é uma área importante na visão de muitas pessoas", disse.

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Para Heleno, ao longo do tempo o Brasil subirá na escala de potências mundiais do esporte e a Olimpíada contribuirá principalmente para a formação de recursos humanos e de uma mentalidade olímpica.

Mas Moser ressalta que muitos setores do esporte temem que, após o fim da Rio 2016, os recursos para o esporte voltem a minguar.

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