'Continua querendo ganhar tudo no grito', diz estudante que recebeu voz de prisão de Telhada na Alesp

Na manhã de quarta-feira, Karol Rocha era apenas mais uma das estudantes que participavam da ocupação da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). Ao fim do dia, já tinha virado "a estudante que enfrentou o Coronel Telhada" após viralizar na internet um vídeo em que ela aparece discutindo asperamente com o deputado estadual do PSDB.

O vídeo foi visto por mais de 500 mil pessoas e gerou comentários como "Quem é essa mina que eu mal conheço e pela qual já estou apaixonado?!" ou "Bela, recatada e do lar!!!! Mulheres de luta!!". Mas não houve só apoio à iniciativa dos estudantes e à postura da jovem. "Tinha que descer o cacete", disse um usuário no YouTube. Ou: "O que ela fez para merecer isso? O vídeo não mostra tudo", disse outro.

Ex-comandante da Rota (a tropa de elite da Polícia Militar) e ex-vereador, Paulo Telhada é deputado estadual (PSDB) e foi eleito em 2014 com o segundo maior total de votos de São Paulo. É integrante da frente no Congresso conhecida como "Bancada da Bala" que defende, entre outras coisas, projetos para reduzir a maioridade penal e flexibilizar o porte de armas.

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Em entrevista à BBC Brasil , por telefone, a estudante, que faz pós-graduação em Jornalismo e integra a diretoria da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), disse ter sido revoltante ouvir de Telhada a confirmação do motivo pelo qual ela deveria ser presa (veja abaixo a transcrição do diálogo).

"Ele continua agindo como militar, usando uma autoridade que não tem mais. Continua querendo ganhar no grito, na força, coagindo as pessoas", disse à BBC Brasil.

Em ocasiões anteriores, Telhada, que é coronel reformado da PM, negou a fama de violento e chegou a ironizar a imagem pejorativa da "Bancada da Bala" com oferta de "balas docinhas" em seu gabinete. O grupo reúne "um pessoal que quer trabalhar forte, quer combater o crime, quer trabalhar dentro da lei", definiu em entrevista à BBC em 2015.

Um grupo de estudantes ocupa o plenário da Alesp desde a noite de terça-feira. Eles pedem a a instauração imediata de uma CPI para investigar a chamada "máfia das merendas" das escolas em São Paulo e acusam o órgão de vetar a comissão pelo fato de seu presidente, o deputado Fernando Capez (PSDB), ser investigado por suspeita de receber propina de desvio de dinheiro com fornecedores de merenda para São Paulo. Capez nega envolvimento no esquema.

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Merenda

No vídeo, a estudante questiona a ordem do deputado para que ela fosse detida.

"Baixe o seu tom de voz comigo", afirma Telhada.

"Baixe o seu para falar comigo, me respeita", responde a estudante.

"Vamos prender essa moça", repete Telhada duas vezes.

"Ah, vai me prender? Por quê? Por que eu defendo uma CPI legítima?"

"É por isso mesmo", respondeu.

Na versão da estudante, a discussão começou quando ela falava ao celular e Telhada começou a gritar com ela, dizendo que a conversa estava atrapalhando uma entrevista que ele dava no momento.

Já Telhada afirma em vídeo que divulgou nas redes sociais que a jovem o interrompeu. "Eu e o delegado Olim (deputado PP) estávamos dando uma entrevista quando essa pessoa começou a nos ofender nos chamando de ladrões."

O vídeo mostra Karol discutindo com o deputado, que lhe dá voz prisão.

"Você está pensando que está falando com algum moleque? Eu sou deputado e deputado tem que ser respeitado nessa casa!", grita o coronel.

"Por que você é deputado?", grita de volta Karol.

"Sim, senhora!"

"Eu sou estudante, mulher e também mereço respeito."

"Vou te botar daqui para fora."

"Aqui é a casa do povo", rebate a jovem.

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"Fiquei indignada quando ele me ameaçou me prender. Ele continua agindo como um policial militar, querendo ganhar tudo no grito, na força, coagindo as pessoas, seja colega deputados ou estudantes. É tudo na base da violência", diz Karol.

Apoio

Em suas redes, Telhada diz: "Dei voz de prisão por flagrante e delito." A assessoria do coronel informou à BBC Brasil que ele deu voz de prisão da mesma forma como pode fazer qualquer cidadão e informou que o motivo seria a jovem ter desacatado uma autoridade, no caso, um deputado.

Em seu vídeo, Telhada acusa líderes ligados ao PT de proteger a jovem. "Mais uma vez, o PT indiciu em uma crime quando permitiu que a jovem fugisse."

A assessoria informou ainda que Telhada ia realmente prendê-la e que vai denunciar a atitude de João Paulo Rillo nos dois dois pedidos de cassação contra ele feitos por Telhada.

No vídeo da discussão, há alguns partidários de Telhada que o criticam. "Po, coronel sou seu fã mas a sua discussão com a estudante foi muito feio. Os estudantes têm o direito de ocupar a casa do povo, não se esqueça nunca de quem o colocou lá", disse um internauta.

Já na página do coronel no Facebook, o apoio é maciço.

"Eu fico p. porque 60 ou 70 vagabundos titulados como estudante vão lá fazem uma zorra e querem dizer que estão ali representando os jovens", disse um internauta. "Telhada e Olin, eu sou fã número 1. Esse bando de 'estudantes' corrompidos por um sistema podre de educação petista, que não respeita os pais em casa, depois quer fazer o mesmo com os outros na rua! Aí ela achou o dela! Tá acostumada a falar com frouxos frutinhas, se ferrou! Aqui é caveira, minha filha!"

Telhada afirma que é contra a CPI das Merendas porque o caso já está sendo investigado por uma força-tarefa da Polícia Civil e do Ministério Público.

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