'Votei em Dilma pelo emprego e agora estou na rua'

Felipe Souza

Em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    José Neto Pinheiro com a mulher e as filhas na casa onde mora em São Mateus, no extremo leste de São Paulo

    José Neto Pinheiro com a mulher e as filhas na casa onde mora em São Mateus, no extremo leste de São Paulo

Designer gráfico com mais de 30 anos de experiência, José Neto Pinheiro, 50, acorda há dois meses com um sentimento de impotência. Pai de quatro filhas, o morador de São Mateus, no extremo leste de São Paulo, foi demitido das duas empresas onde trabalhava e hoje vê a mulher, que conseguiu seu primeiro emprego em 2015, como a principal fonte de renda da família.

O motivo dado pelos patrões de Pinheiro para o corte foi a grave crise econômica que atinge o Brasil.

O designer votou na presidente Dilma Rousseff na última eleição presidencial, mas agora se diz arrependido e torce pelo impeachment. "Eu votei na Dilma pelo meu emprego e agora estou na rua. Eu confiei na palavra dela de que a economia se ajustaria e vimos o resultado", afirmou Pinheiro em entrevista à BBC Brasil.

"Eu tinha a esperança de que a Dilma pudesse dar continuidade ao governo e implantar os projetos que ela não conseguiu em quatro anos. Acreditei que não haveria aumentos de impostos e que a crise seria controlada", relata.

Apesar de apoiar o impeachment, Pinheiro aposta que a melhor solução para dar vida nova e confiança ao país é convocar novas eleições presidenciais. Como ele avalia ser improvável isso ocorrer, espera que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o vice-presidente da República, Michel Temer, também sejam cassados.

Primeiro emprego

A mulher de Pinheiro, Helena Fernandes Francisco Freitas, 46, ganhou seu primeiro emprego após o volume de serviços do marido cair drasticamente em 2015. Na época, ela começou a trabalhar como vendedora de roupas na galeria do Rock, no centro de São Paulo. Em poucos meses, ela deixou de cuidar da casa e dos filhos para trabalhar fora o dia inteiro e garantir a renda familiar.

"Se a minha mulher não estivesse trabalhando, teríamos passado um fim de ano difícil mesmo. Torço para ela progredir porque não consegui quase nenhum bico nos últimos meses. A situação está grave para mim", afirmou o designer.

Depois de um ano de trabalho, a mulher do designer já ganhou a confiança da patroa e gerencia três lojas. Ela, que não tinha concluído o ensino médio, voltou a estudar para continuar crescendo na carreira.

Mas, apesar de a mulher de Pinheiro estar empregada, a renda de sua família ainda é inferior em relação aos últimos anos. Ele relata que o seu auge profissional ocorreu durante o governo do ex-presidente Lula. "Naquela época, a gente evoluiu muito. A esperança era de que o segundo mandato da Dilma diminuísse impostos e garantisse mais empregos. O resultado é esse que a gente conhece", diz.

Até a filha de 16 anos do casal começou a trabalhar em lojas especializadas em animes (desenho animado japonês) para reforçar a renda da casa. "Ela queria estar mais preocupada com os estudos, mas não temos opção", afirma o pai, com a voz embargada.

Preocupação

Pinheiro diz estar procurando emprego "feito louco", mas que suas esperanças diminuem com o tempo. "Meu trabalho de design é visto como vaidade. Você pode tentar colocar na cabeça do empresário que, se ele não fizer propaganda, não gira. Mas o cara rebate dizendo que ninguém está comprando e está devendo até para o fornecedor. Como ele vai te pagar assim?", diz.

Ele trabalhou em campanhas de grandes empresas e desenvolvimento de sites; hoje diz que só pega "um cartãozinho ou um panfletinho" para fazer.

"O que a gente vê hoje são as empresas praticamente travando. O grupo de empresários que eu trabalhava tem pouco mais de 2 mil empregados e demitiu mais de 250 em 2015. Neste ano já foram mais 150 pessoas para a rua. E o pior é que você conversa com eles e ouve que haverá mais cortes", relata Pinheiro.

"O meu maior medo é não encontrar mais trabalho. Mas enquanto houver emprego, por menor que seja, a gente se vira e dá a volta por cima."

Novas eleições

Apesar de defender a saída de Dilma, José Neto Pinheiro vê a possibilidade de novas eleições presidenciais como a melhor saída para o país deixar a crise.

"O brasileiro tem memória muito curta. Hoje, o nome daqueles envolvidos em corrupção está fresco na memória e, provavelmente, os brasileiros saberiam em quem votar. Imagino que não votariam nos mesmos, mas ainda tenho um pé atrás", afirmou.

Ele diz que não votará em nenhum candidato do PT, PMDB ou PSDB. "No primeiro turno, votei na Marina porque queria mudar em todos os setores. No fim, reelegemos o mesmo governador em São Paulo e a presidente da República. Isso fez eles se acomodarem e por isso vemos cenas de um presidente da Câmara afastado e o Supremo fazendo joguinho político. Coisa ridícula", diz.

Para ele, qualquer caminho que o país tome será incerto. "Agora, a pergunta que fica é: quem são os personagens que vão substituir a Dilma? Precisamos de novos nomes porque esses são todos criminosos, uma bandidagem sem fim."

Sessão que vota impeachment de Dilma deve durar cerca de 12 horas

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