O polêmico acordo feito há 100 anos que ainda causa ressentimentos e conflitos no Oriente Médio

Jim Muir - BBC News

  • National Archives

    Assinaturas dos diplomatas Mark Sykes, britânico, e François Georges-Picot, francês, em documento de 16 de maio de 1916

    Assinaturas dos diplomatas Mark Sykes, britânico, e François Georges-Picot, francês, em documento de 16 de maio de 1916

Ao completar cem anos em meio a críticas generalizadas na região, o legado do acordo secreto de Sykes-Picot de 1916 nunca pareceu tão duvidoso.

Enquanto o Iraque se afunda no caos e na desintegração, líderes curdos na região autônoma no norte do país ameaçam declarar independência.

E militantes do grupo autodenominado Estado Islâmico (EI), desde o momento em que levaram terror à fronteira entre Iraque e Síria, em junho de 2014, anunciaram a intenção de erradicar todas os limites da região e enterrar o acordo Sykes-Picot para sempre.

Qualquer que seja o destino do EI, o futuro da Síria e do Iraque como Estados unitários - algo central ao projeto Sykes-Picot - está em risco.

Na verdade, praticamente nenhuma das atuais fronteiras do Oriente Médio foi delineada no documento concluído em 16 de maio de 1916 pelos diplomatas Mark Sykes, britânico, e François Georges-Picot, francês.

O posto de fronteira entre Síria e Iraque destruído pelo EI ficava provavelmente a centenas de quilômetros da famosa "linha na areia" desenhada por Sykes e Picot, que corria desde a fronteira persa no nordeste, descendo entre Mosul e Kirkuk e pelo deserto rumo ao Mediterrâneo, tomando depois a direção norte até contornar a extremidade da Palestina.

As fronteiras atuais da região surgiram de um longo e complexo processo de tratados, conferências, acordos e conflitos que sucedeu a queda do Império Otomano e o fim da Primeira Guerra Mundial.

Mas o espírito do acordo Sykes-Picot, dominado pelos interesses e ambições das duas principais potências coloniais à época, prevaleceu durante aquele processo e pelas décadas seguintes, até a crise do canal de Suez em 1956 e inclusive depois disso.

A hora dos curdos?

Por ter inaugurado aquela era, e consolidado o conceito de acertos coloniais clandestinos, Sykes-Picot se tornou um marco de uma era em que forças externas impunham sua vontade, traçavam fronteiras e trocavam governos, em um jogo de dividir e conquistar com os "nativos" e em um xadrez complexo com os rivais coloniais.

A herança para o Oriente Médio atual é uma variedade de Estados cujos limites foram traçados com pouca atenção a características étnicas, tribais, religiosas ou linguísticas.

Formados quase sempre por um apanhado de minorias étnicas, esses países sofrem uma tendência natural à desintegração, a menos que sejam unificados pela mão de ferro de um líder ou por um governo central poderoso.

A ironia é que as duas forças mais potentes a desafiar o legado de Sykes-Picot são inimigas mortais: os militantes do EI e os curdos do norte do Iraque e da Síria.

Nos dois países, os curdos, ao combater o EI, mostraram ser os aliados mais efetivos da coalizão ocidental liderada pelos EUA, embora os dois lados dividam a determinação em redesenhar o mapa da região.

"Não sou apenas eu dizendo, o fato é que o Sykes-Picot falhou, está acabado", afirmou à BBC o presidente da região iraquiana autônoma do Curdistão, Massoud Barzani.

"É preciso uma nova fórmula para a região. Estou muito otimista sobre a chance de os curdos alcançarem sua demanda histórica e o direito (à independência) nessa nova fórmula."

"Passamos por experiências amargas desde a formação do Estado iraquiano depois da Primeira Guerra Mundial. Tentamos preservar a unidade do Iraque, mas não somos responsáveis por sua fragmentação - são os outros que dividiram o país", afirma.

"Não queremos ser parte do caos e dos problemas que cercam o Iraque por todos os lados."

Entidade com fronteiras

Barzani diz que o desejo de independência dos curdos é muito sério, e que as preparações para isso estão "a todo vapor".

Segundo ele, o primeiro passo seria uma rodada de "sérias negociações" com o governo central em Bagdá para tentar um entendimento e uma solução, algo que líderes curdos classificam como "separação amigável".

Se isso não produzir resultados, afirma, os curdos deverão tocar o processo por conta própria, com um referendo sobre a independência da região.

"É um passo necessário, porque todas as tentativas e experimentos anteriores falharam. Se as condições atuais não forem favoráveis à independência, não há como não demandar esse direito."

Os curdos iraquianos estão cercados por vizinhos - Síria, Turquia, Irã e o próprio Iraque - que tradicionalmente rechaçaram suas aspirações separatistas.

Sob ameaça do Estado Islâmico, eles dependem mais do que nunca de potências ocidentais que também os aconselham a se manter como parte do Iraque.

Mas conseguindo ou não independência no futuro próximo, os curdos iraquianos já estabeleceram uma entidade com fronteiras, bandeira, aeroportos internacionais, Parlamento, governo e forças próprias de segurança - ou seja, tudo menos moeda e passaporte.

Nesse sentido, eles já redesenharam o mapa do Oriente Médio. E logo ao lado, na norte da Síria, curdos locais estão fazendo a mesma coisa, controlando grandes porções de terra ao longo da fronteira com a Turquia.

Redesenhando o futuro

Para o Estado Islâmico, seus ganhos territoriais já atingiram um pico. Mas o caos no Iraque e na Síria que permitiu ao grupo consolidar suas posições ainda está em curso - a alienação da minoria sunita (e curda) no Iraque e a fragmentação da Síria numa guerra civil sangrenta.

A luta silenciosa envolve a busca por fórmulas de convivência de comunidades dentro de fronteiras traçadas pela história do século 20, ou a definição de novos limites para acomodar esses povos.

"Sykes-Picot está acabado, isso é certo, mas tudo está no ar agora, e ainda demorará para o resultado disso ficar claro", afirma o líder druzo libanês Walid Jumblatt.

O acordo de Sykes-Picot contradiz promessas de liberdade feitas aos árabes pelos britânicos em troca de seu apoio na luta contra o Império Otomano na Primeira Guerra Mundial.

Também conflitou com a visão do presidente dos EUA Woodrow Wilson, que pregava a autodeterminação de povos subjugados pelo Império Otomano.

Seu conselheiro de política externa Edward House foi posteriormente informado sobre o acordo pelo secretário do exterior do Reino Unido Arthur Balfour, que 18 meses depois daria o nome a uma declaração que causaria um impacto ainda maior na região.

House escreveu: "Tudo é ruim e eu avisei Balfour sobre isso. Estão criando um criadouro para guerras no futuro."

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