O melhor país do mundo para as mulheres na política?

Cindy Sui - BBC News, Taipei

Na sexta-feira, Tsai Ing-wen vai virar a primeira presidente mulher de Taiwan.

Esta nunca foi uma grande ambição para a ex-professora de direito apaixonada por gatos. Mas ela acabou se tornou, virtualmente, um exemplo único entre as líderes femininas do sudeste asiático.

Ao contrário da presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, da ex-presidente das Filipinas Corazon Aquino e da ex-primeira-ministra da Tailândia Yingluck Shinawatra, ela não está seguindo os passos de um pai, irmão ou marido que estava em uma posição de poder.

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E isso não é incomum em Taiwan.

Muitas das políticas de Taiwan, incluindo a ex-vice presidente Annette Lu, a prefeita da cidade de Kaohsiung, Chen Chu, e a líder do partido Kuomintang, Hung Hsiu-chu, chegaram ao poder sem vir de uma família de políticos.

As mulheres também brilham no Parlamento de Taiwan, onde é comum ver imagens de mulheres liderando as discussões.

Após as eleições de janeiro, o país tem agora um recorde de 38% da casa composto por mulheres, o que coloca Taiwan à frente de países asiáticos, da média mundial de 22% e da maioria dos países no mundo, incluindo o Reino Unido, Alemanha e os EUA.

No Brasil, por exemplo, as mulheres compõem 10% da Câmara e 13% do Senado.

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Mas então, por que apenas 4 dos 40 membros do gabinete de Tsai são mulheres?

A polêmica traz ecos da discussão despertada no Brasil pela ausência de mulheres no gabinete ministerial do presidente interino Michel Temer - que estariam representando mais de 50% da população do país.

Em Taiwan, o porta-voz do governo culpou a carência de mulheres experientes no partido, por este ter ficado fora do poder por muitos anos, e o fato de mulheres terem sido eleitas para outros postos. Ele também disse que algumas mulheres recusaram convites para o gabinete.

Uma delas, a ex-ministra da Fazenda Ho Mei-yueh, de 65 anos, me disse que havia dedicado 33 anos de sua vida ao governo, colocando suas próprias necessidades em segundo plano enquanto também cuidava da família.

Agora, ela simplesmente quer um tempo para ela mesma. É a eterna questão do equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, para muitas mulheres.

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"Eu tinha que trabalhar e cuidar das crianças. A única pessoa que eu podia negligenciar era eu mesma", diz Ho. "Um homem da minha idade recusaria essa proposta? Homens, quando são jovens, não precisam dar tanto deles mesmo, porque a tarefa de tomar conta das crianças não recai sobre eles. Para muitos homens, o trabalho é a vida deles."

Mesmo assim, é tão natural ver mulheres na política em Taiwan que falou-se pouco do gênero de Tsai, a futura presidente.

Mas, observando de perto, fica claro que cotas estão por trás dos relativos altos percentuais de mulheres na política em Taiwan. As regras eleitorais determinam que metade dos assentos reservados para as listas dos partidos mais votados devem ser preenchidos por mulheres.

Para es eleições distritais , essa cota para uma em cada quatro cadeiras nos conselhos locais.

"Está na Constituição que deve haver posições especiais para mulheres. Apenas países escandinavos adotaram políticas semelhantes. É certamente único na Ásia e em outras partes do mundo", diz Joyce Gelb, professora baseada em Nova York que estudou participação política as mulheres em Taiwan.

Outros fatores ajudaram: o compromisso com a representação feminina mesmo nas primeiras décadas de existência da República da China (nome oficial de Taiwan), uma história de ativismo feminino, assim como uma sociedade com muitas mulheres educadas e profissionais que podem assumir posições de liderança, dizem pesquisadores.

Ao longo dos anos, o número de mulheres no Legislativo ultrapassou a cota, levando algumas pessoas a argumentarem que ela não seria mais necessária.

Mas o fracasso de Tsai em colocar mais mulheres no gabinete mostra que as cotas ainda são úteis para equilibrar a balança. Em eleições sem cotas, como para prefeito ou magistrados locais, a porcentagem de mulheres eleitas é de cerca de 15%. E há bem menos candidatas mulheres do que homens.

"Quando é uma disputa um a um, os homens tendem a se sair melhor por causa da sua experiência e conexões pessoais. Ainda não criamos as mulheres para ir para a política e o governo", diz Chen Man-li, diretora de uma aliança de grupos de mulheres e legisladoras recém-eleitas.

Grupos de mulheres dizem não ter dúvidas de que ter mulheres na política faz diferença: é mais fácil aprovar lei favoráveis a mulheres, incluindo licença maternidade e cuidados de crianças.

Nathan Batto, pesquisador da Academia Sinica que estudou participação de mulheres na política, diz que, com cotas, os partidos dão mais atenção ao treinamento e desenvolvimento de mulheres na política.

Mas o maior desafio ainda é mudar a visão da sociedade para tornar possível que mulheres entrem e, mais importante, continuem na política, e com isso voltamos à questão do equilíbrio vida pessoal-trabalho.

"Mulheres enfrentam muitos obstáculos que os homens não enfrentam ao desenvolver sua carreira política", diz Batto. "Elas precisam do apoio da família e do marido. A aprovação do parceiro normalmente é mais automática para homens que para mulheres."

Taiwan está muito a frente de outros países, mas vale a pena notar que nenhuma das quatro mulheres mais importantes na política de Taiwan são casadas ou têm filhos.

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